Remédios do fundo do quintal e a coqueluche - Parte 2
REMÉDIOS DO FUNDO DO QUINTAL E A COQUELUCHE - Parte 2
Paulo Lisker, de Israel
Quando a minha tosse não cedia com nenhum dos remédios de quintal, lembro-me que a pedido da minha mãe, meu avô viajava comigo para o porto.
-Tomar uma brisa é muito salutar, dizia ela.
Ver os navios ancorados, sentir o cheiro da maresia e a catinga (fedentina, na língua da rua), que emanava das cargas de charque que procediam do sul do país, possivelmente isso poderá ajudar a amenizar a intensidade desta "krenk" (do iídiche: enfermidade), tosse que parece com a de um cão doente. Essa famigerada coqueluche. Vai leva o menino e vamos ver. Combinado?
-É.... experimentar, não custa nada, respondeu meu avô!
Mas pelas rugas na sua testa dava a entender que ele não acreditava muito nesta "solução remédio" baseado na fedentina, mas não quis contrariar sua filha que na velhice era para ele quase o único suporte.
-Se ela manda ir ao porto com o menino tossindo desse jeito, irmos, valerá como passeio também.
Lá vai respirar a fumaceira dos rebocadores e a fedentina no desembarque da carne de charque e dos sacos de batata e de cebola podre, que vinham de portos longínquos e com o tempo da viagem nos porões sem a mínima ventilação se deterioravam (cheiro horrível).
Tudo bem, então amanhã mesmo iremos! Começávamos tomando um bonde ou ônibus defronte do Hotel Central na Avenida Manoel Borba, viajávamos até o "Marco Zero". Lá no circular, descíamos, íamos até o parapeito do trecho permitido ao publico ver o mar tranquilo e sem problemas de barreiras na entrada das docas, dos dois lados do porto onde estavam os armazéns.
Coisas interessantes para um menino ver.
Coisas interessantes para um menino ver.
Era um rebocador fumaçando de velho e o esforço que fazia para arrastar um ITA ou um dos PEDROS, (tinham dois, o Primeiro e o Segundo, em homenagem aos dois Imperadores brasileiros), quando entravam ou deixavam o nosso porto em direção a outros mais ao norte ou no sul do Brasil.
Coisa que não se esquece nunca são os cheiros mesmo que sejam fedorentos e assim era a fumaça do rebocador e dos navios. Saibam que só num porto se poderia ver e sentir este fenômeno.
Vi estivadores tirando uma soneca do lado que dá para o mar numa faixa de concreto junto ao parapeito no trecho livre ao público, eles nem ligavam para a fedentina que pairava no ar, dormiam feito anjinhos.
Coisa que não se esquece nunca são os cheiros mesmo que sejam fedorentos e assim era a fumaça do rebocador e dos navios. Saibam que só num porto se poderia ver e sentir este fenômeno.
Vi estivadores tirando uma soneca do lado que dá para o mar numa faixa de concreto junto ao parapeito no trecho livre ao público, eles nem ligavam para a fedentina que pairava no ar, dormiam feito anjinhos.
Perguntei ao meu avô:
-Como é que eles dormindo desse jeito não rolam e caem no mar?
- Quantas vezes tu rolaste da cama e caíste no chão? Quase nunca, verdade? Assim também o estivador. Isto se chama o sexto sentido que todos nós possuímos de nascença.
- Eita bichão sabido da peste este "Semi Deus", falei com "meus botões" e tive um forte ataque da "coqueluche canina". Até que passou levou uns minutos. Que diabo de remédio inventou a minha mãe, respirar esta fedentina do porto. Será que trouxe isso da Áustria, sua terra natal? Virgem!
Noutro dia vi quando pegaram um tubarão e colocaram na calçada da pracinha Marco Zero.
Noutro dia vi quando pegaram um tubarão e colocaram na calçada da pracinha Marco Zero.
Os pescadores o cortavam ainda vivo. O bicho dava saltos a cada peixerada que levava, o sangue espirrava para longe. Muita gente em volta tentava se desvencilhar, mas não escapavam. Sempre alguém se melava (manchava) com o sangue do tubarão agonizando! Até eu recebi umas gotas na cara de um espirro desses.
Meu avô logo tirou o seu lenço de linho branco, umedeceu com seu cuspe e tentou limpar a minha cara.
E se lhes contar que abriram a boca de um tubarão vivo e meteram de goela adentro uns dez ouriços, para que sofra por muito tempo e aprenda a não atacar pessoas nas praias do Recife que sempre foram visitadas por esses "bichos marítimos". Vocês acreditariam nisso ou diriam: - Estórias de menino assombrado. Acreditem se quiserem!
Parece que judeus não toleram nem o mínimo contato com sangue humano ou animal.
Parece que judeus não toleram nem o mínimo contato com sangue humano ou animal.
Os cirurgiões judeus se cuidam por demais para evitar ter contato com sangue do paciente. Um dia perguntarei a um rabino o motivo deste proceder.
Interessante, também esse outro costume bizarro de usar o cuspe para limpar sujeira no corpo.
Vi esta atitude frequentemente na minha casa e em outras casas de judeus, não só no Recife. Parece que limpar algo manchado ou sujo no corpo de alguém, usando o cuspe de outra pessoa não é nojento, talvez até salutar. Será?
O cuspe é usado para limpar o "grude" (sujo em nordestino), que nos afeta de vez em quando e o que se junta nas orelhas que nem o banho com sabão, limpa. Costumes bizarros têm essa gente!
Vi também algumas mães de nenês limparem a chupeta quando esta caía no chão, então a colocavam na sua própria boca para limpá-la, antes de devolver a boca do nenê.
Costume estranho, não é mesmo? Acreditem-me que este costume também averiguarei um dia com um rabino, qual a fonte bíblica do tal fenômeno.
No fim da matança do tubarão (depois me disseram que era um cação e não tubarão), distribuíram as partes comestíveis para quem queria e o resto colocavam num canto da praça para os cachorros "vira lata" que perambulavam sempre pelas redondezas do porto. Por lá sempre tinha o que abocanhar e os cachorros recifenses sabiam disso.
Interessante, também esse outro costume bizarro de usar o cuspe para limpar sujeira no corpo.
Vi esta atitude frequentemente na minha casa e em outras casas de judeus, não só no Recife. Parece que limpar algo manchado ou sujo no corpo de alguém, usando o cuspe de outra pessoa não é nojento, talvez até salutar. Será?
O cuspe é usado para limpar o "grude" (sujo em nordestino), que nos afeta de vez em quando e o que se junta nas orelhas que nem o banho com sabão, limpa. Costumes bizarros têm essa gente!
Vi também algumas mães de nenês limparem a chupeta quando esta caía no chão, então a colocavam na sua própria boca para limpá-la, antes de devolver a boca do nenê.
Costume estranho, não é mesmo? Acreditem-me que este costume também averiguarei um dia com um rabino, qual a fonte bíblica do tal fenômeno.
No fim da matança do tubarão (depois me disseram que era um cação e não tubarão), distribuíram as partes comestíveis para quem queria e o resto colocavam num canto da praça para os cachorros "vira lata" que perambulavam sempre pelas redondezas do porto. Por lá sempre tinha o que abocanhar e os cachorros recifenses sabiam disso.
Ao acabar o espetáculo com o tubarão (cação), partíamos para outra "aventura".
Tomávamos (viajávamos) o ônibus "DOCAS", que ia de "cabo a rabo" margeando os armazéns pelo lado de fora do porto.
Tomávamos (viajávamos) o ônibus "DOCAS", que ia de "cabo a rabo" margeando os armazéns pelo lado de fora do porto.
Pelo enorme janelão víamos os navios ancorados trazendo ou levando carga.
No armazém numero 6 estava ancorado o "LA PLATA", um navio argentino que trazia batata e cebola, que nunca Pernambuco produziu, isto antes do tempo da produção desta última, nas margens do Rio São Francisco.
Havia períodos que a falta destes produtos no mercado (caso o barco não atracasse a tempo).
Formava-se um grande "corre-corre" na comunidade judaica, pois estes são os componentes básicos naalimentação judaica de origem européia (ashkenazitas). Sem batatas e cebola (kartoflen und Tsibalach, em iídiche), só Deus sabe como a comunidade vai aguentar a vida no Brasil, ai minha gente, que exagero.
No numero 4 estava atracado o "ITAPARICA" trazendo café verde de Santos (Unedem ken a iíd leibn. Do iídiche: Sem isso, pode o judeu viver). Mas sem batatas e cebola é "tiro de morte" na cozinha judaica. Graças a Deus o La Plata chegou a tempo e com sua carga salvou a cozinha judaica do Recife. Ainda bem!
No numero 4 estava atracado o "ITAPARICA" trazendo café verde de Santos (Unedem ken a iíd leibn. Do iídiche: Sem isso, pode o judeu viver). Mas sem batatas e cebola é "tiro de morte" na cozinha judaica. Graças a Deus o La Plata chegou a tempo e com sua carga salvou a cozinha judaica do Recife. Ainda bem!
No numero 10 se não me engano estava o "KOBE MARU", japonês, carregando ferro velho para a indústria daquele país. Dizem que toda a indústria automobilística deles estava baseada nesta matéria prima que compravam ou recebiam de graça dos países que, todavia mantinham relações diplomáticas com os países do "Eixo". (Alemanha, Itália, Japão).
Às vezes dávamos duas ou três voltas (viagens) neste ônibus "DOCAS", pouco confortáveis e de cor prata, diferente das cores de qualquer outro ônibus que corriam (atuavam) no Recife. Tudo isso para respirar o cheiro da maresia e a fedentina das cargas dos navios no porto. Nossa senhora, remédio? Vixe!
Sempre o ponto alto deste passeio era a nossa visita a galeria sem portas que estava aberta 24 horas por dia durante toda a semana, o ano inteiro, como deve ser numa galeria que se preza atuando num porto que tem atividades 24 horas por dia.
Meu avô pedia dois leites maltados (o celebre e bem lembrado "CHÔCOCO") e uma travessa de 6 bolinhos "de Bacia", assim acho que se chamavam. Se estiver enganado, por favor, me desculpem.
O leite maltado era tão gelado que eu ao tomar os primeiros goles, logo sentia uma dor danada no meio da testa. Tinha que esperar um tanto, respirar um bocado, comer um bolinho ou dois, até passar. Meu avo ao ver o meu sofrer, chamava o servente e reclamava:
Às vezes dávamos duas ou três voltas (viagens) neste ônibus "DOCAS", pouco confortáveis e de cor prata, diferente das cores de qualquer outro ônibus que corriam (atuavam) no Recife. Tudo isso para respirar o cheiro da maresia e a fedentina das cargas dos navios no porto. Nossa senhora, remédio? Vixe!
Sempre o ponto alto deste passeio era a nossa visita a galeria sem portas que estava aberta 24 horas por dia durante toda a semana, o ano inteiro, como deve ser numa galeria que se preza atuando num porto que tem atividades 24 horas por dia.
Meu avô pedia dois leites maltados (o celebre e bem lembrado "CHÔCOCO") e uma travessa de 6 bolinhos "de Bacia", assim acho que se chamavam. Se estiver enganado, por favor, me desculpem.
O leite maltado era tão gelado que eu ao tomar os primeiros goles, logo sentia uma dor danada no meio da testa. Tinha que esperar um tanto, respirar um bocado, comer um bolinho ou dois, até passar. Meu avo ao ver o meu sofrer, chamava o servente e reclamava:
- Eu pedi para o menino, Chôcoco (leite maltado), "frapê", não gelado, leve de volta isso e me traga como pedi, faz favor.
Meio zangado sibilava de boca fechada: "A goisher kop", ou seja, em iídiche (cabeça de bagre nativo).
O moço que nos atendia no balcão, nem piscava e logo levava o meu meio copo e trazia um com a bebida morna (que eu odiava).
Obediente para com o "semi Deus", eu "engolia o sapo" (não reclamava), e tome tosse.
Logo meu avô dizia:
-Ta vendo? Eu não disse que este maltado gelado só iria piorar esta maldita tosse. Olha lá menino, tu não devias nem cheirar esta coisa tão gelada, não conta a tua mãe o que aconteceu aqui, estás ouvindo menino impulsivo e desobediente. Nem uma palavra a tua mãe.
-Mas zeide (avô em iídiche), foi o senhor que fez o pedido, que culpa tenho eu?
-Azamen unfarsheimter kind, pinkt a brasilianer bandit, hot keine respect far alte mentshen, a zamin zach, di eltern zainen shildik (do iídiche: "Que menino sem vergonha, igualzinho a um moleque brasileiro (goi), sem respeito algum para com os mais velhos, que coisa seria, só os pais são os verdadeiros culpados").
Depois do travo, continuamos bons amigos e até pedimos mais uma travessa de "bolinhos de bacia".
Confesso que o leite maltado e os bolinhos de bacia produzidos pela galeria do porto, não existiam iguais em lugar nenhum do mundo. Excelentes, deveriam representar o Recife nos concursos gastronômicos mundiais de portuária.
Pelo menos estas são as lembranças que tenho da época de menino quando lá ia com meu avô Joseph ou mesmo depois de maiorzinho com meus amigos do colégio.
Pelo menos estas são as lembranças que tenho da época de menino quando lá ia com meu avô Joseph ou mesmo depois de maiorzinho com meus amigos do colégio.
Um fenômeno parecido acontecia com o sorvete que íamos saborear na sorveteria Nice defronte da igreja da Matriz, junto a Praça Maciel Pinheiro.
Lá, antes do sorvete em geral comíamos "Cartola". Não se lembram mais disso? Então vos vou fazer recordar. Eram duas bananas fritas em cima de uma fatia grossa de queijo do sertão também frito, polvilhado com açúcar grosso e canela. Gostoso pra chuchu!
Mas voltando as dores estranhas, assim como, essa na testa pelo frio do alimento e que ninguém explica a causa, tem mais outras.
Por exemplo, a "dor de veado" na parte inferior do ventre quando jogava zorra (futibó em qualquer campina desocupada) e me cansava demais. Para solucionar e não ir ficar sentado no banco dos reservas até a dor passar, colocava-se umas folhas de alguma arvore entre o calção e a barriga (folhas de mangueira eram as melhores), então depois de alguns minutos, como por encanto a dor passava (terminava) e estava apto para voltar ao jogo.
Lá, antes do sorvete em geral comíamos "Cartola". Não se lembram mais disso? Então vos vou fazer recordar. Eram duas bananas fritas em cima de uma fatia grossa de queijo do sertão também frito, polvilhado com açúcar grosso e canela. Gostoso pra chuchu!
Mas voltando as dores estranhas, assim como, essa na testa pelo frio do alimento e que ninguém explica a causa, tem mais outras.
Por exemplo, a "dor de veado" na parte inferior do ventre quando jogava zorra (futibó em qualquer campina desocupada) e me cansava demais. Para solucionar e não ir ficar sentado no banco dos reservas até a dor passar, colocava-se umas folhas de alguma arvore entre o calção e a barriga (folhas de mangueira eram as melhores), então depois de alguns minutos, como por encanto a dor passava (terminava) e estava apto para voltar ao jogo.
Tinha também a "PISA DE SAL", para colocar um dedo ou artelho (dedo do pé) deslocado no seu respectivo lugar. Isso em geral fazíamos na praia com a areia e a água do mar. Excelente tratamento não convencional para resolver a "parada" (o deslocamento).
O porto do Recife não era nem grande nem importante em se comparar com outros portos do sul do Brasil ou do mundo afora, mas era de uma atração incomparável para a garotada.
Lá vimos pela primeira vez as prostitutas "made" em Pernambuco, negociando a sua "mercadoria" com os marujos locais ou estrangeiros em todas as línguas do mundo e perguntávamos como elas sabem tantos idiomas.
Anos inocentes da nossa juventude, em que vivíamos, sem medo, livres, felizes e não sabíamos.
O porto do Recife não era nem grande nem importante em se comparar com outros portos do sul do Brasil ou do mundo afora, mas era de uma atração incomparável para a garotada.
Lá vimos pela primeira vez as prostitutas "made" em Pernambuco, negociando a sua "mercadoria" com os marujos locais ou estrangeiros em todas as línguas do mundo e perguntávamos como elas sabem tantos idiomas.
Anos inocentes da nossa juventude, em que vivíamos, sem medo, livres, felizes e não sabíamos.
Fim da crônica: "Remédios do fundo do quintal".
Todos os direitos autorais, registrados.
Versão original postada no blog Geléia em Julho de 2011.
O riscado em carvão "BRUXARIA", desenhado pelo autor do texto. 
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