sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Tem espião sacana informando (Parte 1 de 4)

SÁBADO, 8 DE DEZEMBRO DE 2012


Tem espião sacana informando

Parte 1 de 4


Fonte do desenho: Wikipédia

Da série: "Das conversas com meu avô"
28-07-2011

Tema: Espionagem nazista no Recife inocente.
(Revisado em 01-12-2012)
Paulo Lisker - Israel.

O pessoal sentado nas cadeiras de vime no terraço do nosso casarão na Rua Gervásio Pires, tomou um fôlego quando meu avô chegou ao final da estória que contava. (veja "A lataria boiando", neste blog).
Ele abriu um maço novo de cigarros Regência, tirou um e acendeu, tomou uma pitada de rapé e ofereceu aos amigos.
Aspirou profundamente e tomou o finzinho do seu chá, certamente já totalmente frio. Recostou-se na sua cadeira de balanço, aí descansou.
Foi à hora do meu tio sertanejo se pronunciar:
-Senhores! Vou lhes contar um fato que era um segredo medonho na época que ocorreu. Explico-me, isso ocorreu na atmosfera vigente em todo o Brasil e especialmente no Recife, durante a segunda grande guerra mundial.
Hoje talvez não seja mais proibido relatar o acontecido. De qualquer modo me cuido muito ao contar o que vocês vão escutar agora.
Para que tenham uma idéia do sigilo guardado pelas autoridades, quando a coisa ocorreu, nem se deveria dar, a saber, aos seus próprios familiares.
Sigilo pra cacete mesmo. 
Nem o Repórter Esso nem a BBC contaram nada, nem teriam coragem de divulgar, pois era segredo de Estado.
Meu tio pediu ao senhor Goldberg um cigarro americano Philip Morris.
Este senhor negociava com os americanos na construção das pistas aéreas no Ibura (Daí os cigarros que adquiria na cantina dos oficiais ianques).
Acendeu e deu uma boa baforada. Elogiou o gosto todo especial do tabaco "Virgínia" (ele fumava charuto ou cachimbo de vez em quando), gostou demais do cheiro adocicado do cigarro que se fazia sentir em todo o terraço e até penetrava pelas janelas abertas para o interior da casa.
Ajeitou-se na "espreguiçadeira"(cadeira muito regional do nordeste, para descançar os velhos ossos), onde costumava sentar-se e começou o seu relato:
-Era no tempo da guerra na Europa, mas espiões nazistas estavam espalhados pelo mundo todo especialmente no Brasil.
Submarinos alemães rondavam nossas costas torpedeando tudo que era barco que trafegasse nas costas brasileiras do Oceano Atlântico.
Para essa função eles necessitavam de informações desse trafego naval para poder localizar com mais facilidade os comboios que transportavam mantimentos, soldados e armamentos para as bases americanas no litoral brasileiro.
-Durante muito tempo o serviço de espionagem nazista estava recebendo do Recife informações valiosíssimas do movimento dos comboios brasileiros e americanos, especialmente nas costas do nordeste brasileiro.  
Não tinha jeito de localizar de onde esta “peste desgraçada” transmitia estas informações.
Por parte eram culpados os equipamentos obsoletos da época e especialmente os que os ianques trouxeram para o Recife.
Poderia ser também que este espião era do tipo James Bond e tinha um sistema de transmissão desconhecido pelos aliados e o “Serviço contra Espionagem de Pernambuco”. Este operava com tecnologia obsoleta e atrasada de mais de meio século, pelo menos.
Chegava ao cumulo que esta informação era tão precisa que os submarinos nazistas que andavam fuçando (procurando informação ou localização, em nordestino) nos nossos mares, não tinham problema nenhum para localizar os comboios dos aliados e torpedeá-los.
Queriam eles desbaratar tudo que fosse navegação costeira e desta forma desmoronar as linhas de defesa dos aliados no Brasil.
Tio Jorge, tomou o restinho do chá e encheu o peito de ar quente do Recife misturado com os aromas de Jasmim e Camélias que vegetavam no nosso quintal e disse quase sussurrando.
-Vou contar pra vocês o que nem o Repórter Esso nem a BBC, nunca vão contar, pois era naquele tempo segredo de Estado.
Tomem assento, se ajeitem que aí vem a “bomba”.
Lembram-se do espião que fazia tempo estava dando uma dor de cabeça danada às entidades da "Contra Espionagem"? Hoje vocês vão saber como pegaram este “filho duma égua”, sem ajuda nenhuma de entidade profissional neste campo.
Todos abriram os ouvidos e com os olhos esbugalhados ficaram congelados nas cadeiras de vime e não deram mais um pio até quando o meu tio terminou de contar a tal prosopopéia.
Não tem como os judeus para gostar dessas coisas de mistério.  
Tio Jorge apagou o cigarro americano no cinzeiro de barro que tinha trazido da feira de Caruaru, ficou um cheiro adocicado de tabaco Virgínia no ar.
Assim foi a coisa:
-Como diz o nosso matuto: “Um dia é da caça e o outro do caçador”.
Nesta semana chegou o dia do caçador.
Marcelo um menino traquino que estava brincando na praia de Boa viagem descobriu algo que lhe deixou atônito.
Ele tinha terminado a reunião com seu grupo de Escoteiros do Mar (tinha isto no Recife, até os chamavam de “mamãe eu quero ser besta”, isto pelo fardamento mescla e o quepe de oficial que usavam nos dias de reunião do grupo).
Ele mesmo não acreditava no que descobriu e como é comum dizer nestas ocasiões, ficava esfregando os olhos para verificar se não era um sonho ou miragem.
De repente ele escuta o seu pai lhe chamando, gritando: “Marcelo pôrra, onde estás”!!!
Quando terminou esta atividade nos escoteiros? Porque não voltaste direto pra casa. Já são 9 da noite, mãe já esquentou o teu prato de comida duas vezes! Que estas fazendo na praia a estas horas, tas doido menino, só mesmo umas boas chineladas botará em ordem esta cabeça de desobediente da peste, ainda mais com esta mania de escoteiro do mar. Os outros meninos com certeza já estão em casa e tu preocupando tua mãe.
Ela já não sabe o que fazer de tanto espiar (olhar preocupada, em nordestino) pela janela se tu já estás á caminho de casa.  E de ti nem sinal, necas.
Toma juízo moleque! Brincando a essa hora da noite na praia deserta, tas doido mesmo!
Por que está tão excitado menino, o que descobristes aqui que te deixou desse jeito? Vai diz logo, desembucha, não tenho tempo pra ficar aqui à noite toda.
Pai eu vim pra praia para juntar mariscos bonitos, pois haverá uma exposição desse material na nossa sede de escoteiros no Pina e o trabalho mais bonito ou original ganhará de premio uma bicicleta Mercury com 3 marchas! Então que achas? Eu morando na praia vou perder para um escoteiro que mora em Água Fria ou na Madalena, ta doido. Onde eles vão achar mariscos? Na lama do rio Beberibe ou no Riacho das Lavadeiras, nunca na vida.
Isso era o que estava fazendo na praia pai! Juntando mariscos, tou perdoado paizinho? Agora escuta bem, de vez em quando ao levantar a cabeça do catar mariscos eu vi algo que me deixou com uma “pulga atrás da orelha”.
-Que aconteceu o que te assombrou?
Marcelo agarrou a mão do pai e balbuciou uma única frase: Pai, eu descobri o espião que vive transmitindo informações para os submarinos nazistas.
O menino tremia de tão excitado que estava com a descoberta.
-Menino, vocês bebem lá nestas reuniões de escoteiros? Ou achaste uma meia garrafa de “Pitu” (marca de cachaça muito comum no nordeste), jogada na praia? Provaste alguma dessas ostras alucinantes? Tu estás doido menino, vamos embora tua mãe já esquentou duas vezes a tua janta, tomas um banho frio e amanhã estarás curado! 
Vamos, vamos, tu estas bêbado, que vergonha, nesta idade ou tens febre e estás delirando.
De onde você tirou esta estória que o espião que meio mundo procura, logo tu o encontraste aqui na praia da Boa Viagem!
Nem uma palavra mais, pega as alpercatas (sandálias, em nordestino) e a mochila e vamos embora!
Fim da parte um.

Todos os direitos autorais reservados
Cuide dos créditos.
Postado no Fubana em 28-07-2011

Tem espião sacana informando (parte 2 de 4)

SÁBADO, 29 DE DEZEMBRO DE 2012

Tem espião sacana informando



Tema: UM DETETIVE MIRIM
(Revisado em 01-12-2012)

Paulo Lisker, de Israel

PARTE 2 DE 4

-Pai, pelo amor de Jesus e Maria, olha ali parado encostado na estrada esburacada que vai da Boa Viagem até o Pina.
Olha bem direto, ali junto ao coqueiro “meio gogó da Ema”, ta vendo um carro?
-Menino, ta escuro, vamos embora já ta tarde!
-Pai olha bem, tu vês um carro, parece que é Studbacker, desses novos que chegaram ao Recife agora.
-E daí menino, quem compra carro novo é espião?
-Pai é pela maneira que está estacionado. Tu não estás vendo, o carro estacionado com o bagageiro voltado pro lado do mar e os faroletes dos breques (freios) em nossa direção, ta vendo?
-Estou. Ele pode estacionar como quiser, não tem lei que proíbe estacionar carro desse jeito, com a traseira voltada à praia.
-Eu sei pai, mas vê os faroletes do “stop” de cor vermelha piscando (cintilando, em nordestino), acendendo e apagando sem parar, repara homem, ele está transmitindo mensagens para algum submarino no alto mar.
-Agora mais essa. Tu entendes de Morse? Vamos embora, mais um pouco tua mãe vai pensar que algum de nós se afogou! Virgem Maria da Misericórdia, este menino ta é doido!
Amanhã te levo logo cedo ao Dr. Sampaio, que te faça um exame geral, eu sabia que esta merda de “escroteiro” ia te embrulhar os miolos, Nossa Senhora, larga o meu braço e vamos embora pra casa.
-O senhor é mesmo teimoso. Foi nos cursos de escoteiros que aprendi a transmitir mensagens com bandeirinhas, com som de telegrafo, tin-tin-tiiin ou ti tiiin, assim por adiante. Cada “tin, tin” desses, pai, tem um significado no alfabeto. Sei transmitir e decifrar também com o piscar da luz, foi a ultima coisa que aprendi, pois nos navios se usa muito este método, nunca viste nos filmes de guerra?
Eu sou campeão juvenil nisso, até ganhei uma medalha pelo evento feito na nossa sede no mês passado, tu estas falando com um “dunga” no assunto, me respeite! To brincando não pai. Serio, eu sei decifrar esta merda.
Já faz mais de meia hora que estou vendo este “filho da puta” nazista transmitindo mensagens, foi bom que o senhor chegou, pois eu não sabia mesmo o que fazer, ou pra quem contar, serio!
-Então o que diz este sem vergonha, vai dá-me lá uma idéia.
-Bom que tenho aqui o caderno que levo para as reuniões de escoteiros, está na minha mochila. Vamos lá, vou tomar nota do que ele esta transmitindo.
-E como ele faz isto, menino?
-Ele pisa no pedal de freio e segundo o tempo da luz vermelha acesa no farolete do "stop", ele manda a letra de cada palavra.
O pai dá uma gargalhada e diz:
-Tu tens certeza que ele não está com uma putinha que levou lá da "Estrada do Chupa" pra comer na praia. Uma mão na “moita” e o pé balançando em cima dos pedais do carro e segundo os piques do “serviço” que está recebendo ele vai compondo estas "mensagens" com os pés nos pedais?
Esta está boa demais, teu “suposto espião” está é trepando uma boa e o que vai sair da tua interpretação dos sinais será uma estória do Bocage.
Isto está mesmo muito gozado, Marcelinho o “escroteiro do mar” é o novo "caça espiões" do Recife, ta boa!
Tua mãe vai achar muita graça e vai até esquecer que está zangada contigo.
-Pai deixa de falar sacanagem e safadezas, se tu esculhambar comigo, eu juro que conto a mãe desse teu belo vocabulário comigo, que tenho agora só 12 anos.
Se o senhor quer saber mesmo, paizinho, ninguém “trepa” de motor do carro ligado. A gasolina está cara e racionada e não é nada cômodo trepar dentro de um carro fumaçando.
-Menino da peste como tu sabes que o carro está com motor ligado e funcionando?
-Tu já viste os faroletes dos “breques” (freios, na língua da rua) acenderem e apagar com o motor parado? Nunca na vida, só acende e apaga com a chave ligada e o motor funcionando, entendeu paizinho?
-Ta bem, ta bem, começa a apontar no caderno, vamos ver se sai alguma coisa que não seja “gala” (esperma em nordestino) pra todo lado, beijinhos, caricias, suspiros e outras coisas desta transa romântica na beira da praia. Tu não estás vendo que o que se passa naquele carro é um programinha e não espionagem? Vamos embora menino e deixemos estas coisas para quem entende disso.
-Pai uma hora atrás este desgraçado mandava um comunicado atrás do outro, foi aí que dei fé. Agora parou e se a gente esperar um pouquinho com paciência…. Olha, olha agora ele esta transmitindo de novo. Repara:
"G A U X O 22" (deve ser o código dele), "ZUM  S S 99" (deve ser o numero do submarino).Ta vendo? Ta vendo? Eu não lhe disse. O senhor é muito teimoso, viu.
De repente pai e filho ficaram atentos olhando o “pisca a pisca” que vinha dos faroletes dos breques do carro. Começou uma nova transmissão e de repente parou no meio, pois alguém se aproximou da janela do carro, com certeza pedindo esmola. ou coisa assim.
O suposto espião saiu do carro e também a “putinha” como pai diz.
Atravessaram a estrada e foram sentar numa pequena barraca que vende “casquinhos de siri”, empadinhas de camarão, água de coco e cerveja Brahma.
Eles tinham que disfarçar o que de verdade faziam dentro do carro, pois amor não era mesmo.
Acho que foram descansar depois da “chupada” ou coisa que o valha, como suspeitava senhor Clodoaldo.
Marcelo quase choramingando pede ao pai:
-Vamos aproveitar o tempo que eles estão fora do carro e vai depressinha até o bangalô do seu Jorge no sitio do coqueiral dos Bortman. Pede para ele telefonar chamando a brigada militar que anda com aquela camionete que tem uma antena rodando no teto, procurando transmissões “piratas” (nome vulgar para transmissões clandestinas).
Assim procedeu senhor Clodoaldo o pai de Marcelo.
Marcelo ficou na tocaia, (esperando atento, em nordestino), olhando os breques do carro do espião caso novas mensagens, voltassem a ser transmitidas.


Todos os direitos autorais reservados
Versão anterior postada na Fubana: 28-07-2011
Fonte do desenho "Espião", Inter

TEM ESPIÃO SACANA INFORMANDO (Parte 3 de 4)

SÁBADO, 5 DE JANEIRO DE 2013



TEM ESPIÃO SACANA INFORMANDO



Da série: "Das conversas com meu avô"
28-07-2011

Tema: “O CASO PIRILAMPO"
(Revisado em 01-12-2012)
Paulo Lisker, de Israel

PARTE 3 DE 4

O CASO PIRILAMPO

-De onde vocês pensam que eu conheço tão bem essa estória? Perguntou tio Jorge e enxugou o suor da testa, coisa muito comum no calor do Recife nesta época do ano.
Respirou fundo e continuou a contar o desfeche do acontecido a sua platéia no terraço da nossa casa na Rua Gervásio Pires.
-Caso o senhor Clodoaldo o pai de Marcelo não viesse bater na porta do meu “bangalô” onde veraneava naquela semana na praia da Piedade, nunca ficaria sabendo, pois, a censura militar proibiu toda e qualquer menção do caso, foi um “total calar de boca” e bem fechada.
Nada deveria chegar aos meios de comunicação e nem a ninguém, pois queriam “armar um alçapão” (armadilha em nordestino), para “fuder a cartola" (destroçar, na língua do povo), de uma vez por todas os submarinos nazistas nas nossas costas.
A intenção dos americanos no Recife era pegar de surpresa os espiões e continuar transmitindo informações falsas, e desta forma levar os submarinos para a uma área onde os aliados os esperariam para destruí-los de uma vez para sempre.
“Pelo Baependi”, filhos de uma grande puta!!!
Aqui entre nós, vocês sabem como denominaram este caso no arquivo do “S.C.E.M.”? (Serviço Contra Espionagem Militar). Alguém sabe? O documento que trata deste caso está “escondido” num arquivo secreto e é denominado “CASO PIRILAMPO”. Sabem o que é pirilampo? Não? Ninguém sabe? Vocês são mesmo uns ignorantes. É isso mesmo! Em iídiche é “gachliles ou faierflay”, já ouviram?
Pirilampo ou Vaga-Lume é aquele besourinho que ilumina de noite feito um “pisca-pisca” voador, já viram? É muito comum no mato.
-Seu Goldberg, meio hipnotizado se pronuncia em defesa do grupo dos "bebedouros de chá":
-Seu Jorge, nós não andamos no mato de noite é por isso que nunca vimos estes tais pirilampos ou os gachliles que o senhor agora contou pra nós.
-Então está explicada esta falta de conhecimento de vocês. Vou continuar a palestra. Estão aguentando?
Pois bem:
-Disse-me uma vez o nêgo Capitulino, aquele que o avô dele ainda foi escravo na fazenda Camaragibe e o seu pai se salvou com a “Lei do Ventre Livre”, que estes besourinhos com as "lanterninhas" á piscarem, eram as ultimas luzes que acompanhavam as almas dos miseráveis escravos á caminho do cemitério, o verdadeiro céu da eterna liberdade.
Quem sabe ele tinha razão. Os escravos morriam escravos, nem a promulgação da Lei do Sexagenário os redimia, pois morriam antes dos sessenta e como nenhum deles tirava certidão de nascimento, pior ainda. Nunca podiam provar pôrra nenhuma no que diz respeito à idade. Mas bonito que pelo menos os pirilampos os acompanhavam no seu ultimo caminho, em geral durante as noites, pra ninguém ver os defuntos destes negros serem enterrados num monturo dentro do mato da fazenda. Estória do "nego" capitulino, acreditem se quiser.
O pessoal no terraço nessas horas e nessa idade já estava tensos demais com a estória e já muito impacientes pediram para fazer um descanso para desengonçar a velha ossatura e urinar.
Sabem como é com gente velha, a bexiga enche logo de tanto chá, e a próstata incomoda pra cacete.
Ficou aquela fila na porta do único banheiro que tinha o nosso casarão. Casa do estilo português antigo, em que o penico era obrigatório em todo quarto ou sala de dormir, lembram-se?
Alguns septuagenários do grupo, aqueles de bexiga mais frouxa, e os mais corajosos, não esperavam na fila e se metiam entre as bananeiras no fundo do quintal e lá "vertiam água" (urinar na língua de povo educado). Na pressa de voltar a sua cadeira de vime, alguns deles esqueciam de abotoar a braguilha ou se urinavam nas calças.  Ser velho é peia! (muito dificil, na lingua da rua).
Para nós, os meninos, o fundo do quintal era o lugar mais mal assombrado do mundo, durante o dia ainda tínhamos coragem de ir até as bananeiras, mijávamos e ainda nos regozijávamos de estar regando as plantas. Coisa de menino besta.
Mas de noite, nem pensar de ir até o fundo do quintal que estava pegado ao sitio de seu Ramos.
Chico “gaguinho” que também era escoteiro jurava por Deus (sem isolar) que ouviu o seu tio Djarbas, o guarda de transito (tinha disso no Recife), contar ao seu pai que o personagem fantasma mais famoso que estava escondido naquele sitio era o “Cavalheiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, com seu cavalo branco sem cabeça. Imagina.
Não tinha menino, nem os mais afoitos ou corajosos, assim como, (Meira Bucuar, Vivi Jacubovitz ou mesmo Julio "magro", que andava quase correndo em cima dos muros mais altos e afilados sem nunca cair), que depois das 8 horas da noite entrasse até o fundo do sitio ou do nosso quintal! Era mesmo de admirar, corajoso, corajoso, porém se "cagavam de medo" só em falar de entrar no sitio ao escurecer.           
Tudo que se mexia, uma sombra que bulia na folhagem ou na parede, espantava toda meninada que logo “desembestava” (saia correndo as loucas, em nordestino) de volta para casa com um medo danado e iam logo dormir (sobre este sitio do senhor Ramos, já postamos neste blog 3 capitulos, quem quiser é só procurar e se deliciar com este pedaço da mata Atlantica no meio do Bairro da Boa vista, no Recife, agarrado (junto) ao nosso casarão na Rua Gervasio Pires). 
Os velhos amigos do meu avô depois de 10 minutos com as bexigas vazias e próstatas serenas, retornavam para o terraço.
Para a surpresa de todos já estava em cima da mesa novos copos de chá fumaçando de quente (sempre com uma colherzinha em cada um deles). Um prato fundo cheio de bolachas Maria, outro com fatias de goiabada Peixe e queijo coalho (não pasteurizado, produto caseiro dos nossos sertanejos e que nunca ninguém morreu por isso).
Este produto, meu tio Jorge nunca esquecia de trazer quando voltava nas suas andanças pelo interior do Estado, assim como, também o "fumo de rolo" para as empregadas que parte da sua diversão era fumar (em cachimbo de pau) este fumo, produto artesanal do nosso homem do campo. 
Minha mãe pediu ao seu irmão Tutcho (assim ela chamava o meu tio Jorge), que se desculpasse em seu nome para com as visitas, os amigos do meu avô, pois amanhã era dia de feira na Praça do “Peixe Boi” e ela mais minha tia, iria com as empregadas fazer feira logo cedinho, então já era hora dela se recolher.
Vizinho ao nosso casarão era outro casarão onde estava instalada a “Pensão Internacional”.
As janelas do seu primeiro andar davam para o nosso terraço.
Os hospedes em geral eram estudantes, músicos e gente jovem em geral.
De noite eles ficavam debruçados nas janelas não tanto pelo calor e a umidade do Recife, porém espiando interessados nestas reuniões de judeus reunidos naquele terraço uma ou duas vezes por semana.
Tenho certeza caso os diálogos fossem em português e não em iídiche, eles teriam interesse em saber o que este grupo de anciões discutia com tanto ardor.
Sei disso pelas conversas da minha tia Dina com o amigo Capiba (se não me falha a memória, o estimado senhor Lourenço da Fonseca) que durante um bom tempo lá vivia com outros músicos da Jaz Band Acadêmica.
Por mais de uma vez ele contou do seu interesse em saber sobre que assuntos discutiam naquele terraço debaixo do Jasmineiro e das Camélias.
Para encurtar a estória, continuou meu tio Jorge a contar o sucedido na praia de Boa Viagem.
Correu ele e o pai de Marcelo para o terminal de ônibus da Boa Viagem.
Acordaram o vigia o único que no seu quarto onde descansavam os choferes durante o dia, tinha um telefone fechado a cadeado. De noite só o vigia tinha direito de usar para casos de emergência, mas o coitado não sabia como fazê-lo.
-Dá-me a chave deste telefone, precisamos avisar a policia de um “acidente” ali perto da “Casa Navio”!  Vai anda homem, é coisa urgente.
O vigia viu na cara dos dois que não adiantaria discutir dizendo que ninguém fora ele tem o direito de usar o dito cujo. Mesmo contra gosto abriu o cadeado, seu Jorge discou e pediu o Comissário.
Mandou o vigia dar uma volta onde estão estacionados os ônibus que partem para o Recife amanhã cedinho. Esperteza deste judeu, que não queria que o vigia ouvisse a sua conversa com o comissário.
Em poucas palavras ele contou as suas suspeitas e pediu que, por favor, avisasse ao serviço secreto americano sediado no Forte de Cinco Pontas e que pelo amor de Deus usem viaturas civis, sem sirenes e que o encontro seria na praça do circular da Boa Viagem.
-Combinado? Não demorem, pois tem alguém transmitindo mensagens para submarinos no alto mar. Traz pelo menos dois ou três gringos com experiência da “Tropa de assalto instantâneo” sem arma de fogo, caso estejamos enganados ninguém ficará ferido.
- Esta prosopopéia  tem um fim até a madrugada? Pergunta senhor Shvalbmam bocejando à beça.

Fim da primeira parte do CASO PIRILAMPO.
Todos os direitos autorais reservados
Fotografia copiada do Google

TEM ESPIÃO SACANA INFORMANDO (Parte 4 - Final)

TEM ESPIÃO SACANA INFORMANDO

  PARTE 4 FINAL

Tema:  Caso desvendado



Ilustração: Google-Internet
Da serie: "Das conversas com meu avô"




Paulo Lisker - Israel.


- Esta prosopopéia  tem um fim até a madrugada? Pergunta senhor Shvalbmam bocejando à beça.

-Tem, agora começa o principio do fim. Responde meu tio Jorge (o sertanejo) também dando uma gostosa bocejada.
Tudo funcionou as mil maravilhas. Eu que o diga!
-Chegaram seis viaturas com uns 10 agentes especializados no assunto, mais três agentes gringos (ianques).
Vieram também duas camionetes da Cooperativa de Laticínios (só camuflagem), saíram todos de pés descalços pela praia, mandaram Marcelo e seu pai mais para longe, os agentes gringos constataram que o dito cujo estava na realidade transmitindo em Morse para outrem.
Cochichavam em inglês entre si para que os policiais brasileiros não entendessem (Era raro naquela época um milico ou policial local, dominar a língua dos Yankes).
Um sistema de transmissão desse jeito, usando os faroletes traseiros do carro, nunca vimos, nem estudamos nos cursos contra espionagem nos States, eita bicho sabido da peste este "son of bitch".
Para nós foi realmente uma surpresa que nos pegou desprevenidos exatamente no Recife, esta aldeia primitiva e pantanosa. Veja só o que o destino nos regalou, vou fazer deste caso meu estudo de doutorado na universidade de York, quando me libertar do serviço militar, vai ver será uma tese arretada.
Estes gringos na realidade pertenciam à tropa de elite de “assalto imediato”! Um deles era medico, no caso de alguma reação violenta, logo seria aplicada uma injeção para acalmar os envolvidos na ação de flagrante.
O mais importante era prendê-los em boas condições físicas, levar para o inquérito e investigações necessárias no caso.
Em geral estas coisas eram feito no Jiquiá onde tinham uma prisão em conjunto com a policia federal brasileira e lá até defunto confessava.
-Ta ficando tarde minha gente e vocês estão cansados, então para encurtar a estória vos conto que a tropa fez um trabalho excelente. Pegaram os dois sem grandes problemas, como diz o figurino.
Um pouco de violência nunca fez mal a ninguém, a senhorita Gretchen que estava com rapaz gritava que ela é a noiva dele, esperneou um pouco, o medico gringo da tropa de assalto instantâneo lhe tacou (aplicou) uma injeção e pronto, tudo voltou a total calma.
Ninguém viu nada, ninguém ouviu nada!
Neste tipo de ação também os agentes brasileiros estão entre os primeiros na elite melhores do mundo.
E o meu tio Jorge, continuou:
O rapaz, Adolfo Pedro Kroenenbaur, brasileiro de 29 anos, natural da colônia alemã de Gramado no R.G.do Sul.
Estava estudando na Alemanha algo que tem a ver com oceanografia e administração portuária ou coisa parecida. Foi reprovado nos exames finais, aí entrou em ação o serviço secreto nazista e o recrutou em troca do cobiçado diploma. Apesar do fracasso no exame final ele o receberia caso estivesse pronto a "colaborar".
Ele aceitou, voltou para o Brasil já depois de estalada a guerra na Europa.
Dizem os boateiros que foi um submarino alemão que o deixou nas costas do Rio Grande, não boto a “minha mão no fogo" pela veracidade do acontecido.
Depois de uns meses inscreveu-se num concurso para uma vaga na Capitania dos Portos no Recife, com muitas boas recomendações e o tal diploma, foi aceito.
Logo estava atuando com grande autoridade no assunto que estudou em Leipzig e foi colocado no ponto nevrálgico que dominava todas as informações de qualquer tipo de movimentos marinhos no Atlântico.
Não podia haver um lugar melhor para roubar informações secretas necessárias para ajudar o serviço de espionagem nazista. Eles necessitavam dessas informações com a máxima urgência para desbaratar o movimento dos comboios aliados nas costas atlânticas do continente sul.
O consulado alemão no Recife tratou de recrutar a tal senhorita Gretchen, argentina de origem alemã para servir de camuflagem para o Adolfo que era homossexual passivo e declarado. Na Alemanha os seus homólogos na comunidade e na Escola Superior de Oceanografia e Navegação, o adoravam.
Prometeram um salário adicional ao salário de fome que pagavam no Brasil a um “especialista” no assunto como ele. Puseram a sua disposição um carro novinho em folha e lhe ensinaram a tal técnica de transmitir em Morse as informações com os faroletes do carro na praia de Boa Viagem, tendo sempre ao seu lado a simpática Gretchen que servia de camuflagem para o tal “namoro” e os contactos permanentes com o consulado alemão. 
Depois que confessou e contou tudo o que sabia, entre outras deu a lista de centenas de “quinta colunas” brasileiros do norte ao sul do país que colaboravam com os nazistas, nomes dos diplomatas do consulado que eram espiões ativos, códigos, senhas, contas bancarias onde recebia pagamento pelos serviços prestados a mãe pátria, Alemanha.
Ele foi uma dádiva caída do céu e que entre outras permitiu a continuação de transmissões falsas aos submarinos nas costas pernambucanas até que estes “engoliram a isca” e caíram na armadilha armada pelos aliados e foram destruídos ou fugiram para outras bandas.
Possivelmente algumas latas de comida em conserva destes submarinos criminosos, torpedeados pela frota de guerra dos aliados, vieram bater na mesa da nossa família. Pois meu pai tinha o costume de comprar estas latas dos jangadeiros que as traziam do mar ou da praia e as vendiam em qualquer praça do Recife. Pensando bem, agora me dá até nojo (leiam "A LATARIA BOIANDO", já postadas nesse blog).
-A senhorita Gretchen teve seu destino amparado pelo próprio Perón e Evita que pressionaram ao governo brasileiro de Getúlio Vargas para fazer extradição pacifica para Argentina sem as luzes da mídia.
Ela possuía passaporte argentino como tantos outros mil e que foram regalados a muitas famílias de nazistas que vieram viver na Argentina antes e depois da guerra na Europa. Isto prevendo qualquer emergência que pudesse acontecer ao regime nazista na Alemanha. Uma forma para preparar um “novo lar” para esta “corriola” de criminosos de guerra, dando a eles guarida contra ação da justiça dos povos.
A noticia que ouvimos dos nossos patrícios em Buenos Aires foi que ela ficou pouco tempo na Argentina e foi ocupar um cargo de tradutora na Embaixada da Alemanha em Assunção do Paraguai, cujo presidente transformou o país numa enorme "estância" (fazenda) e abriu as cancelas para refugiar criminosos de guerra dos mais famosos, depois da derrota da Alemanha nazista.
-Quando indagado do porque desta "nobre generosidade" com criminosos de guerra, ele riu e respondeu:
-Desta regalia só usufruíram aqueles que tinham passaportes diplomáticos e clérigos, fornecidos pelo Vaticano! Aqui não entrou nazista nenhum! 
-O destino de Adolfo o “espião dos pedais”, também conhecido como “O CASO PIRILAMPO” não se tem conhecimento maior.
Sair são e salvo das investigações do “Centro Cultural” do Jiquiá (assim era denominado pelo povo), física e mentalmente, seria um milagre.
Dizem que recebeu uma injeção de água e veio a falecer logo depois. Levaram o defunto para o necrotério do Derby. Avisaram a família sem grandes explicações, disseram que foi vitima de um amante zangado por traição com outro homossexual. O assassino fugiu para São Paulo e que a policia de lá está o par de todo o caso é uma questão de umas semanas ele será preso e conduzido para o Recife para julgamento.
A família fez o enterro em Pelotas no R.G. do Sul, sem nem publicar nota do falecimento no jornal. Em tempo receberam um “conselho” das autoridades federais para não “fazer onda”, pois logo o Brasil inteiro estaria a par do “desvio sexual” do filho querido e naquele tempo ser fresco declarado no Brasil era pior que ser espião nazista.
O carro dele está até hoje no deposito de sucatas do Departamento de Transito do Grande Recife na Imbiribeira.
O consulado alemão no Recife "tirou o corpo fora" e declarou "para Deus e o mundo" que nada tinha a ver com o tal brasileiro, que segundo as autoridades brasileiras, era espião a favor do nazismo e que nunca tinham nem sequer ouvido o nome do dito cujo. Tudo não passava de uma trama para romper as relações diplomáticas com a Alemanha, instigada pelos norte americanos imperialistas.
Até aqui meus senhores. Então valeu a pena vir à reunião desta noite na casa de seu Joseph para escutar tanta coisa interessante? Não é mesmo?
-Que fim levou o menino Marcelo e seu pai o senhor Clodoaldo que foram os verdadeiros heróis nessa estória cheia de altos e baixos, perguntou senhor Tabachnick, já se levantando para sair.
-Quase que esqueci, diz tio Jorge, eles foram agraciados pela colônia militar americana do Recife.
O senhor Clodoaldo recebeu um relógio "Eterna", de ouro, “de precisão protegida, resistente e elegante e que precisão, uma verdadeira maquina de medir o tempo”. (assim dizia o comercial desta marca divulgado na PRA- 8, Radio Clube de Pernambuco).
Ademais um “emprego vitalício” na construção do aeroporto e bases americanas no Recife e Natal. Estava feito, como se dizia na época.
Marcelinho o menino, recebeu cidadania americana e foi por conta deles fazer seus estudos por lá. Formou-se em “Radio Engeneer” em Ohio. Morreu na Coréia, nunca acharam o cadáver, foi considerado desaparecido como muitos outros soldados americanos nesta guerra. Seu nome figura em Washington no Monumento em Memória do Soldado Desaparecido, cujo local da sepultura desconhecido.
Não levou três meses depois que recebeu a triste noticia o senhor Clodoaldo, o pai de Marcelo se suicidou ao se jogar no mar na Ponte Giratória.  
Todo o grupo de amigos do meu avô respirou fundo, soltaram um suspiro acompanhado pelo clássico “oi vei mir in leibn” (ai da minha vida, em iídiche) “engoliram em seco” e cochicharam entre si: “Azamin maisse fin der taifel” (em iídiche: “Mas que estória dos diabos”).
A reunião e a discussão só terminavam quando meu pai perguntava meio cínico:
-Senhores mandar preparar outro chá? (em iídiche “Noch a gleizel tchai?”).
Todos entendiam a indireta e começavam a se despedir como sempre nestas ocasiões.
-A guite nacht, a guite nacht, shalom, shalom, morguen fri zoln mir afile nisht guidenken fin a naier Hitler, imach shemó!!!
(Boa noite, boa noite, paz, paz e que amanhã acordemos sem um novo Hitler e que dele não se recorde nem o seu nome)!
Fim da crônica " TEM ESPIÃO SACANA INFORMANDO".

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Versão anterior postada no blog Fubana em 05-07-2011
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