O carvoeiro

Os pregões que me lembro do Recife "matuto".
O CARVOEIROPaulo Lisker, de Israel
Carregava nas costas dois sacos de carvão vegetal e sempre estava com a cara suja do pó.
Não anunciava a sua mercadoria (o carvão já vinha encomendado por alguma família da rua), ou quem sabe tinha um pouco de vergonha do seu afazer cotidiano.
Não fazer barulho era difícil pra quem carregava carvão vegetal, pois a cada passo que ele dava os pedaços de carvão davam um estalo quando um batia no outro dentro do saco. Era uma sinfonia de "tac tac tac traque traque tac tac", de maneira que já de longe se sabia que o carvoeiro estava chegando passando na nossa calçada com a entrega para alguem nas vizinhanças.
Assim passava, até chegar à casa que encomendou a mercadoria. Anunciava pelo postigo da porta sempre aberto para ventilação:
Assim passava, até chegar à casa que encomendou a mercadoria. Anunciava pelo postigo da porta sempre aberto para ventilação:
-"Chegô o carvãããuu, vem recebê qui, tô cum pressa, arguem inscutô? Argúem vem abrí a porta"?
Logo, logo vinha alguém abrir a porta e facilitar ao carvoeiro levar a encomenda para o lugar destinado ao carvão Ele o despejava e os sacos levava de volta para a carvoaria, se não me engano era no Brum lá pros lados do gasômetro.
Na minha casa existia no fundo do quintal um quarto especialmente para depositar carvão vegetal.
Servia como reserva para qualquer eventualidade por falta de gás que era muito comum na época da Segunda Guerra Mundial ou quando havia problemas na rede de distribuição (encanamento da Usina até a casa do consumidor).
Sistema muito precário, os canos de metal enterrados na terra viviam estourando pela ferrugem e levava um bom par de dias, primeiro para descobrir onde foi o vazamento e depois para restabelecer o fornecimento normal.
Para estas eventualidades, mesmo nas casa que podiam se "dar ao luxo" de ter fogão a gás, tinha um fogão a lenha ou carvão e mantinha uma reserva de carvão vegetal num lugar protegido da umidade.
Interessante que as galinhas caipiras do nosso quintal gostavam de pôr ovos exatamente nesta "cama" de carvão. Vá lá saber por que!
Deve haver algum motivo muito importante, pois as galinhas mesmo com seu cérebro diminuto, não são bestas não!
Bom, mas este tema já são outros quinhentos mil réis. Voltemos a "vaca fria".
Lembro-me que o carregador de carvão recebia o pagamento a vista no dia da entrega e sempre voltavam e perguntavam a eterna pergunta antes de lhe pôr o dinheiro na mão:
-"Seu Chico, este troço esta sequinho? Se tiver molhado não quero não por que faz muita fumaça e os olhos ficam ardendo e cheios d'água".
Sempre a resposta era:
-"Madama, sequinho, sequinho que nem graveto de piaçaba, podi ficá carma e dá um fogo bão danado, cozinha inté se fô sola de sapato"!
Algumas vezes as empregadas que simpatizavam com o jovem carvoeiro, o convidavam para comer com elas o almoço que faziam a seu gosto.
Em geral sentavam em volta da mesa na cozinha onde de costume preparavam as comidas do dia para a família da casa.
A família almoçava na saleta e as empregadas na cozinha, numa mesa rústica junto ao fogão.
Apartheid? Nada disso, ninguém interpretava este fato dessa maneira.
Para as empregadas e aqueles que se juntavam para almoçar com elas era a coisa mais normal do mundo.
Quando eu era mais crescidinho e ativo no movimento juvenil de esquerda, banquei o "dunga" e convidei as duas empregadas para sentar comigo e cear na saleta, pois estava sozinho em casa.
Logo, logo vinha alguém abrir a porta e facilitar ao carvoeiro levar a encomenda para o lugar destinado ao carvão Ele o despejava e os sacos levava de volta para a carvoaria, se não me engano era no Brum lá pros lados do gasômetro.
Na minha casa existia no fundo do quintal um quarto especialmente para depositar carvão vegetal.
Servia como reserva para qualquer eventualidade por falta de gás que era muito comum na época da Segunda Guerra Mundial ou quando havia problemas na rede de distribuição (encanamento da Usina até a casa do consumidor).
Sistema muito precário, os canos de metal enterrados na terra viviam estourando pela ferrugem e levava um bom par de dias, primeiro para descobrir onde foi o vazamento e depois para restabelecer o fornecimento normal.
Para estas eventualidades, mesmo nas casa que podiam se "dar ao luxo" de ter fogão a gás, tinha um fogão a lenha ou carvão e mantinha uma reserva de carvão vegetal num lugar protegido da umidade.
Interessante que as galinhas caipiras do nosso quintal gostavam de pôr ovos exatamente nesta "cama" de carvão. Vá lá saber por que!
Deve haver algum motivo muito importante, pois as galinhas mesmo com seu cérebro diminuto, não são bestas não!
Bom, mas este tema já são outros quinhentos mil réis. Voltemos a "vaca fria".
Lembro-me que o carregador de carvão recebia o pagamento a vista no dia da entrega e sempre voltavam e perguntavam a eterna pergunta antes de lhe pôr o dinheiro na mão:
-"Seu Chico, este troço esta sequinho? Se tiver molhado não quero não por que faz muita fumaça e os olhos ficam ardendo e cheios d'água".
Sempre a resposta era:
-"Madama, sequinho, sequinho que nem graveto de piaçaba, podi ficá carma e dá um fogo bão danado, cozinha inté se fô sola de sapato"!
Algumas vezes as empregadas que simpatizavam com o jovem carvoeiro, o convidavam para comer com elas o almoço que faziam a seu gosto.
Em geral sentavam em volta da mesa na cozinha onde de costume preparavam as comidas do dia para a família da casa.
A família almoçava na saleta e as empregadas na cozinha, numa mesa rústica junto ao fogão.
Apartheid? Nada disso, ninguém interpretava este fato dessa maneira.
Para as empregadas e aqueles que se juntavam para almoçar com elas era a coisa mais normal do mundo.
Quando eu era mais crescidinho e ativo no movimento juvenil de esquerda, banquei o "dunga" e convidei as duas empregadas para sentar comigo e cear na saleta, pois estava sozinho em casa.
Ai meu Deus, as duas Marias quase desmaiam, ficaram pálidas e responderam rindo e encabuladas (envergonhadas, em nordestino):
-"Deixe de besteira menino, tu queres é "comer" a gente, não tem ninguém em casa, é por isso, ta vendo, né".
As empregadas não gostavam da comida feita a moda de galegos de origem européia, ainda mais quando esta era açucarada, peixe doce, galinha doce, mocotó doce, virgem Maria.
Elas já tinham aprendido a preparar este cardápio judaico, porém comer dele, Deus me livre, nem provar. Virgem!
Elas faziam sua própria comida ao seu gosto e comiam com as mãos, sem talheres. A farinha de mandioca era o aglutinante, muita pimenta malagueta e sal.
Foi com as empregadas que aprendi a gostar das comidas matutas "a brasileira".
Pirão com tudo, charque, carne do sol, picadinho a carreteiro (a matéria prima era carne dura que ficou de ontem rejeitada pela família da patroa). Nas mãos delas a carne dura rejeitada, transformava-se numa delícia depois de picada na peixeira mais afiada da gaveta das facas e os condimentos que só elas sabiam onde achar.
Feijoada era outra especialidade delas, mas não ficava para atrás também o bacalhau no coco (bacalhau português era comida de pobre naquela época, imagina). Galinha a cabidela, o sangue das galinhas abatidas naquele dia, elas as escondidas não deixavam correr na terra (como exige os costumes culinários judaicos de nunca utilizar sangue de especie alguma nas comidas), e sim num caneco para depois usar no preparo das partes das galinhas que eram destinadas as empregadas.
Sangue não entra na cozinha judaica, nunca! Mas assim às escondidas as empregadas preparavam para si, no fogão de lenha no quarto dos fundos a sua "galinha de cabidela".
Sempre acompanhava a macaxeira, batata doce, ai meu Deus, se tivesse que fazer uma lista completa das comidas crioulas que estas empregadas matutas faziam para si, a lista não terminava nunca.
Claro que aos poucos, nós a segunda geração de judeus começamos a apreciar este "cardápio" e muitas vezes "arengamos" sério (discutimos em nordestino) com minha mãe pedindo que nos permita comer destas comidas na nossa mesa do dia a dia. Foi difícil, mas no fim conseguimos e aqui e ali as comidas crioulas (afora a galinha de cabidela) foram se infiltrando no cardápio judaico da nossa casa.
Claro que quando o carvoeiro era convidado pelas empregadas para almoçar, saía de lá sempre mais que satisfeito, eu em compensação tinha que comer naquele dia a comida judaica na mesa com meus pais. Um suplício para um menino judeu que já nasceu no Brasil e que desde a infância respirava os cheiros das comidas crioulas, "arte culinária" feita pelas hábeis mãos das empregadas matutas com os temperos que catavam nos terrenos ermos da vizinhança.
Agora mesmo escrevendo esta crônica 50 anos depois do acontecido, sinto nas "ventas" (nariz em nordestino) o cheiro do bacalhau no coco ou da feijoada com quiabo e maxixe, este último já não vi ou comi por mais de meio século.
Às vezes também sentava com a "tropa" o nego Capitulino que mensalmente lavava o nosso casarão e encerava os pisos de taco nos quartos de dormir.
Meu avô que era muito brincalhão, quando passava pela cozinha para ir ao banheiro perguntava ao pessoal sentado comendo satisfeitos:
-"O restaurante já tem nome? Cuidado com o fiscal da secretaria da saúde que anda atrás de restaurantes piratas sem licença, pra multar. Agora me desculpem, vou correndo urinar senão não chego a tempo. Bom apetite gente, ai que cheiro bom danado (a zamin guter gueshmack, a mehaie der gohiesher essen. Em iídiche)! Até meu velho avô se encantava com o cheiro da comida da "terra".
Quando o carvoeiro não tinha a sorte de pegar um almoço crioulo, nunca saia sem um pacotinho que continha pão que ficou de ontem, um pedacinho de charque, algo de farofa do dia, algumas bananas e às vezes uma laranja comum, azeda que nem a peste, nunca saía com as mãos abanando.
Era uma espécie de paternalismo para com os pobres, uma maneira de recompensar pelo trabalho sujo, pesado e desclassificado.
As famílias judaicas recordavam as pequenas e atrasadas aldeias na Europa, onde viviam no passado.
A ocupação denominada em iídiche ou hebraico, "Hotvei eitsim vê shoavei ah maim" (cortador de lenha e carregadores de baldes d'água do poço no centro da aldeia para as casas do povoado, no inverno frio com tudo de baixo de neve), era considerado o pior trabalho braçal.
Com o ressurgimento do idioma hebraico esta frase entrou no vocabulário do dia a dia e que representa a revolta ao receber um trabalho desclassificado, pesado e mal pago (hotvei eitsim ve shoavei ah maim).
Outro costume dessa gente era que nunca davam gorjeta em dinheiro. Havia um pensamento que o "goi matuto" ao ver dinheiro, vai logo comprar cachaça para se embriagar.
Pensando bem, não era para menos, pois as condições do trabalho e a remuneração eram das piores. A única solução que restava era afogar o desgosto na cachaça Pitu.
Assim sendo, não era comum dar gorjeta em dinheiro em compensação davam com muito gosto algo de comer para levar, imaginando que na pior das hipóteses, comeriam os meninos da família pobre no mocambo.
Bom, assim era, "cada macaco no seu galho" e a vida caminhava sem ódios e rancores, cada qual sabia o seu lugar na sociedade, até que apareceu o "Cavaleiro da Esperança", Luís Carlos Prestes, então tudo mudou, pra bem ou para pior, isto vocês decidirão, eu não me meto em política.
Fim do trecho "O CARVOEIRO"
Paulo Lisker, Israel.
Dezembro 2011-12-08
(Todos os direitos autorais registrados)
-"Deixe de besteira menino, tu queres é "comer" a gente, não tem ninguém em casa, é por isso, ta vendo, né".
As empregadas não gostavam da comida feita a moda de galegos de origem européia, ainda mais quando esta era açucarada, peixe doce, galinha doce, mocotó doce, virgem Maria.
Elas já tinham aprendido a preparar este cardápio judaico, porém comer dele, Deus me livre, nem provar. Virgem!
Elas faziam sua própria comida ao seu gosto e comiam com as mãos, sem talheres. A farinha de mandioca era o aglutinante, muita pimenta malagueta e sal.
Foi com as empregadas que aprendi a gostar das comidas matutas "a brasileira".
Pirão com tudo, charque, carne do sol, picadinho a carreteiro (a matéria prima era carne dura que ficou de ontem rejeitada pela família da patroa). Nas mãos delas a carne dura rejeitada, transformava-se numa delícia depois de picada na peixeira mais afiada da gaveta das facas e os condimentos que só elas sabiam onde achar.
Feijoada era outra especialidade delas, mas não ficava para atrás também o bacalhau no coco (bacalhau português era comida de pobre naquela época, imagina). Galinha a cabidela, o sangue das galinhas abatidas naquele dia, elas as escondidas não deixavam correr na terra (como exige os costumes culinários judaicos de nunca utilizar sangue de especie alguma nas comidas), e sim num caneco para depois usar no preparo das partes das galinhas que eram destinadas as empregadas.
Sangue não entra na cozinha judaica, nunca! Mas assim às escondidas as empregadas preparavam para si, no fogão de lenha no quarto dos fundos a sua "galinha de cabidela".
Sempre acompanhava a macaxeira, batata doce, ai meu Deus, se tivesse que fazer uma lista completa das comidas crioulas que estas empregadas matutas faziam para si, a lista não terminava nunca.
Claro que aos poucos, nós a segunda geração de judeus começamos a apreciar este "cardápio" e muitas vezes "arengamos" sério (discutimos em nordestino) com minha mãe pedindo que nos permita comer destas comidas na nossa mesa do dia a dia. Foi difícil, mas no fim conseguimos e aqui e ali as comidas crioulas (afora a galinha de cabidela) foram se infiltrando no cardápio judaico da nossa casa.
Claro que quando o carvoeiro era convidado pelas empregadas para almoçar, saía de lá sempre mais que satisfeito, eu em compensação tinha que comer naquele dia a comida judaica na mesa com meus pais. Um suplício para um menino judeu que já nasceu no Brasil e que desde a infância respirava os cheiros das comidas crioulas, "arte culinária" feita pelas hábeis mãos das empregadas matutas com os temperos que catavam nos terrenos ermos da vizinhança.
Agora mesmo escrevendo esta crônica 50 anos depois do acontecido, sinto nas "ventas" (nariz em nordestino) o cheiro do bacalhau no coco ou da feijoada com quiabo e maxixe, este último já não vi ou comi por mais de meio século.
Às vezes também sentava com a "tropa" o nego Capitulino que mensalmente lavava o nosso casarão e encerava os pisos de taco nos quartos de dormir.
Meu avô que era muito brincalhão, quando passava pela cozinha para ir ao banheiro perguntava ao pessoal sentado comendo satisfeitos:
-"O restaurante já tem nome? Cuidado com o fiscal da secretaria da saúde que anda atrás de restaurantes piratas sem licença, pra multar. Agora me desculpem, vou correndo urinar senão não chego a tempo. Bom apetite gente, ai que cheiro bom danado (a zamin guter gueshmack, a mehaie der gohiesher essen. Em iídiche)! Até meu velho avô se encantava com o cheiro da comida da "terra".
Quando o carvoeiro não tinha a sorte de pegar um almoço crioulo, nunca saia sem um pacotinho que continha pão que ficou de ontem, um pedacinho de charque, algo de farofa do dia, algumas bananas e às vezes uma laranja comum, azeda que nem a peste, nunca saía com as mãos abanando.
Era uma espécie de paternalismo para com os pobres, uma maneira de recompensar pelo trabalho sujo, pesado e desclassificado.
As famílias judaicas recordavam as pequenas e atrasadas aldeias na Europa, onde viviam no passado.
A ocupação denominada em iídiche ou hebraico, "Hotvei eitsim vê shoavei ah maim" (cortador de lenha e carregadores de baldes d'água do poço no centro da aldeia para as casas do povoado, no inverno frio com tudo de baixo de neve), era considerado o pior trabalho braçal.
Com o ressurgimento do idioma hebraico esta frase entrou no vocabulário do dia a dia e que representa a revolta ao receber um trabalho desclassificado, pesado e mal pago (hotvei eitsim ve shoavei ah maim).
Outro costume dessa gente era que nunca davam gorjeta em dinheiro. Havia um pensamento que o "goi matuto" ao ver dinheiro, vai logo comprar cachaça para se embriagar.
Pensando bem, não era para menos, pois as condições do trabalho e a remuneração eram das piores. A única solução que restava era afogar o desgosto na cachaça Pitu.
Assim sendo, não era comum dar gorjeta em dinheiro em compensação davam com muito gosto algo de comer para levar, imaginando que na pior das hipóteses, comeriam os meninos da família pobre no mocambo.
Bom, assim era, "cada macaco no seu galho" e a vida caminhava sem ódios e rancores, cada qual sabia o seu lugar na sociedade, até que apareceu o "Cavaleiro da Esperança", Luís Carlos Prestes, então tudo mudou, pra bem ou para pior, isto vocês decidirão, eu não me meto em política.
Fim do trecho "O CARVOEIRO"
Paulo Lisker, Israel.
Dezembro 2011-12-08
(Todos os direitos autorais registrados)
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