sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Tem espião sacana informando (Parte 1 de 4)

SÁBADO, 8 DE DEZEMBRO DE 2012


Tem espião sacana informando

Parte 1 de 4


Fonte do desenho: Wikipédia

Da série: "Das conversas com meu avô"
28-07-2011

Tema: Espionagem nazista no Recife inocente.
(Revisado em 01-12-2012)
Paulo Lisker - Israel.

O pessoal sentado nas cadeiras de vime no terraço do nosso casarão na Rua Gervásio Pires, tomou um fôlego quando meu avô chegou ao final da estória que contava. (veja "A lataria boiando", neste blog).
Ele abriu um maço novo de cigarros Regência, tirou um e acendeu, tomou uma pitada de rapé e ofereceu aos amigos.
Aspirou profundamente e tomou o finzinho do seu chá, certamente já totalmente frio. Recostou-se na sua cadeira de balanço, aí descansou.
Foi à hora do meu tio sertanejo se pronunciar:
-Senhores! Vou lhes contar um fato que era um segredo medonho na época que ocorreu. Explico-me, isso ocorreu na atmosfera vigente em todo o Brasil e especialmente no Recife, durante a segunda grande guerra mundial.
Hoje talvez não seja mais proibido relatar o acontecido. De qualquer modo me cuido muito ao contar o que vocês vão escutar agora.
Para que tenham uma idéia do sigilo guardado pelas autoridades, quando a coisa ocorreu, nem se deveria dar, a saber, aos seus próprios familiares.
Sigilo pra cacete mesmo. 
Nem o Repórter Esso nem a BBC contaram nada, nem teriam coragem de divulgar, pois era segredo de Estado.
Meu tio pediu ao senhor Goldberg um cigarro americano Philip Morris.
Este senhor negociava com os americanos na construção das pistas aéreas no Ibura (Daí os cigarros que adquiria na cantina dos oficiais ianques).
Acendeu e deu uma boa baforada. Elogiou o gosto todo especial do tabaco "Virgínia" (ele fumava charuto ou cachimbo de vez em quando), gostou demais do cheiro adocicado do cigarro que se fazia sentir em todo o terraço e até penetrava pelas janelas abertas para o interior da casa.
Ajeitou-se na "espreguiçadeira"(cadeira muito regional do nordeste, para descançar os velhos ossos), onde costumava sentar-se e começou o seu relato:
-Era no tempo da guerra na Europa, mas espiões nazistas estavam espalhados pelo mundo todo especialmente no Brasil.
Submarinos alemães rondavam nossas costas torpedeando tudo que era barco que trafegasse nas costas brasileiras do Oceano Atlântico.
Para essa função eles necessitavam de informações desse trafego naval para poder localizar com mais facilidade os comboios que transportavam mantimentos, soldados e armamentos para as bases americanas no litoral brasileiro.
-Durante muito tempo o serviço de espionagem nazista estava recebendo do Recife informações valiosíssimas do movimento dos comboios brasileiros e americanos, especialmente nas costas do nordeste brasileiro.  
Não tinha jeito de localizar de onde esta “peste desgraçada” transmitia estas informações.
Por parte eram culpados os equipamentos obsoletos da época e especialmente os que os ianques trouxeram para o Recife.
Poderia ser também que este espião era do tipo James Bond e tinha um sistema de transmissão desconhecido pelos aliados e o “Serviço contra Espionagem de Pernambuco”. Este operava com tecnologia obsoleta e atrasada de mais de meio século, pelo menos.
Chegava ao cumulo que esta informação era tão precisa que os submarinos nazistas que andavam fuçando (procurando informação ou localização, em nordestino) nos nossos mares, não tinham problema nenhum para localizar os comboios dos aliados e torpedeá-los.
Queriam eles desbaratar tudo que fosse navegação costeira e desta forma desmoronar as linhas de defesa dos aliados no Brasil.
Tio Jorge, tomou o restinho do chá e encheu o peito de ar quente do Recife misturado com os aromas de Jasmim e Camélias que vegetavam no nosso quintal e disse quase sussurrando.
-Vou contar pra vocês o que nem o Repórter Esso nem a BBC, nunca vão contar, pois era naquele tempo segredo de Estado.
Tomem assento, se ajeitem que aí vem a “bomba”.
Lembram-se do espião que fazia tempo estava dando uma dor de cabeça danada às entidades da "Contra Espionagem"? Hoje vocês vão saber como pegaram este “filho duma égua”, sem ajuda nenhuma de entidade profissional neste campo.
Todos abriram os ouvidos e com os olhos esbugalhados ficaram congelados nas cadeiras de vime e não deram mais um pio até quando o meu tio terminou de contar a tal prosopopéia.
Não tem como os judeus para gostar dessas coisas de mistério.  
Tio Jorge apagou o cigarro americano no cinzeiro de barro que tinha trazido da feira de Caruaru, ficou um cheiro adocicado de tabaco Virgínia no ar.
Assim foi a coisa:
-Como diz o nosso matuto: “Um dia é da caça e o outro do caçador”.
Nesta semana chegou o dia do caçador.
Marcelo um menino traquino que estava brincando na praia de Boa viagem descobriu algo que lhe deixou atônito.
Ele tinha terminado a reunião com seu grupo de Escoteiros do Mar (tinha isto no Recife, até os chamavam de “mamãe eu quero ser besta”, isto pelo fardamento mescla e o quepe de oficial que usavam nos dias de reunião do grupo).
Ele mesmo não acreditava no que descobriu e como é comum dizer nestas ocasiões, ficava esfregando os olhos para verificar se não era um sonho ou miragem.
De repente ele escuta o seu pai lhe chamando, gritando: “Marcelo pôrra, onde estás”!!!
Quando terminou esta atividade nos escoteiros? Porque não voltaste direto pra casa. Já são 9 da noite, mãe já esquentou o teu prato de comida duas vezes! Que estas fazendo na praia a estas horas, tas doido menino, só mesmo umas boas chineladas botará em ordem esta cabeça de desobediente da peste, ainda mais com esta mania de escoteiro do mar. Os outros meninos com certeza já estão em casa e tu preocupando tua mãe.
Ela já não sabe o que fazer de tanto espiar (olhar preocupada, em nordestino) pela janela se tu já estás á caminho de casa.  E de ti nem sinal, necas.
Toma juízo moleque! Brincando a essa hora da noite na praia deserta, tas doido mesmo!
Por que está tão excitado menino, o que descobristes aqui que te deixou desse jeito? Vai diz logo, desembucha, não tenho tempo pra ficar aqui à noite toda.
Pai eu vim pra praia para juntar mariscos bonitos, pois haverá uma exposição desse material na nossa sede de escoteiros no Pina e o trabalho mais bonito ou original ganhará de premio uma bicicleta Mercury com 3 marchas! Então que achas? Eu morando na praia vou perder para um escoteiro que mora em Água Fria ou na Madalena, ta doido. Onde eles vão achar mariscos? Na lama do rio Beberibe ou no Riacho das Lavadeiras, nunca na vida.
Isso era o que estava fazendo na praia pai! Juntando mariscos, tou perdoado paizinho? Agora escuta bem, de vez em quando ao levantar a cabeça do catar mariscos eu vi algo que me deixou com uma “pulga atrás da orelha”.
-Que aconteceu o que te assombrou?
Marcelo agarrou a mão do pai e balbuciou uma única frase: Pai, eu descobri o espião que vive transmitindo informações para os submarinos nazistas.
O menino tremia de tão excitado que estava com a descoberta.
-Menino, vocês bebem lá nestas reuniões de escoteiros? Ou achaste uma meia garrafa de “Pitu” (marca de cachaça muito comum no nordeste), jogada na praia? Provaste alguma dessas ostras alucinantes? Tu estás doido menino, vamos embora tua mãe já esquentou duas vezes a tua janta, tomas um banho frio e amanhã estarás curado! 
Vamos, vamos, tu estas bêbado, que vergonha, nesta idade ou tens febre e estás delirando.
De onde você tirou esta estória que o espião que meio mundo procura, logo tu o encontraste aqui na praia da Boa Viagem!
Nem uma palavra mais, pega as alpercatas (sandálias, em nordestino) e a mochila e vamos embora!
Fim da parte um.

Todos os direitos autorais reservados
Cuide dos créditos.
Postado no Fubana em 28-07-2011

2 comentários:

  1. Dr. M. Rosenblatt Israel
    DISSE:
    Ja’ li’ e comentei esse artigo ha’ muito tempo atraz.

    ResponderExcluir
  2. Dr. Meraldo Zisman
    DISSE:

    Dr. Meraldo Zisman Recife
    DISSE:

    Paulo,
    Muito boa crônica
    abraços
    Meraldo

    ResponderExcluir