quarta-feira, 19 de novembro de 2014

POR ONDE ANDARÁ DADINHO (parte 1) Novela

                                                    A praça Maciel Pinheiro, no Recife.
                                                                Foto: Internet-Google


"UM AMOR IMPOSSÍVEL" (Novela)

TEMA: "POR ONDE ANDARÁ DADINHO".
(Parte 1)
                                                           
                                                                         (BORRADOR)
                                                                 
Paulo Lisker
 Israel.

Dadinho terminou o ano letivo em Triunfo e foi homenageado com o título do melhor professor do ano.
Nesta oportunidade lhe presentearam com uma condecoração em prata de "Benemérito Honorius Causa" da cidade de Triunfo.
Desistiu de uma vez de ser nomeado diretor do instituto escolar Getúlio Vargas em Piaçabuçu nas Alagoas e voltou na primeira sopa (ônibus no jargão nordestino) para o Recife.
Xóxa não lhe saia do pensamento, ele não via à hora desse reencontro mesmo contra a vontade da família dela, depois de tantos meses de afastamento.
O que não fizeram os fazendeiros do município para aproximá-lo das filhas, com muito bom dote e até terra propunham, mas Dadinho preferia não se comprometer com esta gente interiorana.
Ele "tirava a diferença" com as putinhas da cidade depois das noites de sinuca e cerveja com os amigos professores solteiros e até alguns casados cujas esposas sabiam que na sexta feira o marido "tirava férias" para "jogar cartas" com os amigos, pois a vida no interior era muito monótona, para não dizer "chata pra caralho".
Dizem que as esposas sabiam na realidade o que acontecia nesses encontros chamado "jogar cartas" e se despediam do marido dizendo com sarcasmo: "dá lembranças a Maria..."
A "sopa"(ônibus) chegou "capengando" (nos seus últimos suspiros), na estação Rodoviária do Recife. Digo capengando, pois no caminho dois pneus estouraram e só tinham um de reserva em condições de uso, os outros dois estavam com as câmaras de ar furadas. Que azar danado, coisa muito comum naquele tempo com as vias de barro mal cuidadas, as "sopas" já há muito tempo passaram os 10 anos de uso, quase sem manutenção e os pneumáticos na "lona" (totalmente gastas, na língua do povo).  Não seria surpresa nenhuma quando isso acontecia no meio do caminho das estradas interioranas, especialmente no nordeste brasileiro.
O atraso foi de quase 3 horas até que numa camionete da empresa rodoviária trouxera as peças de reposição necessárias para poder continuar a viagem.
A entrada do transporte para o Recife (a capital do Estado de Pernambuco), passava quase que obrigatoriamente pelo "Gasômetro" (empresa industrial de elaboração e fornecedora do gás de cozinha aos clientes da cidade), localizada no bairro do Brum.
O processo industrial da elaboração do gás exalava um cheiro sufocante característico que enchia o ar da cidade durante horas (quem no passado viveu no Recife conhece este fenômeno negativo muito bem).
Quando começava a brisa ela carreava este mau cheiro para fora da órbita da cidade.
Dadinho foi recebido nesta atmosfera fedorenta, ele que tanto esperava por este reencontro com a sua amada na cidade dos rios e pontes, a Veneza brasileira.
Ao sair da estação a primeira coisa que fez foi tomar um caldo de cana duplo com muito gelo, pois estava morto de sede das horas de viagem na "sopa" que vinha cheia de gente, ademais "capengando" e com um atraso danado.
Foi caminhando a pés ao lado do carregador da mala até a Praça Maciel Pinheiro. Lá se encontrou com seus colegas e amigos de faculdade e os da pensão que servia de "republica de estudantes" num dos casarões ali localizada.
Subiram a escada de madeira do prédio que chiava com a pisada em cada degrau resultado do produto da secular engenharia portuguesa.
É bom em tempo frisar que os "pés de escadas" desses sobrados tinham uma função sumamente importante, serviam de mitorio para centenas de transeuntes que de passagem pela praça não encontravam outro lugar para urinar.
Parece que na herança da arquitetura portuguesa à engenharia brasileira esta não legou a necessidade de lugares públicos para esta função tão importante.
Num perímetro enorme da praça não existia um lugar para estes fins e talvez em todo Recife.
Naquele tempo parece que isso não era importante, então restava os "pés de escada" para "quebrar o galho"(solucionar o problema urinário), e como fediam as escadas nas entradas dos prédios, nem imaginem!

Abraçaram-se depois que abriram a porta, os amigos inseparáveis quase choravam. Ofereceram ao carregador um copo de água da quartinha que sempre estava na janela da sala. Dadinho pagou o biscate como combinado e o carregador foi  descendo às pressas fazendo a escada de madeira chiar como num concerto de sapos em noite de luar em volta de uma poça de água de chuva.
Passaram a noite "chupando" (bebendo, na língua da rua), cerveja daquela boa, bem gelada e de casco verde comendo castanhas de caju ou  amendoim (mendubim, como anunciava na rua o vendedor do produto), torrado ou cozinhado no sal, como "tira gosto". Quem viveu no Recife naquele tempo se lembra muito bem  deste costume bem brasileiro.
Dadinho contava aos amigos sobre esta etapa de sua vida como professor em Triunfo, do encontro frustrado com seu pai em Alagoas. Sobre a visita e estórias que lhe contara um compadre de seu pai, o coronel Barbosa na fazenda "Ipê Roxo", onde passava os fins de semana com Xóxa.
Agora no Recife, durante os dias ele passava as horas dormindo enquanto os amigos frequentavam a faculdade.
Dadinho requisitou a sua volta aos estudos, porem a Faculdade não podia dar uma resposta imediata e definitiva de uma hora para outra, pois ele ao abandonar os estudos não "trancou a matricula" coisa que dificultava esta possibilidade de voltar aos estudos depois de quase um ano de ausência.
Ele alegou que a ausência fora causada por problemas de saúde e que logo apresentaria um "atestado medico" como comprovante.
Isto ele conseguiu facilmente com o Doutor Julinho de Morais que era amicíssimo deste grupo de estudantes, participava com eles nas farras de fim de semana nos puteiros da praia do Pina e os tratava grátis das gonorréias muito comuns na época estudantil em que a penicilina era rara ou mesmo não existia nas farmácias locais. As drogas para tal, trazia do Hospital  Dão Pedro Segundo, que ficava lá pro lado do bairro dos Coelhos onde ele trabalhava. O tratamento de algumas doenças venéreas naquele tempo eram meio "chatas"  e exigia do paciente permitir ao medico meter o dedo com pomadas no cu do enfermo. Tinha também o lado "machista" pois quem "pegava" uma doença venérea era como se fosse um título de "prova de ser machão", pois dizia o "voz do povo" que quem não pegou uma "blenorragia " ou outra qualquer desta qualidade, ainda não era suficientemente macho de verdade. 
O tempo foi passando e quando Dadinho já não aguentava mais os dissabores da solidão, aí começou a perguntar aos amigos por andava  Xóxa.
Desde que chegou, ele não vê nem ela, nem membros da família na praça ou na padaria.
- Que aconteceu? Vivia perguntando aos seus conhecidos!
- Será que foi mesmo estudar Farmácia noutro Estado? Pois este era o seu desejo do tempo que a conhecera.
- E a família dela por aonde andaria? Por todos os santos, onde se meteram? Não se vê mais ninguém deles na praça.
Que sumiço é esse minha gente. Indagava aos conhecidos e aos colegas da pensão!
Estava desesperado e ninguém tinha respostas para ele.
Na realidade se alguém da colônia israelita soubesse de pormenores do acontecido "fecharam o bico" e não davam a "pala" (informação, no jargão da rua) sobre o assunto para ninguém.
Dadinho rodava na praça, perguntava aos donos de lojas judeus sobre o paradeiro da família de Xóxa, respostas nunca recebeu, como era costume dizer na época, "se faziam de môco" (surdez, no jargão nordestino).
Parece que havia uma espécie de conspiração e ninguém queria estar envolvido nesta "massa que o diabo amassou" (coisa complicada onde estão envolvidos um goi e uma judia, na língua do povo).
Os próprios amigos de Dadinho nada sabiam. Um dia deram fé que a família de Xóxa saiu de viagem, mas isto era comum entre os judeus de melhor situação econômica, férias de fim de ano em Garanhuns, Fazenda Nova, Salgadinho, ou Floresta dos Leões (hoje Carpina) etc.
Dadinho quase "endoida" (enlouquece), pois não conseguia respostas concretas para aonde desaparecera a família de sua querida Xóxa.
 Não estudava, não frequentava as aulas na faculdade, aí começou a tomar grandes doses da "branquinha" (cachaça - aguardente brasileiro), frequentava a zona do baixo meretrício no bairro de São José e vivia mais bêbado do que lúcido.
Os amigos tentavam estimulá-lo, convidavam raparigas e as empregada dos sobradões da Praça para festinhas na pensão, faziam bacanal, muita musica e cerveja. Seus colegas queriam de alguma maneira vigiar seus passos e traze-lo de volta a realidade de estudante serio como no passado, mas Dadinho estava impregnado de uma tristeza crônica, uma espécie de desespero emocional, vivia dizendo para todos que ainda tinham paciência para ouvir seus lamentos, que sem Xóxa ele não era ninguém, nada mais que um "molambo de chão, fodido" (Um João ninguém).
Um dos estudantes, Aparício, "amigo do peito" (muito bom amigo) de Dadinho, também alagoano, foi conversar com frei Novais, igualmente alagoano, para pedir "socorro" espiritual para o amigo.
Frei Novais estava de momento servindo no Seminário Maior em Jaboatão.
Pediu a ele que pegasse uma conversinha com Dadinho e que tentasse reanimá-lo para que voltasse aos estudo  depois que o reitor tivesse a permissão do Diretório consentindo o seu retorno sem mais problemas
Assim foi, Frei Novais se armou de toda verborréia que conhecia e passou uma noite toda conversando com Dadinho que não dava nem "um piu" (total calado), nem olhava em direção dos enormes e lindos olhos de um azul profundo do frei.
Separaram-se lá para as tantas da noite como bons amigos, mas nada foi conseguido para melhorar a situação espiritual de Dadinho.

Fim da parte 1 de "POR ONDE ANDARÁ DADINHO" da novela "um amor impossível"
-Todos os direitos autorais reservados.
Cuide dos créditos

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

As bodas de Xoxa com o "prego" (parte 2) - Um amor impóssivel (novela)

    Fotos ilustrativos Google-Internet

"UM AMOR IMPOSSÍVEL"   (Novela)
Paulo Lisker
Israel.
Tema: As bodas de Xóxa com o "Prego" (parte 2)


O rapaz cotado de 27 anos, apelidado pelos seus "amigos vagabundos" de "Prego", por ser magrinho e cabeçudo.
Seu nome de batismo era Itiel em homenagem ao seu falecido avô materno.
Para aquela época ele era um completo "play boy", passava o tempo com os seus amigos jogando sinuca e visitando os puteiros da vila.
De trabalhar com o pai, nem pensar, tinha alergia crônica.
Claro que os pais ficaram satisfeitíssimos com a proposta que chegara do Recife. Quem sabe, assim ele entraria no bom caminho, casa, família, e deixaria a vadiagem inútil.
Os casamenteiros marcaram o encontro das famílias em Salvador já na semana entrante para celebrar os "tnoim" (noivado).
Compraram passagens e embarcaram num "Ita" (navio costeiro da frota brasileira), que vinha do norte e parava no Recife (alguns dizem que foi no navio costeiro Pedro II) discutível, porem não importante.
Toda família de Xóxa subiu a bordo incluso a empregada, ademais acompanharam os 2 casamenteiros, e a entidade máxima religiosa no Recife na época, o "shohet e moel, o venerável Her Rahat" (aquele que segundo as leis judaicas executa o abate de animais e circuncisão dos meninos na sua primeira semana de vida), não havia na cidade rabino, ele era de momento a entidade máxima em temas religiosos.
No "Ita" a viagem do Recife para Salvador durava um dia inteiro.
Logo depois do desembarque no porto de Salvador foi marcado o encontro das famílias de ambas as partes na casa dos Fucs (gente graúda na sociedade israelita da Bahia).
Chegaram a um acordo no que diz respeito às condições da ajuda de cada família para com o jovem casal.
Na situação caótica formada, "quanto mais o bezerro quer mamar a vaca quer amamentar" (provérbio hebreu). Quando os dois lados querem resolver o problema, as decisões destes encontros são tomadas rapidamente. Comparando com casos normais em que a coisa se arrasta por semanas onde se discute este "compromisso" toda vírgula e cada ponto!
Quando se chega a um acordo mutuo é assinado este compromisso ("tnoim"-as condições), levanta-se um brinde de vinho doce da terra santa, com a celebre saudação "lê haim", lê haim (pela vida, pela vida), apertos de mão, abraços e os clássicos desejos (mazal tov) de muita sorte e felicidades para o jovem casal de noivos recém formado.
O documento com as condições concordadas por ambas as partes fica aos cuidados do casamenteiro que se compromete a fazer copias reconhecidas por tabelião e enviar a ambos os lados participantes.
Interessante neste processo é que o jovem casal não é consultado. O que os pais resolvem é como os mandamentos que desceram com o Patriarca Moisés do Monte Sinai. Ninguém se mete ou dá voto! Os anciãos sabem o que fazem e pronto!
 A brisa que soprava do mar entrava pelas enormes janelas do casarão dos Fucs mesmo sem ser convidada e balançava as cortinas de linho francês, assim como a enorme folhagem das lindíssimas plantas tropicais plantadas nos enormes jarros de porcelana chinesa distribuídos nos cantos da enorme sala de visitas,
Do lado de fora desfilava um bloco carnavalesco ensaiando uma batucada com trombones, tubas, reco - reco, de primeira.
Algum sarcástico diria que o som da banda carregado pela brisa, misturado com o que acontecia dentro da casa do graúdo Senhor Fucs era algo fora do comum numa realidade anormal.
Três dias depois foi realizada a "Chassene com a Hupá", (o casamento religioso), foi o tempo necessário para que o rabino escrevesse a "ktuba" (documento obrigatório no casamento religioso judaico), e que contem todos os temas acordados e as obrigações em caso de discórdia e qual a quantia em bens ou dinheiro que deveria ser pago por indenização em caso de divorcio.
Um grupo de famílias judias baianas da sociedade israelita organizou a comida e os apetrechos religiosos necessários para o evento
A cerimônia foi realizada na casa do Comendador Montenegro, (Shwarzberg, no passado europeu), filantropo e uma figura importante nos meios governamentais brasileiros e na colônia judaica de Salvador.
Esta família vivia num enorme casarão na ladeira do Pelourinho.
Todos os apetrechos religiosos da comunidade foram postos a disposição da comemoração, só faltou a musica, mas não era obrigatório.
O rabino Ben Atar (veio num voo direto do Rio) para dirigir o ato e trouxe vinho doce Kasher da Palestina. A comida foi preparada de "hoje para hoje": Varenikes (massa recheada com carne), cocletim (cocretes) de frango e cochinhas assadas, compota de maçã), tudo doado pelas senhoras prestativas da comunidade judaica de Salvador (a maioria eram todas de origem ashkenazitas, daí o sortido cardápio quase todo de origem leste europeu). Para elas este ato de ajuda era considerado uma "mitzvá" (dádiva enaltecedora e gratuita). 
Nunca poderia faltar também o tradicional "Fluden" preparado pelas famílias Rostolder (confeiteira caseira) e eximias no preparo dessa fantástica e gostosa guloseima que consiste numa massa enrolada com recheio com todo tipo de frutas secas, sésamo, nozes, castanhas, amêndoas, frutas cristalizadas, cravo, canela, essência de rosas e de raízes de orquídeas. Uma delicia do paraíso.
O "fluden dos Rostolder" (produto da confeitaria judaica originaria das aldeias interioranas da Romênia) era conhecido não só no Brasil, mas também fora dele, não só por ser uma delicia culinária, como pela sua durabilidade quase ilimitada (meses pelo menos), sem conservantes ou refrigeração, um verdadeiro milagre. A pequena comunidade sefaradí de Salvador ( Pariente, Asulin, Saade, Abitibul e outros) colaboraram com vestimentas típicas para serem usadas pelos noivos no ato do casamento e claro como não podia deixar de ser, a comida da cozinha oriental judaica, assim como, "kuskus", "postas de peixe" (khraime), em molho extremamente apimentado (possivelmente derivado do uso da "pimenta malagueta"), que é de tirar lagrimas dos que se aventuravam experimentá-lo, diversos tira-gostos e guloseimas típicas dos países da Magrebe (norte da África).
Na cerimônia religiosa judaica, o casal de noivos, os seus pais, familiares próximos, os casamenteiros e claro que também o rabino se põe de pé debaixo de uma cobertura de seda ("há Hupá") e quatro testemunhas seguram cada qual uma das pontas desta cobertura que estão prezas cada qual a uma vara de 2 metros aproximadamente.
Ali, depois das rezas proferidas pelo rabino Ben Atar, vem o celebre "quebra copo" que o noivo executa pisando (de sapato é claro) com a planta do pé, isto como uma eterna lembrança (para nunca esquecer), a destruição do templo sagrado de Jerusalém há 2000 anos atrás. (Eta povo de memória ilimitada, não é mesmo)?
Terminada as bodas o jovem casal foi levado para o aeroporto de Salvador no carro do Comendador Montenegro, não antes dele presentear ao jovem casal com dois relógios de ouro 24 quilate e 18 rubis de marca Patheque Philippe. (maquinas de medir o tempo de tão perfeito que eram), uma verdadeira obra de arte da relojoaria suíça. 
Com um vôo da Cia. Varig seguiram em transito para o Rio de Janeiro, troca de avião para um vôo transatlântico D10 da TAP (Transportes Aéreos Portugueses), para Lisboa e no dia seguinte embarcaram para Antuérpia na Bélgica, destino final.
Os familiares e acompanhantes voltaram para o Recife, por sorte estava entrando no porto de Salvador o barco costeiro o Pedro I, rumo a Belém do Pará e fazia escala no Recife com uma carga de carne de Charque e arroz gaúcho.
A família de Xóxa não ficou por muito tempo no Recife, se mudaram para São Paulo e foram morar no bairro  do Bom Retiro que praticamente era um bairro de judeus de origem ashkenazí (leste europeu) no coração da cidade.

PAULO LISKER, Israel.
Fim do trecho 2.      
Todos os direitos reservados.
Cuidem com os créditos. 


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

As bodas de Xoxa com o "Prego" parte 1 (UM AMOR IMPÓSSIVEL)

 

                                        FOTOS ILUSTRATIVAS -GOOGLE INTERNET

"UM AMOR IMPOSSÍVEL"   (Novela)
Paulo Lisker
Israel.
Tema: As bodas de Xóxa com o "Prego" (parte 1)

Xóxa entrou na casa de seus pais no sobradão da Praça Maciel Pinheiro. Nesta casa ela viveu desde que nasceu no Recife. Agora retornou depois de quase sete meses após a sua fuga com Dadinho o "goi" (não judeu), o seu namorado.
Primeiro se dirigiram para fazenda "Os três Cipós" do pai de Dadinho em Alagoas e de lá para Triunfo no interior de Pernambuco.
Para o Recife ela voltara sozinha, pois Dadinho tinha um compromisso a realizar, terminar em Triunfo o ano escolar onde estava lecionando.
A empregada abriu a porta da casa, a surpresa foi "de lascar" (Enorme, na língua do povo), começou uma confusão dos diabos.
Ninguém esperava por isso, uma verdadeira surpresa, pensavam que ela nunca mais voltaria. Pelo menos era isso que previam duas videntes de "grande experiência" da Rua Visconde de Goiana (Madame Jael e a vidente Coração de Jesus).
Depois da fuga deram parte a policia na delegacia da Rua do Aragão.
O delegado Mota veio pessoalmente em casa escutar o acontecido, balançou muito com a cabeça como se estivesse dando a máxima atenção aos fatos mas foi categórico ao dizer que ele não poderia fazer muito, afora colocar um anuncio na seção de desaparecidos, nada mais!
A policia, disse ele, não sai a procurar um casal de namorados que resolve fugir do alcance dos pais.
Isto é um fenômeno que acontece todo santo dia "de três por quatro" (muitas vezes).
Sabiam todos que da policia do Recife nenhuma ajuda seria recebida.
Nesta atmosfera super carregada com a volta de Xóxa, a empregada foi a primeira que voltou a realidade e saiu correndo pelas escadas gritando:
- "Sinhá Xóxa" voltou, ela voltou pra ficar pra sempre, graças Nosso Senhor e o Espírito Santo!
Gente, ela voltou, Nossa Senhora dos Prazeres aceitou as minhas oferendas que pus no altar da Matriz toda semana, mas que bom!
As vizinhas abriam as portas e postigos e colocavam a cabeça pra fora para escutar as novidades.
Outras vizinhas judias, do jeito que estavam vestidas saiam às carreiras para saudar a família com as boas "bessirem" (boas noticias em iídiche, derivado do hebraico).
Em casa um "reboliço danado" (muita confusão), o chefe da família, senhor Shloime que desde a fuga de Xóxa, não consertava mais relógios, vivia sentado lendo a bíblia (ha Tanach) junto à janela do seu quarto que dava de cara (em frente) com a Praça Maciel Pinheiro.
Vivia resmungando em iídiche pelo terrível castigo que Deus lhe impôs na velhice. A fuga da filha querida com um "sheiguetz goi".  (em iídiche, vagabundo, não judeu).
-"Oi vaies mir mit maine tzures" (ai de mim, esta vida desgraçada, do iídiche). Continuava murmurando: "Eu e minha família que a gerações não colocamos na nossa casa nem retrato nem estatuetas (Lo tmuná vê lo pessel - em iídiche)", rezo e faço ao pé da letra tudo como exige as nossas santas escrituras e logo a minha filha foge com um goi e depois de meio ano volta com uma caixa cheia de "bonecos de barro" (arte em barro do famoso Vitalino) e nem pede perdão pelo que fez a nossa família, que vergonha!  (Oi a finstere biche, Gotiniu)!
Agora na minha casa no Recife, eu abro a janela do meu quarto e a primeira coisa que me entra todos os dias pelos olhos adentro é a estátua de uma índia nua (colocada numa fonte no meio da Praça Maciel Pinheiro) ai meu bom Deus, é de morrer!
O velho Shloime (Salomão em português) arrastava os pés, estava realmente aos pandarecos com o acontecido, nem a volta da sua filha querida, o conseguira reanimar.
A mãe de Xóxa, dona Golde choramingando e os irmãos (Uriel, Benchik e Duvidle) não sabiam onde "meter as mãos e os pés" (expressão de descontrole total), só à empregada que os criou desde criança ficou apegada a ela.
Sem perder tempo, foi logo dar uma arrumadela, e colocar as coisas no seu quarto que ficou vazio desde o dia que ela fugiu.
Passaram-se uns dias muito tensos e Xóxa não tinha para onde recuar, estava entrando no segundo mês de prenhez e a família ao saber quase toma arsênico ou estrichinina para acabar de uma vez com esta enorme difícil situação criada. Um verdadeiro desespero agudo daqueles.
Mandaram chamar urgentemente os dois casamenteiros, (shidech maher, em iídiche) que estavam de momento a disposição da comunidade, dona Berta e senhor Faierboim.
Toda conversa era cochichando em iídiche e desta forma relataram a eles a desgraça do acontecido. 
Estas importantes "figuras" da colônia israelita do Recife tinham acesso imediato aos serviços de urgência dos Correios e Telégrafos na Praça Maciel Pinheiro, para eles não tinha lista de espera para serviço nenhum.
Enviaram telegramas aos seus homólogos em outras cidades brasileiras e até para Argentina e Venezuela.
Tentaram contactos por telefone, mas naquela época "que se amarrava cachorro com linguiça" (tempo antigo), já viu né? Só dava ocupado! Vocês com certeza não lembram, porém naquele tempo conseguir uma ligação através de uma agência de correio era humanamente impossível, mesmo tendo as melhores relações com os funcionários locais.
Saíram telegramas de máxima urgência comunicando os dados da "dita cuja", da família tradicional e de respeito na comunidade, à origem ashkenazita (procedentes do Leste europeu), não havia problemas de organizar de uma hora para outra, o enxoval, (nedunie, em iídiche), noivado (tnoim), e casamento. (hassene, também do iídiche). Até aqui o texto do telegrama.
A mãe dona Golde, durante anos comprava aos poucos, tudo que uma noiva deveria possuir para casar quando chegasse "à boa hora". (in a guite chú, também do iídiche). 
O enxoval (há nedunie em iídiche) estaria prontinho e empacotado, com muita naftalina para evitar os estragos dos panos com o tempo. Esse era um costume das famílias judias. 
Agora o importante é que a solução desse caso fosse a mais rápida possível, pois a moça está prenha e o casamento teria que ser antes da menina "criar bucho" (a gravidez ser notada).
Sorte, sorte e grande! Não é que encontraram um homem solteiro "dando sopa" (disponível). A coisa era de máxima urgência, "questão de vida ou morte", pelo menos assim pensava a família e se via na cara deles o desespero total.
Todo casamenteiro (shidech macher) judeu, entendia em qualquer idioma em qualquer parte do mundo o que o texto do telegrama dizia claramente que tem um "goi" (não judeu), envolvido nesta bagunça. Então a solução teria que ser imediata. Sempre que está envolvido um goi nesta situação delicada, as coisas se complicam por demais.
Não adiantaram os lamentos e choros de Xóxa, ela estava "encurralada" nas tradições judaicas, que nem casamento com goi, nem parir o rebento sem casar eram aceitas segundo as tradições milenares deste povo. Ela ainda tinha sorte que esta criança nasceria judia, pois segue a religião da mãe, assim é segundo o judaísmo, ademais não seria considerada "mamzer" um bastardo, ai meu Deus, que sorte!
No dia seguinte todos da família saltaram como "mordidos de cobra" (surpresos, no dizer do povo), mas logo respiraram a fundo quando irrompeu Senhor Faierboim com um telegrama chegado agorinha da Bahia, comunicando que acharam um possível candidato para servir de noivo.
Havia uns "pequenos" problemas, mas na hora do "Deus nos acuda" todo problema poderia ser contornado.
A família do noivo era Sefaradita, o nome de família Abucassis, meio escurinhos, eram procedentes de Iquitos no Peru, a arvore genealógica os levava até o Marrocos no tempo que os judeus fugiram das perseguições dos Reis Cristãos na península Ibérica, nos fins do século XIV.
Já viviam no Brasil há muitos anos, primeiro em Belo Horizonte em Minas Gerais, onde o pai da família se dedicou ao comercio de pedras semi-preciosas e diamantes. Com o passar dos anos se transferiram para Bahia e se instalaram no Recôncavo, lá continuaram com o mesmo tipo de comercio, ademais eram donos de plantações de cacau e café. Dinheiro não faltava!
Fim da primeira parte: As bodas de Xóxa com o "Prego"
Todos os direitos autorais, reservados.
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sábado, 18 de outubro de 2014

A volta de Xóxa ao Recife (parte 2)," Um amor impossivel" (novela)




                       Fotos do Recife antigo.
                                                   Google-Internet

"Um Amor Impossível" (novela)
                                          Paulo Lisker

                                          (BORRADOR)                      TEMA: A volta de Xóxa ao Recife. (Parte 2)

Já seu Simeão o chofer era também mecânico diplomado pela "Opel do Recife", um negro da cor de piche, sua pele até brilhava, a dentadura alva que  nunca viu dentista nem de longe, seu apelido na praça de estacionamento era "Jamelão" e claro torcia pelo Santa Cruz Futebol Clube.
Ele ao que me parece era "Crente" ou da "Igreja do Sétimo Dia" (estou em duvidas), um senhor de maneiras muito educada, prestativo, foi logo em busca da bagagem de dona Xóxa, meteu no bagageiro da "fubica" (assim denominavam os carros velhos naquele tempo) e saiu fumaçando em rumo do endereço que a passageira a sinhazinha dona Xòxa lhe dera. 
O aroma e as cores do Recife estavam espalhados nas ruas  próximas ao cais de Santa Rita e em volta do ponto terminal dos ônibus.
Não sei se também em outras cidades do nordeste se estampava o mesmo panorama.
Ali estavam as carrocinhas dos vendedores de "cachorro quente",  bolinhos de goma e pão doce salpicado com açúcar grosseiro, o carrinho de gelada de frutas da época (tamarindo, mangaba, graviola, limão da terra com nacos de casca, laranja comum, cajá, pitanga, pois frutas é o que não falta no nordeste.
Duas maquinas de caldo de cana que serviam em copos grandes com pedras de gelo um liquido doce, de cor verde intenso, tinham aqueles que preferiam adicionar também sumo de limão de pé franco. (Gosto e sabor, não se discutem). 
O cheiro da cana esmagada lembrava o cheiro que exalava as bagaceiras nas usinas de açúcar no seu processamento, ou mesmo dos canaviais em floração na zona da mata e agreste do nordeste.  
O vendedor de "garapa" (caldo cana azedado e algo alcoólico) anunciava o seu produto cantando seu conhecido pregão, outro anunciava quase gritando, "olha ai o mel de Uruçu, doce pra chuchu", ele trazia no segundo balaio, umas latinhas vazias de leite em pó ou do condensado da Nestlé, e cambucas para levar o produto pra casa. Quem não comeu pirão de farinha de mandioca com mel de Uruçu ou banana melada neste mel, não sabe o que é bom!
As tendinhas das costureiras, rendeiras e bordadeiras, com seus trabalhos manuais, as famosas rendas do Ceará, roupa usada, redes de Caruaru, estavam à venda nas calçadas.
O mais sui generis dos produtos crioulos, sempre estavam presentes, estes eram
os tamancos de madeira e as sandálias rústicas com o solado de pneus Firestone, pneus que saíram de circulação dos meios de transportes, porem nos solados destas sandálias eles não se acabavam nunca. Eu que o diga, pois as usei durante anos, nunca me envergonhei, muito pelo contrario, me vangloriava, pois os amigos usavam calçados da Casa Clark que eram os preferidos pelos "veados"(frescos na língua do povo), ricos da cidade.
E como em toda esquina estavam os vendedores de coco verde, malabaristas no uso do facão para preparar o coco (da Paraíba o de mais água e o mais doce), prô freguês beber e depois comer a "laminha saborosa" (sedimentação formada pela agua acumulada no interior do fruto), com uma colherzinha feita com a habilidade da própria casca do coco.
Não era raro escutar já de longe o vendedor de macaxeira rosa pregando:
-"Macaxeira Rosa, cozinha até em água fria, macaxeira rosa patroa, só hoje tem....." e por aí saía e desaparecia lá pros lados da Rua da Alegria ou do Beco da Mangueira.
Mais pra longe, estavam ancoradas no cais de Santa Rita, as barcaças, desembarcando fardos de algodão "Mocó" do agreste e do sertão, sacos de farinha de mandioca, sacos de açúcar, engradados com pequenos animais ou aves, um mundo de esteiras de todo tamanho, redes, vassouras de Piaçava, espanadores de carrapicho, varas compridas, gaiolas e alçapões de "barba de bode", eu mesmo não sei o que mais.
 Noutras, as barcaças carregavam pra levar o sal das salinas do litoral, carne de charque proveniente do Rio Grande do Sul, pequenos utensílios domésticos de alumínio, tecidos, vestimenta, calçado (sapatos e botas), roupa de cama, garrafas de refrigerantes e bebidas em geral, tudo que era material manufaturado na capital ou vinha do sul do País.
Todas essas operações, carregar, descarregar, empilhar, arrumar, amarrar eram feitas por negros musculosos, brilhando de suor nas quenturas e sem brisa no Recife do verão eterno.
Estes intrépidos estivadores crioulos, que vestiam camisas feitas de sacos de açúcar, usavam só seus braços e cabeças neste trabalho pesado. Era um costume dessa gente sempre estar cantando durante estas operações "portuárias". Eu nunca vi por lá guindastes ou cousa que o valha.

Imaginem o colorido e o aroma de tudo isso apresentado ao publico. Era mesmo para "limpar a vista" e que nem Walt Disney conseguiria colocar na tela do cinema, e que ele   me desculpe.

A fubica de seu Simeão ia rodando devagar pelas ruas apinhadas de transeuntes carregados de compras.
Ao passar defronte da famosa estação de trens da "Gretoeste" (Great Western.),
surgiam novamente os vendedores ambulantes e aqueles das barraquinhas.
Na pracinha em frente à estação e junto ao paredão do pátio onde ficavam as "Marias Fumaça"( locomotivas acionadas a lenha ou carvão vegetal), chiando e recebendo algum tratamento mecânico antes de se atrelar aos seus vagões de bitola estreitam (assim era naquele tempo as ferrovias no nordeste) e partir para as viagens no interior pernambucano.

Ali estava, o eterno vendedor de abacaxi descascado com arte, sem sequer um espinho na sua polpa, sempre cortados em quatro partes com pauzinho espetado para se poder ir comendo no caminho ou sentado no local, na sombra dos enormes pés de Fícus Benjamin.
As pilhas de abacaxi de cor verde (muitas vezes meio acido, bom pra refresco) e os de cor amarela, doces como mel e de um aroma que se alastrava até a Ponte Velha.
Estes estavam à espera dos compradores em atacado.
O cheiro era embriagador!
No outro lado, na calçada oposta, estavam as pilhas de melancias de Pesqueira, com estrias mais claras na casca, esta variedade nunca foi muito doce, porem os judeus sempre as apreciavam.

As de Escada eram melancias enormes de casca verde escuro, algo mais doce. Da sua casca grossa, algumas donas de casa judias, faziam delas conservas, assim como de pepinos ou pimentões, técnica  trazida da longínqua Europa de invernos frios e judeus pobres.
Pilhas de manga rosa, espada e manguitos diversos, que vinham de Catende e Palmares, tinha para todo gosto dos clientes.
Encostados e pendurados no paredão da Estação Central estavam os quadros de pintores crioulos com suas "obras primas". Pinturas "inocentes" em aquarela, óleo, e até material mais sofisticado (butique, esmalte, etc.).
Nas inúmeras telas estava estampado o nordeste brasileiro, sua gente, seus bichos, as plantações, as danças da roça e a exuberante vegetação tropical. Parece que o Sertão com suas periódicas secas, os resultados funestos por ela causada, a terra nua ardendo, carcaças de animais, os "paus de arara", o êxodo rural, a fome, os olhos tristes do sertanejo, não eram modelo ideal para os quadros dos pintores matutos!

Estava presente quase sempre  o vendedor de galinhas vivas da raça Carijó, estas de pescoço pelado e vermelhão.
Mais de lado debaixo de um Fícus frondoso, um "montão" de gaiolas cheias de passarinhos dos mais diversos, que eram pegos em alçapões em todo nordeste vendidos a preços irrisórios. Os mais procurados eram os papagaios (louros), canários, galos de campina, e periquitos. Nunca faltou mercadoria.
Vendedores de loteria estadual e nacional anunciando a sua mercadoria e contando dos prêmios fabulosos que seriam sorteados logo depois das 16 horas.
Era muito comum encontrar também os vendedores de letras de musicas populares da época (CORDEL, musica e ou poesias populares). Esta mercadoria sempre foi muito procurada pelo publico, pois "cantores de banheiro" sempre houve no Recife romântico daquela época. 
Nesta área, estavam  presentes os repentistas ou violeiros sertanejos, dando um concerto de sua arte e angariando uns tostões para comprar o almoço num bar junto da Ponte Velha.
A fubica atravessa a Ponte Velha e de lá se vislumbrava toda a beleza do Recife entre os rios e pontes, ela é mesmo a Veneza brasileira.
Na vazante do Capibaribe, dezenas de "catadores" de Siris.
Eles, assim como na sua própria vida, estavam atolados na lama do rio até meia canela, procurando tirar dela o seu misero ganha pão.
Também as barcaças aproveitavam a vazante do rio, e valentes nordestinos retiravam areia do leito para vender aos pedreiros e empreiteiros de construção.
Meu bom Deus, essas eram as cores, os sons, os cheiros, os apitos das "Maria Fumaça", anunciando a saída ou chegada na estação da Great Western ( Gretoeste, na língua do povo), os pregões dos vendedores ambulantes anunciando as suas mercadorias, os mesmos mendigos anos e anos sentados nas pontes com as suas chagas expostas para quem quiser ver e dar uma esmola. Nós até já conhecíamos alguns deles.
A vegetação exuberante para todo lado que se olhava, vazantes e enchentes, maré alta e maré baixa, jangadas de pau balsa e velas de sacos de sal ou açúcar, pontes pra "dar e vender" e uma delas até giratória, a primeira do Brasil.
Bondes para todo canto, fubicas (Ford Bigode do ano 29), corso e carnaval humilde, frevos para o folião, gente pacata e acolhedora do Recife, será que hoje ainda é assim? 
Será meu Nosso Senhor? Será? 

A fubica fumaçando, seguia pela Rua Velha e já - já chegaríamos à Praça Maciel Pinheiro e no sobradão, onde numa das casas, morava a família de Susana.
Ao passar pelos Correios e Telégrafos estava um grupo grande de gente discutindo e lendo uns comunicados que os funcionários de vez em quando colavam no quadro de avisos.

- Que aconteceu? Alguma greve? Perguntou Susana ao motorista senhor Simeão.
- Não senhorita, neste tempo de Getúlio ninguém tem coragem de fazer greve, oxente!
-Então o que é esta balburdia na porta dos Correios?
- Olhe, foi alguma coisa seria, afundaram um comboio de barcos brasileiros que estavam transportando tropas para reforçar as posições dos americanos no nordeste, Falam muito num tal Baependi, não sei se é o almirante da esquadra ou o nome de um dos barcos.
- E quem os afundou senhor Simeão?
- Dizem que foram os submarinos alemães nazistas e depois  que torpedearam, subiram "os filhos da peste, safados" à tona e metralharam os sobre viventes, para não deixar testemunhas! 
- Quando foi isso?
- Não sei dizer não sinhazinha, acho que foi essa noite! Agora com sua licença podemos estacionar na porta da sua casa?
Tremula como uma "vara verde" diante este reencontro com sua família depois da  fuga com seu namorado Dadinho, deu-lhe a devida permissão.
Ela não sabia o que esperar, qual seria a reação dos seus familiares.
Compreensão seria positivo ou o contrario raiva e desprezo, quem sabe? Porém agora "não se chora pelo leite derramado"(ditado, derivado do iídiche), e o que será, será! Assim diz o sábio.

Fim da parte 2 (A volta de Xóxa ao Recife), "Um amor impossível". (Novela)
Paulo Lisker, Israel  07-12-2010.
A próxima parte: : As bodas de Xóxa com o "Prego"