O MEU AMIGO DUDA (Parte um de três)
Paulo Lisker
Israel
Foto Google, Internet
Apesar da gente "bater uma zorrinha" lá no terraço do casarão
da família de Duda, na Avenida Conde da Boa Vista, ele não era exatamente meu
amigo, era o irmão do meu bom amigo da infância, Senha (José Alexandre Ribemboim).
Parado diante do portão de ferro, ele dava bons passes para outros dois
ou três "futebolistas de zorra", e chutava com classe para que o
goleiro pudesse fazer boas exibições, agarrando a bola de borracha no peito
evitando que ela fosse de encontro ao portão de ferro, fazendo um barulho
danado. Quando isso acontecia, despertava de supetão dona Clara (a senhora mãe
de Duda e Senha), da "shlaf shtunde" (soneca de depois do almoço)!
Muito irritada, abria a janela e dava uma bronca "danada",
pedindo silencio.
A gente parava por uns minutos, ia beber água filtrada de quartinha, de
um filtro com "velas" de barro, por sinal gostosíssima.
Descansávamos e logo recomeçávamos a "bater a zorra" de novo (treino de futebol num patio qualquer),
até o próximo carão (reclamação) de dona Clara.
Aí, parávamos de vez e íamos conversar num
canto do quintal, debaixo de uma enorme mangueira de "pé franco", que
nunca dava frutas. E ficávamos brincando quietos, com os peixinhos, no aquário
de Senha.
Eu sempre perguntava: Duda, tu "pegas"
(escalado) a seleção da escola?
Ele respondia: Não, eu me dedico aos estudos, pois, se não tiver boa
base, como passarei no futuro no concurso de Engenharia, não é mesmo?
- Mas ainda tens tanto tempo até o concurso, por que não te esforças para
"pegar" a seleção da escola? Tu jogas muito bem, é uma pena Duda!
Eu pensava que com aquele jeitão de "futebolista de zorra",
ele poderia ser um segundo Ademir, que começou no juvenil do Sport Club do
Recife e foi parar no Vasco da Gama, do Rio, depois, no selecionado nacional.
Era um artilheiro para "mais de contrato" (excepcional, na língua da
rua).
Eu guri inocente, sem nunca ter visto um estádio ou um jogo da liga pernambucana,
pensava que Duda poderia ser no futuro o que Ademir foi para o futebol
brasileiro. Inocência de pixote.
Duda era um menino judeu, meio gordinho e desengonçado, na verdade muito
inteligente (Como era toda essa família Ribemboim), porém de atleta não tinha
nada.
Acreditava que ele era um exímio "jogador de zorra", e isto
para mim, já bastava para credenciá-lo como futebolista que deixaria estádios inteiros,
de pé, ovacionando.
Seria o primeiro futebolista judeu, de fama internacional (o sonho
inocente de uma criança tola).
Todos os meus amigos eram alunos da escola judaica, situada na Rua da
Gloria.
Assim também foi Duda, que era mais velho, e frequentava o quarto ano
primário, o ultimo na escola iídiche naquele tempo.
Lembro-me quando a escola ainda não era o Colégio Hebreu Brasileiro.
O seu quadro profissional era um dos melhores: dona Rinelia, Eulina,
mais tarde, dona Lenira, Odete, Ivanise, Coralia, dona Mancovetsky (jardim da
infância, diplomada na Polônia), ela substituiu a mestra extraordinária do
jardim da infância, dona Lazar (foi quem me recebeu dando os primeiros passos
na escola iídiche). Infelizmente esta última veio a falecer muito jovem, de câncer
no seio. E havia o "moré" (educador) senhor Burshtein, professor do
estilo antigo que dava castigo por qualquer travessura ou falta de cumprir com os deveres do dia. O castigo era meter a criança no "quarto escuro", a gente morria de medo e depois mandava chamar o pai para dar-lhe um "esculacho" daqueles (reclamação contra o pixote), e em casa o pai ou a mãe dava mais um castigo. O povo judeu dá muito valor a educação escolar, dizem que por isso tem tanto judeu com premio Nobel.
A meninada tremia só em escutar o nome deste senhor educador, o senhor Burshtein.
Depois que toda a sua família imigrou para a Palestina, ele foi
substituído por um professor estrangeiro, o senhor Halperin, que, com o passar
do tempo, soubemos que era comunista.
Depois de uns anos na escola iídiche, ele foi ensinar nos Estados Unidos
ou no Canadá. Já faz muito tempo, não lembro mais.
Dizem as línguas ferinas que ele não queria que a sua lindíssima filha,
Dvoirele, encontrasse no futuro um noivo recifense filho de um
"proste" (sem cultura) prestamista analfabeto. Não fica bem para uma
família de cultura européia. (es past zich nisht - em iídiche)!
Um belo dia, com toda essa bagagem didática e professores de primeira
linha, foi à Escola Iídiche, intimada pela Secretaria Estadual de Educação,
porque o seu certificado de aprovação, bem como as notas, não seriam validas e
reconhecidas para entrar no ginásio de outras instituições escolares no Brasil.
A notícia causou um grande reboliço na comunidade.
Logo a escola iídiche, imagine!
Não podia ser! Tem safadeza nisso!
Os responsáveis do "comitê pedagógico" da escola apressaram-se
para averiguar a causa daquele problema, agora criado.
Na comunidade, já havia aqueles que diziam: é coisa de anti-semitas,
esses sempre estão dando voltas, fuçando e procurando problemas que, em muitos
casos, não existem. Era só para criar confusão e multas em dinheiro.
Plínio Salgado e sua "gentalha" eram uns verdadeiros
espantalhos, para a colônia judaica do Recife. Tal gente, possivelmente, não
queria uma escola judaica exitosa, naquela atmosfera católica e racista, que
reinava no ensino recifense.
A prova disso era que, mesmo nas escolas laicas, existia aulas de
religião católica, não como estudo da literatura dos magníficos textos das
escrituras, mas, simplesmente, o catequismo.
A comunidade judaica do Recife solicitou, aos diretores dessas escolas,
a dispensa da presença obrigatória de alunos judeus naquelas aulas. No
principio, eles relutaram, porém, depois de novas "investidas",
aceitaram conceder a "regalia" aos alunos judeus.
Quando eu já estava no Ginásio do Colégio Osvaldo Cruz, as aulas de
religião, ministradas pelo Padre Anchieta, um tipo simpaticíssimo, que foi no
passado Capelão da F.E.B. quando o Brasil enviou "a cobrinha fumando"
para lutar contra as forças fascistas na Itália e, por incrível que pareça, com
uniforme verde, nos campos de neve europeus (informação do padre Anchieta numa
das aulas em que fui assistir, mesmo estando dispensado).
O nível de ensino na escola iídiche, nas quatro classes primárias, era
excelente: as professoras eram todas formadas e com diploma reconhecido em todo
o território nacional e o professor de hebraico e iídiche, importado do Canadá.
Os alunos que terminavam o primário passavam nos exames de admissão dos
colégios do Recife, com as maiores médias.
No ginásio do Colégio Osvaldo Cruz, ou outros da cidade, chegavam muito
bem preparados, e eram, quase sempre, os melhores alunos de todas as turmas.
Então, por que a Secretaria da Educação vinha com essa alerta oficial
sobre a validade dos certificados?
Logo agora, quando a escola chegara a um número tal de alunos, que a
soma das mensalidades dava para cobrir todos os gastos diretos e, ainda,
deixava algum lucro para investimentos.
Só faltava isso, agora!
Sem demora, foi marcado um encontro dos Delegados da escola, com o
Secretário Estadual de Educação.
No dia do encontro, ele não estava presente, conforme o protocolado.
Era sempre assim: coisas mais importantes, em Vitória de Santo Antão,
acompanhando o governador do Estado.
O funcionário que recebeu os dois Delegados deu-lhes o melhor
tratamento. Desculpou-se pelo fato de o Secretario estar ausente, afirmando
que, ele mesmo, responderia pelas inquietudes da escola judaica.
- Conheço o vosso sistema de ensino, ele é deveras muito bom, as notas
das provas são excelentes, o número de horas de aulas, as professoras
diplomadas, as tarefas de casa mormente cumpridas, o coro orfeônico com o
maestro Sadigursky, a visita do medico Dr. Radunsky, duas vezes ao ano, os
uniformes respeitados, uma escola de muito bom nível.
Tomou fôlego e continuou:
-Sabemos até da cantina de dona Rosa Litvin, que vende lanches baratos e
gostosos, para aqueles meninos que não o trouxeram de casa, é uma conquista
social, pois crianças com fome não estudam, só fazem anarquia, não é mesmo?
Nós até expomos o vosso modelo, nas reuniões com os diretores de outras
entidades de escolas primarias. Uma pena que vocês não nos dão a honra de
comparecer àqueles encontros. Mas, isso não é problema, vocês são uma escola
particular e não têm a obrigação de participar.
Mas, meus senhores, existem uns probleminhas que, se não forem
resolvidos de imediato, os vossos certificados escolares não poderão ser aprovados,
pela Secretaria da Educação e, quem sabe, o Ministério no Rio poderá até criar
ainda mais problemas...
Os Delegados judeus se surpreenderam com o conhecimento do funcionário
Dr. Celestino, no que diz respeito ao desempenho da escola, e perguntaram,
então, quais eram os problemas tão graves. Seria pelo ensino
das línguas hebraica e iídiche, não vigentes nas demais entidades de ensino
primário?
- Para permitir o ensino das línguas de nossos antepassados,
colocamos no currículo mais seis horas mensais, para não prejudicar as outras
matérias. Contratamos um professor para isso e os meninos o respeitam. Estão
aprendendo e entendendo seus pais e avós, até, quando eles conversam em casa.
Onde reside, então, o problema para tão séria advertência?
- Senhores, vocês tomarão um cafezinho comigo? Perguntou
o funcionário e acendeu um cigarro Astoria ou Asas (cigarros daquele tempo da
Cia. Souza Cruz), dando uma enorme baforada em direção ao teto.
-Sim, como não, com muito prazer, responderam os
dois senhores, Benjamim Berenstein e Moisés Schwartz, com a boca seca, de tensos que estavam.
O funcionário tocou numa sineta que estava em cima da mesa, logo entrou
o bedel, que já sabia do que se tratava, e foi logo perguntando: -
Com leite? Com açúcar, forte,
aguado?
O funcionário tirou uma lista da gaveta e disse:
- Olhem, na ultima inspeção que fizemos na escola, encontramos os
seguintes problemas:
a - Os sanitários
sujos, fétidos e sem luz;
b - Não há uma
bandeira brasileira, nem na sala da Diretoria. Vi uma bandeira azul com uma
estrela, deve ser da escola, eu entendo;
c - O professor
estrangeiro não fez, até o momento, o devido reconhecimento do seu certificado
pedagógico;
d - A pior de todas
as faltas é que, não consta Educação Física, no currículo escolar, sequer uma
hora por mês, quando o Ministério exige meia hora, duas ou três vezes por
semana, e com um instrutor credenciado.
Os Delegados judeus empalideceram. O
funcionário tinha toda a razão. Ainda bem que não examinaram as condições de
higiene da cantina de dona Rosa (que, pouco tempo depois, fechou de vez).
Não sei dizer se, por questões
econômicas, ou outras ainda piores, a meninada aprendeu a trazer lanches de
casa e não comprava mais os apetitosos sanduíches de pão francês com manteiga e
queijo do Reino, ou de Mortadela com mostarda, sempre acompanhados com um
pepino ou pimentão em conserva, também produtos caseiros de dona Rosa (eu nunca
os comi, mas me lembro deles nos potes de vidro tomando sol no balcão de
cantina, então a do pimentão vermelho tenho gravado até hoje no meu velho
cerebelo).
Talvez a cantina tenha fechado,
mesmo, por questão de higiene, pois, à noite, se transformava em um "clube
noturno" de baratas e ratazanas, que só não comiam as paredes porque eram
de metal.
Não adiantaram todos os intentos do
senhor Salomão, o marido de Dona Rosa, com dezenas de ratoeiras, venenos por
todas as partes, e papel "pega - pega" para baratas e moscas.
Acabavam com uns, vinham outros ainda mais famintos.
O Recife estava impregnado desses
males que, viviam em harmonia perfeita com o ser humano, ainda dos tempos
coloniais portugueses, jamais exímios zeladores de higiene pessoal ou geral.
Ademais, em toda a escola, não tinha sequer um filtro de água potável para os alunos. Ninguém pensou nisso antes,
parecia não ter importância, e os banheiros estavam em condições horríveis,
para o uso diário.
- Ai,
meu Deus, ainda "saímos bem barato" dessa inspeção, se fosse mais
profunda, estaríamos "lascados", cochicharam
os dois Delegados judeus.
-
Poderemos, rapidamente, resolver tudo isso da melhor maneira e o mais
rápido possível. Na próxima inspeção, o doutor Celestino não encontrará coisa alguma para se queixar. Pode acreditar
Doutor, tem a nossa palavra!
Não sei se é verdade, porem dizem
que ouviram o gentil funcionário sibilar entre uma baforada e outra:
-
Era só o que me faltava, acreditar, agora, na palavra de judeus, mais
esta.
Fim da parte um de três.
Todos os direitos autorais reservados.
Cuidem com os créditos.

Eng. Izaias Rosenblatt Recife
ResponderExcluirDISSE:
Não me lembro do Duda. Com Senha eu convivi a vida inteira. O seu primo Luiz Ribemboim falecido há poucos anos foi meu vizinho. Dona Guita encontrei há 2 semanas no shopping com a nora. Ela está bem. A filha deles Sheila foi colega do meu irmão e morreu de um câncer no olho ainda adolescente.
Esqueça os casarões da Av. C.B. Vista, todos sumiram.
Ainda tenho o filtro-quartinha que mamãe usava. Mas agora só tomamos água engarrafada, mesmo a água da Compesa não é mais confiável porque as tubulações de rua e os tanques prediais não são confiáveis por mais cloro que botem...
Como se chamava o primeiro colégio israelita?
Ainda peguei o prédio que foi o antigo colégio na Rua da Gloria, e a dona Coralia (que você cita), foi minha professora também. Ela foi professora a vida inteira do nosso colégio. Era muito seria, ficou arrasada quando um dos filhos foi assassinado, não lembro porque. Lembro tb. de dona Zilda.
Sr. Germano e Dona Sara Mancovetsky (aliás, nunca mais soube das filhas Fany e Rachel, você sabe delas?) eram meus vizinhos no prédio e ela foi minha mora (mestra) de iídiche, gente muito boa, gostava muito deles. Perdemos o contato quando ele morreu e ela foi pra Israel onde tb. morreu.
Não lembro do moré Burschtein.
O Colégio Oswaldo Cruz, fechou no inicio dos anos 50 e foi comprado por papai, tio Jorge e Arão Tandeitnik do Rio, e virou 2 prédios compridos de 3 pavimentos cheios de aptos pequenos para famílias de classe C.
Quando entrei no Colégio em 1952-3 ele já era chamado de Ginásio Israelita de Pernambuco. No fim dos anos 50, já com o curso cientifico, virou Colégio Israelita de Pernambuco, e com a morte do presidente da Federação Israelita (o dono da malharia Imperatriz), numa operação de catarata, hoje bem rotineira, virou Colégio Israelita Moyses Schvarts.