domingo, 29 de setembro de 2013

A DROGA MILAGROSA Parte 2 de 3


                                  Arrecifes no litoral da cidade do Recife   Foto Google, Internet

No Tempo dos Boatos que corriam no Recife "Matuto".
(Parte 2 de 3)

Tema: "A DROGA MILAGROSA" 
         Crônica de PAULO LISKER
                Israel


Ao chegar o medicamento na maternidade foi uma verdadeira festa e muita alegria por parte do corpo médico. 
O Diretor pediu que guardassem sigilo, pois toda esta "odisséia" não foi muito "católica" (feita por "caminhos tortuosos" e não muito legais).
Mas nesse jogo para salvar a nossa paciente, vale tudo!
O pessoal médico concordou e nada foi parar nos jornais da cidade ou na Radio Clube de Pernambuco. 
 
Começou o tratamento e para encurtar a historia (fato que aconteceu e não invenção), dona Blima recebeu uma quantidade galopante da tal penicilina. Depois de uma semana, já se via sensível melhora e depois de duas semanas comia comida sólida, daí  para adiante entrou num período de convalescença e após 20 dias, deixou o hospital, "novinha em folha" porém infelizmente sem a possibilidade de uma nova gestação e o seu filho considerado "excepcional" sem esperanças de voltar a normalidade e deveria estar baixo cuidados de outrem para o resto da vida.

Um êxito espetacular, o corpo médico feliz da vida, todo a maternidade vibrava! Vamos pressionar para trazer esta Penicilina agora e já!
O Brasil está carente em medicina e remédios deste quilate, não é mesmo? Dizia um medico para os outros, todos concordavam balançando a cabeça em sinal de acordo. 
Enviaram por carta oficial registrada e expressa todo o laudo médico, exames efetuados etc., para o famoso hospital A. Einstein na América, que colaborou discretamente para o desfecho exitoso desta missão. 
 
Dona Blima saiu com o seu bebé satisfeita com a nova vida que recebera com a ajuda de Deus, da droga milagrosa (a Penicilina) e dos ótimos médicos da maternidade.
Saiu acompanhada por dona Hanie, sua prima, e o medico particular o doutor Estevão, para uma casa de repouso, o Sanatório Tavares Correia, em Garanhuns. 
 
Verdade seja dita, nada foi publicado nos jornais da cidade, dizem que viram uma pequena nota sem especificar nada, num jornal do Rio e depois de  dois meses, apareceu a mesma nota no Diário de Pernambuco, aqui também passou quase que despercebida.
 
Mas assim não foi na colônia israelita, os boateiros e fuxiqueiros, logo após terem conhecimento do "milagre", não precisaram mais de 48 horas e toda a colônia comentava sobre a "droga milagrosa" a Penicilina.
É uma coisa estupenda, milagre como este, trazer de volta uma pessoa "quase morta"  ou em coma profunda, sem esperança qualquer de se recuperar, isso só no tempo do Patriarca Moisés, que tirou água dos rochedos no deserto e abriu o mar Vermelho para deixar passar o povo hebreu fugindo do cativeiro no Egito.

Não sabia esta gente que o descobridor da penicilina, também era patrício!
 
Não demorou muito tempo e a colônia só falava na tal droga que seria sem duvida nenhuma a "vacina" imbatível para todas as doenças da humanidade. 
Com o passar do tempo, a pressão das camadas intelectuais e médicos brasileiros de renome, iniciou-se uma campanha muito bem divulgada nos meios de comunicação solicitando para que a "droga" fosse oficializada no Brasil e importada de imediato!
A coisa resultou exitosa  e a Penicilina apareceu nas farmácias, pelo menos nas grandes cidades e custava "os olhos da cara". 
 
Foi "tiro e queda", os judeus do Recife ao saber da novidade correram para as farmácias para tomar a "vacina". Era um patrício emprestando dinheiro ao outro e no fim das contas até o "Banco Cooperativo Israelita" colocou nas suas transações normais o empréstimo para a "vacina milagrosa", sem juros ou correção monetária, pois se tratava de um investimento "salva vida".  Em tempo explicaram aos interessados que para ser "vacinado com este novo remédio" era necessário apresentar uma receita médica. 
Sem problemas, logo conseguiram dos médicos recém formados e sem clientela, mediante o pago de cinco contos de réis, forneciam a sonhada receita, alegando uma infecção qualquer. 
Assim toda colônia tomou penicilina, velhos e crianças, homens e mulheres!
Agora mais que nunca estavam convencidos que de aqui para adiante ninguém mais da colônia teria mais problemas de saúde e de morrer por qualquer besteira (coisa fútil), nem se fala!
Fim de matinhos, chazinhos de folhas, bruxarias, benzas, sopros, lavagens no cu com sabão amarelo, sangria, ventosa, leite de magnésia, óleo de rícino ou óleo de fígado de bacalhau, pílulas de vida do Dr. Ross e outra centena de medicinas da época!
Boa época esta que se "amarrava cachorro com linguiça" e depois comiam o "cachorro quente" no Parque 13 de Maio e agora vacinado ninguém tinha medo de infecções intestinais ou outra qualquer "holiéra" (Cólera e seus semelhantes, em iídiche).
Comparavam este milagre com aquele que fez Moisés no Egito, quando ordenou salpicar sangue de uma tenra ovelha nas portas das casas dos judeus, para evitar mortes dos primogênitos quando pela noite adentro o Satanás viria foiçar nas casas de todas as famílias egípcias, que não conheciam este "castigo" que Moisés declarou com a ajuda de seu Deus e assim, conseguir convencer ao Faraó libertar os judeus do Cativeiro de quase 400 anos. 
Vendo os pingos de sangue nas portas dos judeus, o satanás ou qualquer outro em seu nome, saltava aquelas onde estava salpicado. 
Daí o nome do feriado "Peissach" (Páscoa) que deriva  da palavra hebraica "posseiach" (saltar). 
 O salpicado de sangue estava pelo menos no mesmo nível de importância, assim como, a Penicilina  milagrosa de hoje. 

Fim da segunda parte da croniqueta "A DROGA MILAGROSA".
Todos os direitos autorais reservados.
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A DROGA MILAGROSA PARTE 3 DE 3


                                                       
                                             O povo nas ruas do Recife  Fotos Google
No Tempo dos Boatos que corriam no Recife "Matuto".
(Parte 3 de 3)

Tema: "A DROGA MILAGROSA"
         Crônica de PAULO LISKER
                Israel

 Isto posto, dever-se-á acrescentar umas palavras sobre a estratégia adotada para injetar em tantos pacientes,  cada 4 horas, durante 24 horas do dia, durante uma semana pelo menos. 
O herói desta proeza foi seu Odon (na nossa casa todos o chamavam com muito respeito, senhor Adão), balconista e vendedor  na "Farmácia Salutar" na Praça Maciel Pinheiro.
Ele era quem aplicava injeções na farmácia, caso alguém necessitava.
Naquele tempo uma infecção ou furúnculo era tratado com injeções de "Anti-Piogênica", meio século antes da Penicilina.
Então durante o dia ele aplicava as injeções na própria farmácia, mas na "etapa penicilinica" era necessário ir a casa do paciente fosse de noite ou de madrugada com chuva ou calor.
 
Este trabalho era bem pago pelos pacientes judeus, ademais de uma boa gorjeta, porem não lhe dava tréguas! A noite toda, 24 horas de correria.

Vendo o peso da tarefa, deixou a farmácia e se tornou  autônomo, trabalhando por conta própria.
Mesmo assim era humanamente impossível dar conta do "recado".
Foi aí que lhe veio a idéia de contratar empregados de outras farmácias, aqueles que tinham experiência suficiente para tal função.
Contratou mais oito "enfermeiros" para a labuta noturna, e assim de alguma forma cobriram toda colônia judaica do Recife, ansiosa de se "vacinar" com a droga milagrosa.
 
Seu Odon e seus colaboradores "corriam" pelo bairro da Boa Vista, Coelhos, chegava até a Madalena, Torre, Espinheiro e quem sabe onde mais.
 
Mesmo nossa família, toda ela, e mais as nossas empregadas, tomamos durante uma semana inteira, as injeções de Penicilina.
Exigimos que fosse seu "Adão" que o fizesse, pois o conhecíamos da Farmácia na Maciel Pinheiro, quando comprávamos remédios, em geral para algum "desarranjo intestinal", muito comum naquelas épocas sem geladeira e comprando carnes do "miudeiro", aquele que andava com um cachorro feio e cheio de pulgas, então não era para menos.
 
Diga-se de passagem que quase ninguém tinha geladeira elétrica.  Nós quando passamos para a "etapa burguesa" da nossa vida, meu pai comprou no leilão da Rua da Conceição, uma "geleira" que funcionava com um quarto de barra de gelo.
Este comprávamos todas manhãs na carroça puxada a cavalo de seu Arlindo, que parava nas portas dos casarões da rua Gervásio Pires.
O gelo vinha "bem conservado" coberto de pó de serra, para não derreter  no caminho.
Na "geleira" de nossa casa ao chegar as 22 horas, não restava dele nem mais o cheiro!
Recordem que as "garrafinhas" que continham o liquido da droga deveriam estar todo o tempo em condições refrigeradas.
 
Assim era minha gente, algumas vezes tomávamos as injeções da droga na temperatura natural que conseguia manter o interior de lata da pobre  "geleira" e seja como Deus quiser!
Eu acho que da nossa família, só quem escapou a esta aventura, foi meu primo caçula Nussi da Barão de São Borja.
Ao ouvir  que o "enfermeiro" chegou, saltava o parapeito do terraço de sua casa no segundo andar, se agarrava num enorme mamoeiro (naquele tempo tinha deste porte também)  e escorregava abraçado no seu tronco. Ao chegar a terra "são e salvo", corria e se escondia na casa de Lea e Perinha Berenson até que o "perigo" passava!
 
 
Para facilitar o trabalho logo no inicio da "campanha de vacinação", seu Odon comprou uma bicicleta Raleigh, isto para facilitar sua locomoção e respeitar os horários loucos que exigia nesta missão quase que impossível.
 
Será de bom proveito, em tempo, explicar com que instrumentos realizavam esta incumbência.
Levavam um estojo de metal, e dentro dele uma ou duas seringas, quatro ou cinco agulhas de diâmetros diferentes.
Numa sacola a parte, uma mecha de algodão uma garrafa de álcool etílico e uma caixa de fósforos.
As mesmas seringas e agulhas eram usadas continuamente e para pacientes distintos, depois de fervidas no estojo de metal, para tal função usavam o álcool.
 
 De tanto uso as agulhas já estavam com a ponta meio "cega" e causavam certo desconforto na aplicação quando aplicadas no braço, então em lugar de trocar as agulhas, passaram a ser injetadas em geral na bunda. Ninguém reclamava, pois a "vacina" valia qualquer sofrimento.
 
Contam, não sei se é verdade, que numa ocasião a agulha de tanto uso, se quebrou dentro da bunda de um paciente (parece, se não me engano, foi na bunda do senhor Bogater, o padrasto do nosso amigo Vivi). 
Nunca conseguiram detectar onde ela andava dentro do seu corpo, mais o apelido pegou "Yankel fin di nudel" (Jacó da agulha).
Seu Odon, com a ajuda dos outros "enfermeiros" por ele contratados, conseguiu de uma maneira exitosa respeitar o horário das aplicações e no final da campanha, esta boa alma, estava "podre de rico", relativamente a aquela época das primeiras décadas do século XX.
 Ele nunca mais voltou a ser assalariado, foi-se embora para Piracicaba e lá com uma prima abriu sua própria farmácia e a chamou "Adão e Eva". Bonito, não é?
 
Vale a pena salientar, que no Recife naquela época, ninguém nunca fez uma pesquisa acurada  do porque do nível de sanidade mais elevada da população judaica, em comparação com as demais.

Isto estava na cara, era raríssimo a paralisia infantil, tuberculose, sífilis, gonorréia, lepra ou outras enfermidades da pele muito comuns que se via em todo lado pelas ruas do Recife (mendigos a pedir esmolas nas pontes da Boa Vista, expondo as feridas abertas em geral nas pernas).
 
Quem sabe, eu meditando como matuto e meio primitivo, seria isto uma decorrência direta da famosa  "campanha penicilinica" que este grupo humano judaico recebeu?
Penso que no mundo de hoje, sem a inocência, escolarizado, cheio de médicos e especialistas em todos os ramos, Ongs de defesa ao indefeso e mais o "diabo a quatro", isto  seria terminantemente proibido.
Mas naquele tempo a "campanha judaica de vacinação" em massa foi de um êxito sem precedentes. Levou muitos anos para se descobrir que esta "droga" não era vacina cosa nenhuma, mas vá convencer uma comunidade de judeus imbuídos de que sim era uma droga que salvou a parturiente da morte certa, então não importa se hoje todo mundo sabe que penicilina é um antibiótico e não é vacina, mas naquele tempo era e pronto!
No fim desta estória, a penicilina venceu e o ishuv** judeu "ganhou saúde". Será?
 
 
* O nome da empresa aérea  não tenho certeza, desculpem, pois já se passou muito tempo e muita água salobra correu por baixo das pontes do velho rio morto Capibaribe.
** Ishuv= comunidade em hebraico. 
 
N.B. Alguns nomes dos envolvidos nesta crônica são fictícios, assim como as entidades citadas.
 Isto por ser um tema médico que exige total sigilo destes. Será?
 
Fim da cronica "A DROGA MILAGROSA"
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                                             O povo do Recife nas ruas. Foto Google Internet

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O MEU AMIGO DUDA (Parte 1 de 3)


O MEU AMIGO DUDA  (Parte um de três)
Paulo Lisker
Israel
                                                 Foto Google, Internet



Apesar da gente "bater uma zorrinha" lá no terraço do casarão da família de Duda, na Avenida Conde da Boa Vista, ele não era exatamente meu amigo, era o irmão do meu bom amigo da infância, Senha (José Alexandre Ribemboim).
Parado diante do portão de ferro, ele dava bons passes para outros dois ou três "futebolistas de zorra", e chutava com classe para que o goleiro pudesse fazer boas exibições, agarrando a bola de borracha no peito evitando que ela fosse de encontro ao portão de ferro, fazendo um barulho danado. Quando isso acontecia, despertava de supetão dona Clara (a senhora mãe de Duda e Senha), da "shlaf shtunde" (soneca de depois do almoço)! 
Muito irritada, abria a janela e dava uma bronca "danada", pedindo silencio.
A gente parava por uns minutos, ia beber água filtrada de quartinha, de um filtro com "velas" de barro, por sinal gostosíssima.
Descansávamos e logo recomeçávamos a "bater a zorra" de novo (treino de futebol num patio qualquer), até o próximo carão (reclamação) de dona Clara. 
Aí, parávamos de vez e íamos conversar num canto do quintal, debaixo de uma enorme mangueira de "pé franco", que nunca dava frutas. E ficávamos brincando quietos, com os peixinhos, no aquário de Senha.

Eu sempre perguntava: Duda, tu "pegas" (escalado) a seleção da escola?
Ele respondia: Não, eu me dedico aos estudos, pois, se não tiver boa base, como passarei no futuro no concurso de Engenharia, não é mesmo?
- Mas ainda tens tanto tempo até o concurso, por que não te esforças para "pegar" a seleção da escola? Tu jogas muito bem, é uma pena Duda!
Eu pensava que com aquele jeitão de "futebolista de zorra", ele poderia ser um segundo Ademir, que começou no juvenil do Sport Club do Recife e foi parar no Vasco da Gama, do Rio, depois, no selecionado nacional. Era um artilheiro para "mais de contrato" (excepcional, na língua da rua).
Eu guri inocente, sem nunca ter visto um estádio ou um jogo da liga pernambucana, pensava que Duda poderia ser no futuro o que Ademir foi para o futebol brasileiro. Inocência de pixote.
Duda era um menino judeu, meio gordinho e desengonçado, na verdade muito inteligente (Como era toda essa família Ribemboim), porém de atleta não tinha nada.
Acreditava que ele era um exímio "jogador de zorra", e isto para mim, já bastava para credenciá-lo como futebolista que deixaria estádios inteiros, de pé, ovacionando.
Seria o primeiro futebolista judeu, de fama internacional (o sonho inocente de uma criança tola).
Todos os meus amigos eram alunos da escola judaica, situada na Rua da Gloria.
Assim também foi Duda, que era mais velho, e frequentava o quarto ano primário, o ultimo na escola iídiche naquele tempo.
Lembro-me quando a escola ainda não era o Colégio Hebreu Brasileiro.
O seu quadro profissional era um dos melhores: dona Rinelia, Eulina, mais tarde, dona Lenira, Odete, Ivanise, Coralia, dona Mancovetsky (jardim da infância, diplomada na Polônia), ela substituiu a mestra extraordinária do jardim da infância, dona Lazar (foi quem me recebeu dando os primeiros passos na escola iídiche). Infelizmente esta última veio a falecer muito jovem, de câncer no seio. E havia o "moré" (educador) senhor Burshtein, professor do estilo antigo que dava castigo por qualquer travessura ou falta de cumprir com os deveres do dia. O castigo era meter a criança no "quarto escuro", a gente morria de medo e depois mandava chamar o pai para dar-lhe um "esculacho" daqueles (reclamação contra o pixote), e em casa o pai ou a mãe dava mais um castigo. O povo judeu dá muito valor a educação escolar, dizem que por isso tem tanto judeu com premio Nobel.
A meninada tremia só em escutar o nome deste senhor educador, o senhor Burshtein.
Depois que toda a sua família imigrou para a Palestina, ele foi substituído por um professor estrangeiro, o senhor Halperin, que, com o passar do tempo, soubemos que era comunista.
Depois de uns anos na escola iídiche, ele foi ensinar nos Estados Unidos ou no Canadá. Já faz muito tempo, não lembro mais.
Dizem as línguas ferinas que ele não queria que a sua lindíssima filha, Dvoirele, encontrasse no futuro um noivo recifense filho de um "proste" (sem cultura) prestamista analfabeto. Não fica bem para uma família de cultura européia. (es past zich nisht - em iídiche)!
Um belo dia, com toda essa bagagem didática e professores de primeira linha, foi à Escola Iídiche, intimada pela Secretaria Estadual de Educação, porque o seu certificado de aprovação, bem como as notas, não seriam validas e reconhecidas para entrar no ginásio de outras instituições escolares no Brasil.
A notícia causou um grande reboliço na comunidade.
Logo a escola iídiche, imagine!
Não podia ser! Tem safadeza nisso!
Os responsáveis do "comitê pedagógico" da escola apressaram-se para averiguar a causa daquele problema, agora criado.
Na comunidade, já havia aqueles que diziam: é coisa de anti-semitas, esses sempre estão dando voltas, fuçando e procurando problemas que, em muitos casos, não existem.  Era só para criar confusão e multas em dinheiro.
Plínio Salgado e sua "gentalha" eram uns verdadeiros espantalhos, para a colônia judaica do Recife. Tal gente, possivelmente, não queria uma escola judaica exitosa, naquela atmosfera católica e racista, que reinava no ensino recifense.
A prova disso era que, mesmo nas escolas laicas, existia aulas de religião católica, não como estudo da literatura dos magníficos textos das escrituras, mas, simplesmente, o catequismo.
A comunidade judaica do Recife solicitou, aos diretores dessas escolas, a dispensa da presença obrigatória de alunos judeus naquelas aulas. No principio, eles relutaram, porém, depois de novas "investidas", aceitaram conceder a "regalia" aos alunos judeus.
Quando eu já estava no Ginásio do Colégio Osvaldo Cruz, as aulas de religião, ministradas pelo Padre Anchieta, um tipo simpaticíssimo, que foi no passado Capelão da F.E.B. quando o Brasil enviou "a cobrinha fumando" para lutar contra as forças fascistas na Itália e, por incrível que pareça, com uniforme verde, nos campos de neve europeus (informação do padre Anchieta numa das aulas em que fui assistir, mesmo estando dispensado).
O nível de ensino na escola iídiche, nas quatro classes primárias, era excelente: as professoras eram todas formadas e com diploma reconhecido em todo o território nacional e o professor de hebraico e iídiche, importado do Canadá.
Os alunos que terminavam o primário passavam nos exames de admissão dos colégios do Recife, com as maiores médias.
No ginásio do Colégio Osvaldo Cruz, ou outros da cidade, chegavam muito bem preparados, e eram, quase sempre, os melhores alunos de todas as turmas.
Então, por que a Secretaria da Educação vinha com essa alerta oficial sobre a validade dos certificados?
Logo agora, quando a escola chegara a um número tal de alunos, que a soma das mensalidades dava para cobrir todos os gastos diretos e, ainda, deixava algum lucro para investimentos. 
Só faltava isso, agora!
Sem demora, foi marcado um encontro dos Delegados da escola, com o Secretário Estadual de Educação.
No dia do encontro, ele não estava presente, conforme o protocolado.
Era sempre assim: coisas mais importantes, em Vitória de Santo Antão, acompanhando o governador do Estado.
O funcionário que recebeu os dois Delegados deu-lhes o melhor tratamento. Desculpou-se pelo fato de o Secretario estar ausente, afirmando que, ele mesmo, responderia pelas inquietudes da escola judaica.
- Conheço o vosso sistema de ensino, ele é deveras muito bom, as notas das provas são excelentes, o número de horas de aulas, as professoras diplomadas, as tarefas de casa mormente cumpridas, o coro orfeônico com o maestro Sadigursky, a visita do medico Dr. Radunsky, duas vezes ao ano, os uniformes respeitados, uma escola de muito bom nível.
Tomou fôlego e continuou:
-Sabemos até da cantina de dona Rosa Litvin, que vende lanches baratos e gostosos, para aqueles meninos que não o trouxeram de casa, é uma conquista social, pois crianças com fome não estudam, só fazem anarquia, não é mesmo?
Nós até expomos o vosso modelo, nas reuniões com os diretores de outras entidades de escolas primarias. Uma pena que vocês não nos dão a honra de comparecer àqueles encontros. Mas, isso não é problema, vocês são uma escola particular e não têm a obrigação de participar.
Mas, meus senhores, existem uns probleminhas que, se não forem resolvidos de imediato, os vossos certificados escolares não poderão ser aprovados, pela Secretaria da Educação e, quem sabe, o Ministério no Rio poderá até criar ainda mais problemas...
Os Delegados judeus se surpreenderam com o conhecimento do funcionário Dr. Celestino, no que diz respeito ao desempenho da escola, e perguntaram, então, quais eram os problemas tão graves. Seria pelo ensino das línguas hebraica e iídiche, não vigentes nas demais entidades de ensino primário?
 - Para permitir o ensino das línguas de nossos antepassados, colocamos no currículo mais seis horas mensais, para não prejudicar as outras matérias. Contratamos um professor para isso e os meninos o respeitam. Estão aprendendo e entendendo seus pais e avós, até, quando eles conversam em casa.
Onde reside, então, o problema para tão séria advertência?

- Senhores, vocês tomarão um cafezinho comigo? Perguntou o funcionário e acendeu um cigarro Astoria ou Asas (cigarros daquele tempo da Cia. Souza Cruz), dando uma enorme baforada em direção ao teto.
-Sim, como não, com muito prazer, responderam os dois senhores, Benjamim Berenstein e Moisés Schwartz, com a boca seca, de tensos que estavam.
O funcionário tocou numa sineta que estava em cima da mesa, logo entrou o bedel, que já sabia do que se tratava, e foi logo perguntando: - Com leite? Com açúcar,  forte, aguado? 
O funcionário tirou uma lista da gaveta e disse:
- Olhem, na ultima inspeção que fizemos na escola, encontramos os seguintes problemas:
a -    Os sanitários sujos, fétidos e sem luz;
b -    Não há uma bandeira brasileira, nem na sala da Diretoria. Vi uma bandeira azul com uma estrela, deve ser da escola, eu entendo;
c -     O professor estrangeiro não fez, até o momento, o devido reconhecimento do seu certificado pedagógico;
d -    A pior de todas as faltas é que, não consta Educação Física, no currículo escolar, sequer uma hora por mês, quando o Ministério exige meia hora, duas ou três vezes por semana, e com um instrutor credenciado.

Os Delegados judeus empalideceram. O funcionário tinha toda a razão. Ainda bem que não examinaram as condições de higiene da cantina de dona Rosa (que, pouco tempo depois, fechou de vez).
Não sei dizer se, por questões econômicas, ou outras ainda piores, a meninada aprendeu a trazer lanches de casa e não comprava mais os apetitosos sanduíches de pão francês com manteiga e queijo do Reino, ou de Mortadela com mostarda, sempre acompanhados com um pepino ou pimentão em conserva, também produtos caseiros de dona Rosa (eu nunca os comi, mas me lembro deles nos potes de vidro tomando sol no balcão de cantina, então a do pimentão vermelho tenho gravado até hoje no meu velho cerebelo).
Talvez a cantina tenha fechado, mesmo, por questão de higiene, pois, à noite, se transformava em um "clube noturno" de baratas e ratazanas, que só não comiam as paredes porque eram de metal. 
Não adiantaram todos os intentos do senhor Salomão, o marido de Dona Rosa, com dezenas de ratoeiras, venenos por todas as partes, e papel "pega - pega" para baratas e moscas. Acabavam com uns, vinham outros ainda mais famintos.
O Recife estava impregnado desses males que, viviam em harmonia perfeita com o ser humano, ainda dos tempos coloniais portugueses, jamais exímios zeladores de higiene pessoal ou geral.
Ademais, em toda a escola, não tinha sequer um filtro de água potável para os alunos. Ninguém pensou nisso antes, parecia não ter importância, e os banheiros estavam em condições horríveis, para o uso diário.
- Ai, meu Deus, ainda "saímos bem barato" dessa inspeção, se fosse mais profunda, estaríamos "lascados", cochicharam os dois Delegados judeus.
     - Poderemos, rapidamente, resolver tudo isso da melhor maneira e o mais rápido possível. Na próxima inspeção, o doutor Celestino não encontrará coisa alguma para se queixarPode acreditar Doutor, tem a nossa palavra!
     Não sei se é verdade, porem dizem que ouviram o gentil funcionário sibilar entre uma baforada e outra:

      - Era só o que me faltava, acreditar, agora, na palavra de judeus, mais esta.

Fim da parte um de três.
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O MEU AMIGO DUDA (parte 2 de 3)



A meninada no primário da escola iídiche do Recife.
Foto Google Internet

O MEU AMIGO DUDA    (parte 2 de 3)

Paulo Lisker
Israel

Os Delegados da diretoria da escola israelita despediram-se "amigavelmente", prometendo solucionar ainda este mês tudo que foi questionado pelo alto funcionário, o licenciado Dr. Celestino e da melhor maneira possível.

O problema mais difícil era o instrutor de Educação Física, para as aulas de ginástica. Então, antes de sair, Senhor Benjamim perguntou ao "gentil funcionário" onde poderia contratar um instrutor credenciado.
- O senhor leve este endereço. É um compadre meu, de nome Sargento Barreto. Ele terá o maior prazer de vos ajudar a resolver o problema, pois ele mesmo foi instrutor de Educação Física da Policia Militar e, agora, está na reserva.
Para encurtar a estória, os problemas foram sendo resolvidos uns após outros.

O PRIMEIRO - A limpeza dos sanitários foi resolvida depois de uma séria conversa com o senhor Manuel, que era o vigia e fazia a manutenção do prédio, cuidava da limpeza das salas de aula, e administrava as necessidades de material de ensino, dos alunos e professoras.
Ele vivia com a família em um barracão, no quintal da escola.  Ficou resolvido que colocaria uma de suas filhas, para fazer a faxina e limpeza dos banheiros, diariamente, antes e depois das aulas. Claro, mediante um pagamento mensal pontual, caso o serviço estivesse no nível desejado.
Ademais, quando alugassem o salão do prédio para festas, no primeiro andar (casamentos, em geral) cobrariam vinte contos de réis, como pagamento pelo uso dos banheiros.
Como não havia como gelar as bebidas, colocavam centenas de garrafas nos tanques dos chuveiros, dezenas de barras de gelo, pó de serra, para conservar o frio, até começar a distribuição das bebidas, horas mais tarde.
A consequência era uma sujeira enorme.
No chão, ficavam espalhadas milhares de tampas de garrafas (nós, os meninos, as chamávamos de "fichinhas"), cacos de vidro e, nas paredes, a sujeira era uma verdadeira pintura abstrata. Tal era a bagunça que não se podia usar o banheiro para qual era destinado. Quem necessitava, urinava no quintal, junto a uma arvore. 
Agora, com a presença da filha mais velha de senhor Manuel, e com o reforço do negro Capitulino, contratado especialmente para isso, durante toda a duração da festa, as coisas seriam outras.
Eles prestariam serviços aos usuários dos banheiros, pendurariam papel de jornal no gancho destinado para tal (papel higiênico não existia no Recife na época e quando era necessário mesmo era comprado como remédio nas farmácias e olhe lá, nem todas tinham a disposição para o publico em geral). Ademais, a creolina para meter no vaso sanitário, bolinhas de naftalina nos cantos das paredes contra baratas, sabão pra lavar as mãos, Flit contra muriçocas que de noite faziam festa no Recife.
Assim sim, desta forma manteriam sem duvidas o local limpo. E nenhum funcionário anti-semita da prefeitura daria nem "mais um piu" (reclamaria, no jargão da rua).
O problema das muriçocas era por demais grave, haja vista a cidade estar situada em um ambiente aquático, de ilhas, ligadas por pontes, e com um regime de chuvas irregulares. Formavam-se poças de água parada e, então, ali se criavam as larvas dos malditos mosquitos.
A Municipalidade não media esforços para erradicar o mal e mantinha, batalhando, um esquadrão de "Sanitaristas da Higiene". Eles anunciavam o  seu pregão, nas ruas: "A HIGIENE CHEGOU, CHEGOU A HIGIENE! AMARRA O CACHORRO, ONDE TIVER CACHORRO SOLTO, NÃO ENTRO LÁ! ESTÁ AVISADO".
Entravam de casa em casa, fardados com roupa de cor caqui, colocavam na janela uma bandeirinha verde, como para assinalar onde estavam atuando. Com um martelo especial, furavam as latas jogadas no quintal, pulverizavam as poças de água estagnadas e, dessa forma, "protegiam" a população do efeito maléfico causado pelas muriçocas e mosquitos, transmissores de vasta gama de doenças, que colocavam o Recife na lista internacional de cidades mais afetadas do mundo sub desenvolvido. Tanto que se exigia a vacinação para os visitantes e turistas.
Naquele tempo, me desculpem os amigos recifenses, o Recife era formado por uma porção de ilhas rasas dentro de um grande pântano ligado por diversas pontes. Não se precisa dizer mais nada conquanto a salubridade do local. 

Agora, as bebidas geladas para as festas não estariam mais nos banheiros, elas seriam conservadas frias em um barraco no fundo do quintal. 
Assim, funcionou um período bastante longo, até que se construiu, naquele local, uma quadra de voleibol. Esperava-se, agora, que os banheiros brilhassem, com ou sem, as visitas de inspeção do pessoal da Secretaria da Educação. 

O SEGUNDO - A bandeira brasileira, com mastro e tudo, foram compradas com a ajuda do livreiro Baras. Como os judeus não sabiam que a bandeira nacional possuía um tamanho oficial, encomendaram uma que cobria quase toda a parede da Secretaria. Isso exigiu a retirada de fotos de escritores judaicos europeus, tais como, Peretz, Mendele, Kafka, Markish e outros que Stalin (O sol dos povos), mandou executar como anti-bolcheviques.
Agora, ninguém pode mais reclamar que a bandeira brasileira não estava presente na escola. Foram, até, mais adiante e bandeiras brasileiras, de menor tamanho, foram colocadas nos cantos das paredes em todas as salas de aula, até na casa do vigia. Com os judeus é assim, "ou oito ou oitenta", o importante é deixar "o dono da bola" (Patrão), satisfeito.
   
O TERCEIRO - Quanto à legalização dos documentos do professor Halperin, o despachante Sr. Rangel, que prestava serviços dos mais diversos à nossa comunidade, principalmente com os tramites para a naturalização de estrangeiros recém chegados, se encarregou de arranjar toda a documentação, sem grandes problemas.
Neste sentido, foi necessária uma boa soma de dinheiro para "dar propina" a, pelo menos, dez funcionários, em entidades distintas, para que dessem prioridade ao caso e legalizassem a situação.

O QUARTO - Restou resolver o problema da inserção da Educação Física, no currículo escolar, coisa que deu mais trabalho que contratar o próprio instrutor credenciado, o tal sargento Barreto.
Houve muita discussão, entre as professoras, ninguém queria abrir mão de suas horas para aquela disciplina que, parecia não ter importância para o corpo docente. No final, pelo eminente perigo de que a escola fosse interditada e fechada, deu tudo certo.

Depois que acertaram todos os termos do contrato de trabalho, com datas marcadas, as sete e trinta, em ponto, apareceu o novo herói na escola, o sargento Barreto. Farda completa e, até, com perneiras.
Eu tinha impressão de tê-lo visto, diversas vezes, nos sinais de trânsito que, na época, eram manuais. 
As sinaleiras estavam situadas nas esquinas das Ruas Imperatriz, Hospício, e Velha, defronte da igreja da Matriz, junto à Praça Maciel Pinheiro.
Naquela época, já era uma grande conquista para o desenvolvimento motorizado da cidade.
O sargento não era mais um inspetor de trânsito, fazendo palhaçadas no meio das ruas, orientando, com os braços, o movimento dos carros. Aí estava a tecnologia, a serviço dos usuários motorizados, sim senhor!

     Finalmente, os quatro problemas questionados pela Secretaria da        Educação foram resolvidos conforme o prometido.
     Então se pode ou não confiar na palavra dos judeus?
Como se diz em hebraico: "Quando Deus quer, até uma vassoura dá tiros"!
Toda essa revolução mudou as feições da escola primaria israelita.
Vocês não podem imaginar o que o sargento Barreto praticava na escola! Isto alentava o nosso orgulho!
Foi o melhor remédio para eliminar o nosso complexo de inferioridade, no tocante às demais escolas.
Logo de manhã, nos dias de Educação Física, formávamos fileiras tão retas quanto uma régua. E, o sargento Barreto, queria mais e melhor.
Ele esbravejava: - de vocês, eu exijo mais! Vamos gente, cabeça erguida, olhem para Meira ou Júlio "magro", assim eu quero todos vocês. Sentido é nem piscar, nem se coçar, nem respirar, sentido é sentido! Espichados, tesos que nem um pé de coco de praia! Estufa o peito, Abrãozinho, vê Nequinho, ou Miriam! Assim, sim, já se pode ver sensíveis melhoras!

E a gente se esforçava para fatisfazê-lo. Queríamos que a aula dele não terminasse, de tanto que gostávamos.
No enorme pátio, debaixo das mangueiras, que ninguém sabe a idade ou quem as plantou, olhava boquiaberta dona Rosa, da cantina, o corpo docente e, o vigia, Sr. Manuel, com a sineta na mão, para anunciar à volta às classes, depois da ginástica.
Os professores estavam orgulhosos com o nosso empenho.
Começávamos com ginástica sueca, depois corrida curta, joga de passes com uma bola pesada num circulo, finalmente, como recrutas, aprendíamos as posições de sentido, meia volta volver, alto, marche, e marque passo.
Que beleza! A juventude judaica praticando ginástica, marchando como soldados, depois de 2000 anos de perseguições! Estávamos tão orgulhosos que, nos sentíamos no "sétimo céu"!
Quem sabe, agora seria forjado no colégio Iídiche do Recife, sob o comando do intrépido sargento Barreto, uma nova geração de jovens judeus, atletas, e, não só, estudiosos de torsos curvados, devido à enorme carga emocional e histórica que carregava, por herança, essas pessoas perseguidas durante dois milênios?
O sargento Barreto se tornou um personagem querido e admirado por todos.
Até nossos pais, ao escutar em casa tantas estórias sobre a ginástica e sobre o nosso querido instrutor, queriam conhecê-lo e, alguns, vinham pelas manhãs, antes de sair para o trabalho de prestamistas, nos arrabaldes da cidade.
Juntavam-se ao corpo docente que ficava admirado, observando o que o sargento Barreto conseguia tirar de nós, alunos meio desengonçado, saltando altura, correndo, fazendo ginástica sueca com calção e camiseta de meia.
Falava-se até em formar, no futuro, um time de futebol juvenil e, para isso, o sargento contava que tinha a intenção de pedir a ajuda técnica de seus amigos, Zezinho Bushatsky, legendário goleiro do Sport, do Guaberinha ou do Tará (Viana), esses dois do Santa Cruz Futebol Clube e, o último, também da Policia Militar.
Entretanto para nos proporcionar uma maior segurança, caso os moleques da rua nos atacassem, o sargento ensinou uma série de princípios de defesa pessoal. Era uma mistura de vários métodos, entre japoneses e europeus. E, o sargento estava causando uma verdadeira revolução, em nossa juventude.
Agora, a historia da escola se dividia em duas etapa: antes e, depois, do sargento Barreto.
Todos estavam deveras satisfeitos! De tão satisfeita, a Diretoria deu-lhe um aumento de 25%, ao mês.
O comitê dos pais, a cada três meses, trazia um pacotão de roupas usadas, para a sua esposa e as seis crianças, que viviam em condições difíceis, em uma casa modesta, no Jiquiá.
Depois de seis meses, já treinados e conhecedores das ordens de marchar corretamente, o sargento Barreto se aventurou a nos colocar para desfilar na rua.

Meninos judeus, sem complexo de inferioridade, marchando pelas ruas do Recife, sob o comando do querido sargento Barreto! Um sonho que virou realidade, antes mesmo do Messias voltar ao mundo, conforme prometem as Santas Escrituras.

Fim da segunda parte de três.
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