domingo, 4 de agosto de 2013

O SENHOR SADIGURSKY- (Parte 4)

2011


O senhor Sadigursky - Parte 4

      Foto do homenageado no Bar Mitzva, ao ler a TORAH, no fundo o Senhor Sadigursky o seu mestre.

Os pregões que me lembro do Recife "matuto".
Paulo Lisker, de Israel

Segunda aquarela do Recife. Parte 4

O SENHOR SADIGURSKY
(O nome deriva da cidade Sadigora* no Leste Europeu, possivelmente Ucrânia)

"SADIGURSKY", o mascate judeu e outras coisas.

Para a comunidade judaica do Recife, a Praça Maciel Pinheiro no principio do século passado era mais que o mundo, era a Via Láctea e ainda mais. Lá, tudo começava e terminava. Negócios, namoros, brincadeiras dos meninos, compras de móveis na loja dos Fainbaum e miudezas na lojinha do venerável senhor Avrum Shyie. Lugar dos encontros entre patrícios para transmitir ou receber informações, ouvir boatos e fuxicar.
Os judeus moravam nos sobrados coloniais, e eram donos de algumas lojas nos dois lados da praça.
Lá se encontrava o correio, carros de aluguel (assim se chamavam os táxis, naquele tempo), açougue, banca do jogo do bicho, secos e molhados, farmácias, padaria e bilhetes de loteria, na esquina da Rua do Hospício.
Nesta mesma esquina, sentado num tamborete, o vendedor das maçãs Rio Negro da Argentina e uvas do Portugal embaladas em pó de serra fininho para evitar machucar a fruta. Horas antes, estas frutas foram descartadas das lojas grã finas da Rua Nova, pois não conseguiam mais vendê-las pelo mau estado de conservação. Nesta situação precária vinham parar na praça para "matar" as saudades destes europeus imigrantes pobres do velho mundo. Quantas vezes meu pai, não trouxe destas frutas para casa. As maçãs tinham a consistência de batatas cozidas e as uvas eram mais pó de serra do que frutas inteiras. Uma merda.
Mas saudade não tem preço e nem qualidade, ficou o cheirinho das terras temperadas do hemisfério norte, então já está bem paga!
A banca do jornaleiro com jornais locais, revistas do Rio e a famosa revista juvenil, "O Gibi', o xodó das crianças!
Sobre esta revista "educacional" (estou falando sério) já tenho o texto pronto para uma próxima crônica.
A praça era o local ideal para descansar nos bancos incômodos de tiras de metal depois de um dia puxado de trabalho cobrando prestação nos arrabaldes.
Tomar (no sentido de beber) uma água soda na portinha do seu Vasserman e logo depois soltar um arroto forte era quase que obrigatório.
Estava lá o poste de parada do bonde para pegar quando iam ao trabalho pelas manhãs e descer na volta ao anoitecer.
Atividades dos "shidechmachers" (casamenteiros).
Era lá que surgiam os compromissos (tnoim, em iídiche) antes do noivado, combinavam sobre o enxoval (qual lado dá e quanto). Nem sempre, porem alguns desses compromissos se fazia em público com todo mundo "piruando" (dando voto).
Desta praça saíam os casamentos entre as famílias judaicas, se discutia política e até as desavenças entre famílias eram julgadas pelos mais idosos e bem conceituados senhores da comunidade. Era um tipo de tribunal popular presidido por um ancião no posto de juiz (a shoifet).
Esta atividade chamada de "a sud" era por um lado tentar fazer as pazes entre as famílias em conflito ou dar o veredicto numa questão financeira ou de qualquer outra espécie em conflito entre os judeus.
Tudo, mas tudo mesmo estava presente nesta praça que era o universo judaico do Recife.
Os judeus presentes na praça ficavam deveras irritados como o dobrar dos sinos por qualquer coisa na igreja da Matriz. Eles não entendiam o significado de tanto repicar e durante todas as horas do dia.
Este povo supersticioso sempre imaginava que estas badaladas poderiam significar maus agouros no horizonte próximo e ficavam nervosos. "Vus haken in tshainik di galuchem"? Que "enchem o saco" estes clérigos a cada minuto repicando os sinos? Diziam.
Mas com o tempo se acostumaram e até tinham boas relações com o sacristão e os padres que lá serviam ao filho de Deus, o Nazareno.
Esta praça era um verdadeiro microcosmos da cidade do Recife e ali, para os judeus tudo começava e terminava.
Shmerl o recém chegado da Europa (der griner, em iídiche), irmão gêmeo do senhor Sadigursky ficava na porta do pé de escada "olhando à toa este mundão".
Ele só falava o iídiche, não fez grandes amizades com a sociedade local e vivia da filantropia ONG "Relief".
Recebia uma pequena ajuda financeira como todos os judeus que abordavam o porto do Recife depois da guerra, para ficar na cidade. Assim crescia a comunidade judaica local.
Dezenas de famílias abordaram o porto do Recife, ficaram por aqui, se arrumaram, trabalhavam pra "chuchu", em geral vendendo a prestação nos subúrbios.
Com o passar dos anos e muito suor e lagrimas, transformaram-se em famílias de posse, produtivas e altamente conceituadas na sociedade israelita.
Causavam até inveja na população cristã que não entendia o "mecanismo judaico" que possibilitava num período tão curto de tempo já ter casa própria, montavam loja, os filhos estudando nos melhores colégios e todos os anos tomavam férias de veraneio em Garanhuns ou em Triunfo. Como pode? Que diabo tem esse "mecanismo", pra funcionar tão bem!
Difícil de entender, mas que ele funcionava, estava na cara. Era um fato!
A segunda e terceira geração de judeus destes imigrantes que chegaram sem um vintém já está hoje totalmente integrada na sociedade brasileira recifense.
É só abrir as paginas sociais dos jornais da cidade para comprovar quantos nomes judaicos estão em relevância em todos os campos socioeconômicos, artes, médicos, engenheiros, universitários, em geral no ápice da pirâmide social urbana.
Mas no "tempo da onça" (no principio do século passado) ninguém, nunca se interessou pela comunidade israelita, ela vivia na sombra e para si mesma, trabalhando pesado para sobreviver.
O veterano Iossele Sadigursky era conhecidíssimo na comunidade israelita do Recife e não podia ser para menos, pois era um "pau pra toda obra".
Onde necessitavam de um diletante para qualquer trabalho, ele estava sempre pronto a servir.
Era convidado para as festas de casamento das famílias judaicas e entre outras era maestro "reserva" da banda de música contratada para tais eventos. Tempo bom. Casamento com banda de música ao vivo e não disk-jóquei como hoje.
Sempre que recebia o senhor Sadigursky a regência da banda, levava as suas "partituras kleizmer e Freilach".
Para quem não sabe o que é a música "kleizmer ou o Freilach" elas são originárias das pequenas aldeias do leste europeu onde a maioria da população no passado era judia até que a "fera" nazista a dizimou por completo.
Para estes eventos ele ia sempre com a melhor das roupas. Não tinha problema de escolha, pois possuía um só terno que se encontrava trancado num baú envolto numa "tonelada de bolinhas" de naftalina para evitar traças e outros insetos nocivos ao tecido, que no Recife eram uma praga.
Não precisamos acrescentar nada sobre o cheiro deste terno ao vesti-lo. O cheiro penetrante e chato das bolinhas de naftalina se sentia a quilômetros.
Quando ingressava alguém no salão de festas da Sociedade Israelita na Rua da Glória, e o pessoal convidado sentia a fedentina, sabiam que estava chegando mais um judeu que possui um só terno "de gala".
Mas este fenômeno não era só com o terno do senhor Sadigursky, esta "fedentina" era comum com quase todos os ternos dos pais de família quando vestiam o único que possuíam.
Eu que o diga, pois até o único terno de meu pai (se não me engano era de Brim Borracha), que dele eu arrancava uns lindos botões para o meu time do "jogo de botões", fedia a naftalina de dar dor de cabeça.
Perguntariam vocês se eu não tinha medo do meu pai quando descobrisse que lhe faltava os botões no paletó, justo uma hora antes de ir a um casamento ou noivado de algum parente ou mesmo dum conhecido, né verdade?
Aí está o macete minha gente, "mamzerut" (esperteza, astucia, sacanagem judaica), me explico:
Como este terno só era usado em ocasiões muito especiais, melhor dizer, raramente, então até que descobrisse o "estrago", levaria muito tempo.
Como se diz em iídiche: "A mul in Pirem", ou seja, na língua de gente: "uma vez por ano, no Carnaval", então aí vinha o "esporro" que era de matar.
O pior dos castigos entre outros, era de não ir durante um mês com os amigos ver o seriado de Flash Gordon toda quinta feira no "Polipulga", como nós os moleques chamávamos o Cinema Politeama, na Rua Barão de São Borja. Castigo foda danado da peste. Não adiantava nada, nem choro nem vela! Era um mês em casa de castigo escutando dos amigos nas sextas, as presepadas do tal Flash Gordon em Marte ou no Reino do Fundo do Mar.
Aqui entre nós, os botões do paletó do meu pai valiam à pena este castigo.
Porem, até que este "desastre" acontecesse, estes botões grandes e bonitos, já tinham até nomes escritos neles com tinta Nanquim.
Se não me falha a memória, estes dois últimos, eram Ademir e Pitota.
Quantas vitorias não me deram contra os "times de botões" de Jaime Zimilis, Bernardo Katz, Julio "Magro" Charifker, até Vivi Bogater que era um jogador excelente.
Perdia às vezes contra Senha Ribemboim e Moises Roizman, pois eram jogadores de "botão", classe máster, bons demais.
Quando eu perdia, ficava triste, mas passava.
Eu me julgava bom jogador de "botão", mas não chegava ao nível de Senha e Moises. Este Senha, até técnico tinha, o seu irmão Duda.
Um dia escreveremos algo sobre o famoso "jogo de botões" (Celotex) e os campeonatos que realizávamos no bairro da Boa Vista.
O nosso sonho infantil era realizar no Recife um campeonato mundial de "Celotex" (Jogo de botão).
Era no tempo que computadores não existiam nem nos sonhos. Possivelmente quem está lendo esta crônica "infantil" neste português raso abrasileirado, nem sabe do que estou falando. Jogo de botão? O que é isso? Com certeza está falando grego, não é mesmo minha gente?
Nós meninos, num determinado aspecto não simpatizamos por demais com o mascate senhor Sadigursky.
Quando vinha com sua grande mala vender tudo que era bugigangas e material para a costura domestica, exatamente botão não levava. Só tinha aqueles pequeninos para ceroulas, ai que ódio.
Perguntávamos por que não tinha botões grandes e bonitos pra vender, então ele respondia na sua voz fanhosa:
Vai no loja "A Capa Argentina", du senhor Feildmus, na Rue do Matriz ô no "Fortunate Russo", ô no Alfaiatarie Itálie, na Rua Mané Borbe, eles tem tude isse de botons pra ternes e pras capas. Nun é isse que vucês prucuram? Vai lá e me deixem em paz.
Espero que entenderam a fala "abrasileirada de galegos" dos judeus do Recife e senão, não faz mal, nada perderam!
Deixemos as saudades da minha infância e voltemos a "vaca fria".
Senhor Sadigursky quando requisitado para alguma faina nalguma festa da Sociedade Israelita, ia sempre com o seu único terno, engravatado com aquelas do tipo borboleta e de sandálias com solado de pneus Firestone, compradas no mercado São José, dizia ele que eram baratas e muito confortáveis.
Eu concordo plenamente, pois durante quase toda minha vida de garoto no Recife eu também as usava e enaltecia perante meus amigos, os filhos de judeus "novos-ricos" que só usavam sapatos de "fresco", adquiridos a vista, na Casa Clark na Rua Nova. Caros pra danado, mas com "cara de fresco", eu nunca botei o pé ali, vige ta vendo né, sai pra lá!

Fim da Parte 4 da segunda "Aquarela judaica do Recife", "O SENHOR SADIGURSKY, mascate e um pau pra toda obra, 04/11/2011.
(Todos os direitos reservados por lei)
Na próxima semana se Deus quiser, a continuação desta "aquarela judaica do Recife".
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O SENHOR SADIGURSKY (Parte 5, final)


O senhor Sadigursky - Parte 5 (final)


               Foto do homenagiado no dia do seu " Bar Mitzva" ( Festa dos 13 anos de idade)
Os pregões que me lembro do Recife "matuto"
Paulo Lisker, de Israel

Segunda aquarela judaica  do Recife. Parte 5 (final)
 "SADIGURSKY"

(O nome provavelmente deriva da cidade Sadigora (1) no Leste Europeu, possivelmente Ucrânia)

"
SADIGURSKY", o mascate judeu e outras coisas.

Lá para as tantas, a festa do casamento estava muito animada, todos os convidados dançavam em roda a "Hoira" (2) e pulavam alegres com as músicas "kleizmer"(3) e "Freilach" (4) dirigidas pelo "maestro" Sadigursky, ele e os músicos suavam aos cântaros, não havia ar condicionado, nem ventiladores, só a brisa e que nem sempre soprava pelas janelas abertas do salão, puta de um calor arretado. Aí davam o merecido descanso aos músicos. Nesta oportunidade era servida uma lauta janta para os convidados e também para os músicos da banda.
O maestro Capiba (5) tomava o seu conhaque e olhava com carinho o "maestro reserva" ao terminar a sua atuação com música judaica. Daí por adiante a Jazz Band Acadêmica vai ter um maestro de verdade, o muito estimado e conceituado pela colônia israelita do Recife, o maestro Capiba.
Agora seria música para dançar agarrados e a meia luz que antecipava a celebre "dança dos noivos" com a clássica valsa especial para este evento.
Logo em seguida o rabino casaria os jovens noivos debaixo da "Hupá (6), como manda o costume judaico, dizem uma prece com o vinho tinto, o noivo descobre o véu do rosto da sua futura esposa, e provam do vinho que lhes é servido pelo rabino num cálice de prata.
O rabino lê em voz alta para que todos os convidados escutem o resto das preces para tal evento e logo a seguir o "protocolo" (há Ktubá), que está escrito a mão pelo rabino num pergaminho. Lá estão às condições acordadas pelo jovem casal e suas respectivas famílias para este matrimônio. A soma em dinheiro para indenização que deverá ser paga caso haja separação ou divórcio.
Antes mesmo de finalizar este costume tradicional, o noivo quebra um copo com a planta do pé em lembrança a destruição do templo em Jerusalém, dizendo as palavras:
"Que Deus me castigue paralisado a minha mão direita e secando a minha língua, caso me esquecer de ti priorizar nos meus pensamentos, oh Jerusalém".
Em hebraico: "Im eshkachech Yerushaluaim, ishachach iemini. Im lo ihaléh Ierushalaim al rosh simchati, tebak leshoni le leichi".
Todos juntos numa só voz respondem: Ámen!
Se a ordem da cerimonia religiosa, não era exatamente assim, me desculpem pois era eu muito criança na época. 
O Senhor Sadigursky há esta hora já tinha comido pela segunda vez.
Claro, porque não aproveitar esta "imensidão de comidas judaicas super gostosas" que estava à disposição para qualquer convidado e claro que também para ele que estava de "barriga vazia". Uma fome danada desde ontem, agora era só estender a mão e pegar do bom e do melhor, então por que não? Pergunta tola!
Era nesta hora que ele se vingava dos patrícios "novos ricos", a família Begleibter (do lado do noivo) e a família Zingorevich (do lado da noiva).
Agora ele iria explorar ao maximo o bufê e mostrar "por onde mija o peixe" (fun vanet pisht a fish, em iídiche).
Ia de mesa em mesa arrumando, servindo algo que faltava e murmurava com seus botões do paletó preto lustroso e fedendo a naftalina.
"Estes mesquinhos pagam uma miséria pelo meu trabalho de "maestro reserva", ajudante de garçom e responsável pelo gelo nas bacias das bebidas frias, uma bagatela de três contos de réis, que vergonha!
Por um lado satisfeito pela boa sorte de ter grátis ótima comida a sua inteira disposição e igualmente abusado pelo azar de ser mal pago pelo trabalho puxado durante horas. Dialética da vida.
Arrastando os pés ia de mesa em mesa servindo numa bandeja cheia de "knishes" (pastel recheado com puré de batatas, cebola frita e condimentos diversos), andava e murmurava:
Podiam pagar bem melhor, quem eles pensam que é Sadigursky, um "pusheter leidigueir" (um vagabundo qualquer)?
Cheguei aqui ao meio dia para preparar o salão, trabalho a noite toda, sem tempo nem pra respirar, não se envergonham? Esqueceram seu passado.
O que são três contos de réis hoje, nada, uma esmola, mesquinhos de merda!
A diferença vou tirar na comida, "Fressn azoi vi a belguisher ferd" (devorar feito um cavalo belga faminto). "Hamehaie" (será um alento até para minha alma). Maneira de se expressar em iídiche quando um está arretado da vida.
Todo tempo estava em movimento e não parava um minuto sequer. Agora vinha correndo ao seu encontro "Elék chop-chop" outra figura fora de serie, o único garçom judeu profissional de bares de segunda, junto a Ponte Velha, esta noite foi recrutado para o casamento.
Fazia malabarismo, trazia seis garrafas de cerveja bem geladas entre os dedos, para satisfazer o pedido da mesa numero 36 da família de "Galo de Raça", apelido dado pelos zombeteiros da colônia judaica ao chefe desta família.
Aqui entre nós, quase que não existia um judeu nesta comunidade sem apelido, tanto homens como mulheres.
Eu mesmo juntei de memória pelo menos 200 apelidos, mas isto não é tema para publicar atualmente em blog.
Quem sabe com uma ou duas gerações mais, alguém com dom literário maior que o meu, escreverá alguma sátira que tenha a ver com este assunto interessante.
De apelido, ninguém escapava. 
Com a boca ainda cheia, mastigando os "varenikes", os "kreplach" ou os "knishes" (Comida tipo pastel do cardápio judaico) servido em bandejas por outros garçons, saiu de mansinho senhor Sadigursky do salão da Sociedade Israelita na Rua da Glória e ia rapidinho de volta ao "pé de escada" na Praça Maciél Pinheiro.
Trocava de roupa com seu irmão gêmeo e o mandava de volta em seu lugar para a festa (Onde cabem dois cabem três também).
"Vai rápido mano, ainda chegarás a tempo de deliciar uma apetitosa refeição, muito chope de barril, fino conhaque, tudo de primeira. Ninguém vai notar, pode estar certo"!
Todo mundo está com a cabeça e os olhos voltados aos lautos pratos servidos cheios de comida e se alguém quer mais é só pedir e logo vem. Muita comida mesmo!
"Guei shnel, azoi vi a vint" (em iídiche: Vai rápido feito o vento).
Tem tudo do bom e do melhor, é o casamento dos Begleibter com os Zingorevich da Bahia, gente de posse, mas mesquinhos pra pagar pelo meu trabalho. Na festa não falta nada, tem de tudo à vontade e do melhor, repisava. Só a minha propina uma grande merda (em iídiche: a groisser drek).
Quando tu chegar lá, logo na entrada tu pegas um par de "varenikes e de knishes", obra culinária conhecida de dona Shprintze, cochas tenras de peruas, Fígado a carreteiro (Guehakte leiber) de dona Luiza a "gordona" do Beco da Mangueira, campot e o famoso fludn (enrolado recheado com frutas secas nozes e castanhas) de dona Rostolder, uma delicia. Conhecido em todo o Recife e até em Salvador da Bahia.
Na primeira oportunidade pega umas maçãs "Rio Negro" da Argentina e trás pra casa, elas são gostosas e boas para "prisão de ventre" quando o "Leite de Magnésia" não faz efeito. Vai, vai mano, te apressa.
Apressava-se o irmão gêmeo e quando dava seus primeiros passos na rua se volta e pergunta:
Como estou mano, a coisa funcionará?
Vai, responde senhor Sadigursky.
Sempre funcionou por que exatamente hoje que tem comida e bebida de primeira não funcionará! Estás prontinho?
Não mano, esqueci o chapéu!
Olha rapaz se tu vais nessa moleza não irás comer nada, deixa pra lá aquele chapéu machucado e sujo, ele só presta pra pedir esmola e não para ir a casamento de gran finos.
Não esquece a dentadura postiça, viu!
Ai é verdade, onde estava a minha cabeça.
Não é a cabeça que não tens no lugar certo Shmil e sim a dentadura. Sem ela estás "lascado" e voltarás faminto.
Toma, coloca a "nossa dentadura" na tua boca agora e vai correndo para o salão.
Caminhando, colocando a dentadura na boca, que minutos antes mastigava as boas comidas na boca do seu irmão gêmeo, murmura em voz alta:
Parece que esta festa tá muito boa e sortida, tem arenque importado e do bom ou será caviar persa? O gosto grudou na dentadura e ainda se faz sentir. "A mulé taam", (um gosto celestial).
Já se afastando, ainda escuta o seu irmão gêmeo dar-lhe as ultimas instruções:
- Mano, não te esquece de trazer de volta as minhas partituras, (di notn, em iídiche) que deixei com o maestro Capiba quando saí apressado as escondidas, estas ouvindo?
Se ele perguntar alguma coisa, diz que agora ele tome a batuta da banda com as músicas dele e que tu vais beber, descansar e conversar com os pais da noiva.
Fica até o fim da festa, ajuda a arrumar o salão, aproveita e traz uns potezinhos de azeitonas gregas da Helvética, pepinos e pimentões encarnados em conserva com vinagre e alho feito por dona Rosa Litvin da venda na Rua da Matriz. São deliciosos, tudo isto está em cima das mesas e sobrou da grande "comilança dos famintos" esta noite.
Se tu não recolhes e trás pra nós, irá tudo para o lixo. Escutaste mano? Uma pena.
Antes que me esqueça, escuta bem, eu vou dormir. Quando chegares de volta na madrugada não te esqueças de tirar a dentadura postiça e colocar num caneco cheio cachaça, para desinfetar, está no banheiro junto do espelho. Amanhã logo cedinho preciso dela sem falta. Tenho que ir a sinagoga do Beco do Camarão para o Bar- Mitzvá (7) de Rubinho. Ele foi meu aluno nestes 3 últimos meses de preparação para este importante evento.
Estás ouvindo, "guei shoin" (vai rápido, desaparece) "guei in sholem" (caminha em Paz, em iídiche).

Estimados leitores vocês estão meio atônitos?
Agora entenderam quão semelhantes eram estes gêmeos, até a dentadura postiça, usavam em comum.
Ninguém no salão do casamento deu fé que o Sadigursky verdadeiro já estava dormindo há muito tempo.
Agora entre os convidados "rodava" (circulava na língua de gente) no seu lugar, o irmão gêmeo Shmerl.
Eita peste de parecidos, Ta até demais, usando a mesma dentadura postiça é mesmo para estourar de gargalhar. (em iídiche: Zei nitsn di zelbe falshe tzein, me ken platzn fin a guelechter).
Papel carbono, a cara dum o c..... do outro.
"Cuspido e escarrado", como diziam na gíria da rua.
Os dois irmãos realizavam quando lhes davam a oportunidade "a mamzerut judaica" que os deixava de barriga cheia com o bom e o melhor.
Era mais uma noite de sono sossegado, sem roncaria do nariz fanhoso e da barriga vazia.
Meu desejo é que estes judeus novos-ricos tenham se Deus quiser muitos anos de vida e muitos filhos pra noivar e casar. Só assim os irmãos Sadigursky "tirarão a barriga da miséria".
Da inteligência e a perspicácia destes irmãos gêmeos um dia alguém escreverá um livro com muitas páginas e que interessará a meio mundo.

Uma comunidade que tem gente como os irmãos Sadigursky,
viverá eternamente num clima de alegria, humor, e satisfação.
Terão estórias para contar a seus netos e bisnetos.
Isto, sempre que nesta comunidade existam cronistas que registrem os acontecimentos em tempo útil e não como estamos fazendo agora, 60 -70 anos depois do acontecido.
Por isso mesmo, hoje muita gente dúvida que isto tenha acontecido e considera toda essa "estória comprida" que relatamos nesses 5 capítulos, uma "lenda urbana" e que jamais existiu! Será?
A pobreza em que vivia a maioria da comunidade israelita no principio do século passado no Recife, forjava indivíduos com uma enorme força de vontade e imaginação para vencer e construir pra si e a sua família, um mundo melhor no Brasil.
Este povo criava na vida calma do Brasil, condições que permitiam situações sarcásticas, satíricas e estórias "para o boi dormir", rindo de si mesmo e deste povo errante hoje e eterno pela proteção divina.
Mangando (rindo), sobreviveram todas as situações caóticas criadas pela bestialidade humana.
As próximas gerações deverão se cuidar para não se assimilar muito rapidamente e se tornar 100% "goim" brasileiros.
Caso isso aconteça, perderiam a "mamzerut" (humor sarcástico judaico), seria uma pena.
Esta "mamzerut" permitiu a este povo conservar o bom humor durante os dois mil anos da diáspora.
Então gente, cuidado, muito cuidado com a assimilação.
Pensando bem, o brasileiro nato não fica muito para atrás, ele também é muito brincalhão, cheio de "macetes e quebra galhos" de uma criatividade ímpar e de atitudes inesperadas.
Quem sabe não é herança do sangue judeu que veio com os Cristãos Novos (8), nos veleiros de Cabral.
Este talvez tenha sido o motivo principal da boa integração dos judeus no Brasil.

Desculpem-me, agora já estou especulando.
Acho que ninguém mais que os irmãos Sadigursky, de bendita memória, merecem a honra de estar hoje com toda razão em companhia dos Patriarcas Moisés, Abraão, Isaac e Jacob lá em cima nos vigiando para que preservemos mesmo na "sombra e água fresca" brasileira, a eternidade deste "povo preferido", como diz a Bíblia. Ámem!

Fim da Parte 5 (final) da segunda "Aquarela judaica do Recife" 
"O SENHOR SADIGURSKY, mascate e um pau pra toda obra". (Recife)
("ZICHRONÓ LE BRACHÁ", em hebraico "DE BENDITA MEMÓRIA" em português).
07-11-2011
Paulo Lisker-Israel
(Todos os direitos reservados por lei)
Na próxima semana se Deus quiser, outra "aquarela judaica do Recife".

GLOSSÁRIO:
1. SADIGORA: uma pequena cidade no leste europeu (Ucrânia) que gerou durante gerações Rabinos famosos e ultras ortodoxos.
2. HOIRA- Dança tipo Ciranda (em roda) originaria do mundo judaico no Leste Europeu.
3. Kleizmer- "muzicant", tocador de um instrumento musical.
4. Freilach- Música executada em estilo saltitante, rápido e alegre que faz mexer com o corpo e alma.
5. Capiba- Lourenço da Fonseca Barbosa. Maestro e compositor. Nascido na cidade pernambucana de Surubim, viveu e compôs no Recife.
6. Hupá- O casamento com todos os requisitos religiosos é realizado debaixo de uma cobertura de pano preso por 4 bastões que as testemunhas do ato seguram.
7. Bar Mitzvá- Comemoração dos 13 anos dos varões judeus, que nesta oportunidade recebem todas as responsabilidades sobre si e seu povo. Podem participar das rezas e dos costumes religiosos da comunidade.
8. Cristãos Novos- Judeus que foram forçados pela Inquisição na Península Ibérica a se converter ao cristianismo. Desde o tempo do descobrimento vieram para o Brasil milhares de pessoas desta fé. Só assim escapavam das garras da famigerada Inquisição.

SENHOR SADIGURSKY- SAUDADES (Minha última conversa con ele)


MEU ÚLTIMO ENCONTRO COM O SENHOR SADIGURSKY

                                A PRAÇA MACIEL PINHEIRO No Recife
                                                        Foto:  coleção de Clóvis Campelo, Recife


                                        Romeu e Julieta no Recife Matuto


                                                                 Foto particular da familia.
Senhor Sadigursky e sua sobrinha Sluva
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SAUDADES



Tema:  SAUDADES

Paulo Lisker, Israel.

Passaram-se uns meses, estava eu sentado na praça com senhor Sadigursky, judeu pobretão, um protótipo muito especial que vivia num quarto no "pé de escada" na praça, encostado da farmácia "Saúde". Ele foi no passado mascate citadino, vendia bugigangas, escrevia musica de "kleizmer" (musica judaica das pequenas aldeias européias), era às vezes também maestro da Banda Acadêmica ou da orquestra da Policia do Derby quando estas eram contratadas para animar casamentos ou outras quaisquer festividades israelitas. Até o famoso Capiba o conhecia e lhe dava as honras merecidas. Ensinava as rezas aos garotos que faziam "Bar Mitzvá" (ao cumprir 13 anos) eram considerados adultos pela religião judaica, com direitos de rezar e ler a "TORÁ, o Velho Testamento". Fazia de tudo, um "pau pra toda obra". Tipo baixinho, gorducho e feio, homem das mil profissões e nem um tostão furado no bolso ou um tostão inteiro no bolso furado! Eu gostava de sentar com ele e conversar sobre qualquer tema, era um tipo versátil. Misturava o iídiche com português, narigudo e fanhoso que às vezes eu pensava que ele ia se asfixiar se continuasse falando. Eu ficava calado, só escutando as experiências da vida dele numa pequena aldeia no leste europeu, me contou que tinha um irmão gêmeo, mas depois da guerra nunca mais soube noticias nem dele, nem dos pais ou de outros membros da família. Possivelmente foram exterminados nos campos de concentração nazistas na Polônia. Num lapso da nossa conversa em que ele tomava fôlego, aproveitei e disse a ele que estava tremendamente frustrado, Pois estava escrevendo uma crônica, relatando o caso amoroso de Xóxa e Dadinho que começou na Praça Maciel Pinheiro e eu tinha toda certeza que também terminaria na praça, como tudo na nossa comunidade israelita naquela época. Até imaginava duas alternativas possíveis: A primeira, seria: UM BAITA FESTÃO DE CASAMENTO. A praça cheia de gente, convidados por parte das duas famílias, o pessoal conhecido da praça, os guardas noturnos da Delegacia do Aragão, a praça totalmente lotada e a paz reinava na terra e no céu. As famílias dos noivos apaziguados, isso era o mais importante. Um coreto todo iluminado com lâmpadas de todas as cores, a "Banda Acadêmica" tocando musicas de Capiba e suas também "maestro" Sadigursky. Baixo tua batuta a banda se transformaria nem que seja numa hora, em "Klezmerim" do leste europeu, tocando musicas judaicas. Muita comida gostosa, bebidas e alegria sem limites. A imaginação não foi tão longe, pois ainda não decidi quem os casaria, se um padre ou um rabino ou os dois juntos, se na Igreja da Matriz com o dobrar dos sinos ou debaixo de uma "Hupá" (costume judaico) junto do secular pé de Jambo do Pará na praça mesmo. Neste aspecto ainda estou em dúvida. Muitos fogos de artifício, o céu todo iluminado com foguetes do ar de todas as cores, a meninada jogando confetes e serpentinas. Um verdadeiro mini carnaval fora da época. A segunda: UMA TRAGEDIA a ESTILO ROMEU E JULIA. Que Deus me livre e guarde senhor Sadigursky, porem imaginei também uma alternativa nesse estilo. Pelos enormes problemas causados pelas famílias de credos distintos, a proibição de ambas as partes para a consumação deste casamento. Xóxa e Dadinho se suicidariam sentados abraçados junto à fonte da índia e os quatro leões, no centro da querida pracinha. Dois enterros cada um de um lado da praça, a praça totalmente cheia de gente chorando, pois os dois personagens envolvidos nesta tragédia eram conhecidíssimos pelos frequentadores e moradores desta Praça no Recife. Um mundo de coroas de flores e flores ao natural acompanhava os dois ataúdes. Um carro fúnebre e a comitiva dos carros acompanhantes partiriam para o cemitério de Santo Amaro e a outra comitiva para o cemitério de judeus no bairro do Barro. Os dois amantes (quando em vida) seguiam destinos diferentes e talvez só no paraíso se encontrassem e desta vez para eternidade. Veja o que na realidade aconteceu senhor Sadigursky. Dadinho, católico, enterrado no Campo Santo em Maceió e na laje dizia nada mais que: DEMOSTENES ABELARDO MONTEIRO (Dadinho o nosso eterno amor) Data de nascimento e falecimento. Já Suzana (Xóxa), judia, ninguém sabe nada dela, Se virou religiosa ortodoxa na Antuérpia? Tem filhos? Quantos? O de Dadinho nasceu? Hoje já deve ser homem feito, será que ele sabe quem foi seu pai? Será que Xóxa ainda vive? Será que voltou alguma vez de visita ao Brasil depois que a casaram com um jovem judeu da Bahia, contra sua vontade? Nada sabemos. Uma odisséia, insolúvel! Veja só senhor Sadigursky, tudo começou com um namoro inocente na nossa querida Praça Maciel Pinheiro e deveria terminar aqui também e a realidade é que Dadinho está enterrado em Maceió e Xóxa vive ou já não vive nas terras frias da Europa. Esta é a minha frustração senhor Sadigursky. O axioma pregava que na colônia judaica tudo que começava na pracinha também nela terminaria. Axioma, senhor sadigursky, axioma! Ele me olhou com os olhos rasos d água e me disse em iídiche: "Bist ha a nar, di Prace Macié Pinheire is di gantze velt". "TOLO, A PRAÇA MACIEL PINHEIRO É O MUNDO TODO". O axioma continua de pé meu jovem, ainda mais o "axioma judeu" que não é limitado nem no tempo nem no espaço, ele é eterno como este povo! Olhei estupefato para este homem simples e humilde e "falei com meus botões": Vejam, vejam, o "Diógenes judeu", um filosofo de pés descalços que vivia entre e nós não sabíamos! De mansinho, lagrimas deslizavam sobre as nossas faces. Bom que a meninada que corria atrás duma banda de Maracatu que ensaiava a bateria e as tubas em volta da pracinha em direção da Rua do Aragão, não deu fé nestes dois adultos sentados num banco, chorando num dia tão bonito na Veneza brasileira, não por dor de dente, mas de nostalgia e saudade! 
FIM DO CASO DE XÓXA E DADINHO NO RECIFE MATUTO.

LATARIA BOIANDO NO TEMPO DA SEGUNDA GRANDE GUERRA.


Lataria boiando


Das Conversas com meu avô. 

  
Tema: LATARIA BOIANDO             
(Guerra na Europa e blecaute no Recife). 

Paulo Lisker, de Israel, em 18/7/2012 

No terraço do nosso casarão na Rua Gervásio Pires, meu avô sentado na sua cadeira de balanço esperava a costumeira reunião noturna com seus amigos.
Ele se sentia pelo menos como um rei entre seus súditos, talvez ainda mais que isto.
Gostava muito quando vinham lhe pedir conselhos, opinião antes de fechar negócios, e especialmente o grande respeito que esses velhos amigos lhe dedicavam durante longos anos.
Até as 20 horas todo o grupo de amigos já estava sentado no terraço e se deliciavam com o cheiro intenso das flores do jasmineiro e da enorme trepadeira de camélias com suas flores brancas que exalavam um cheiro doce de mel de abelha recentemente retirado da colméia, era mesmo de embriagar qualquer mortal.
Esta noite ele achou de relatar um aspecto pouco conhecido pelo grupo, resultante da carnificina provocada pela segunda guerra mundial e só a dialética poderia dar uma resposta para este bárbaro crime contra a humanidade.
Guerra, não tem lógica dizia ele, não tem lógica!
Nunca há nada unilateral dizia, sempre existem dois lados em toda questão e por isso mesmo entra em ação a dialética.
Nestas batalhas navais no nosso litoral, surgiu um fenômeno que exatamente traduz esta teoria.
Os amigos já de idade avançada não eram grandes entendidos nestas "filosofias", porem sabiam que se é seu Joseph quem diz, deve ser coisas muito importantes e que vale a pena prestar toda atenção.
O silencio era tal que podia se ouvir o "piscar dos olhos esbugalhados" da roda dos "bebedores de chá com bolachas".
Meu avô tirou uma pitada da sua caixa de rapé, acendeu o seu cigarro preferido, "Regência", se acomodou na cadeira de balanço e começou a contar sobre um assunto que nem os escritores da época colocaram no papel para a posteridade.
Não preciso dizer pra vocês que a guerra é uma "desgraceira medonha", (coisa horrível em escala maior, em nordestino, em iídiche: "ha shreklize zache"), mas tem sempre alguém que ganha dinheiro com a guerra.
Não só os imperialistas safados que em qualquer situação, mais caótica que seja sempre saem com as mãos cheias de mais e mais riquezas.
Tenho um exemplo dos melhores, escutem, pois isto é o que chamo de dialética (ouviu o galo cantar, mas não sabia onde).
Mais uma baforada do seu cigarro Regência e logo continuou a sua estória.
Quando acontece que afundam barcos e nesta guerra muitos tiveram este triste destino o fenômeno do que eu falo se torna realidade.
Por um lado centenas ou talvez milhares de mortes, feridos, inválidos e perdas materiais enormes.
Por outro lado, milhares e milhares de latas de conservas de alimentos que estavam armazenadas nos porões nestes navios, passados uns dias, sobem à tona e ficam boiando mesmo que o barco tenha descido pra mil metros ou mais de profundidade.
As latas sempre acham um caminho para subir a tona flutuando de mansinho sobre a água, ficando à mercê das correntes marinhas até que no final das contas chegam à terra firme, no litoral.
O que estava ainda boiando na água era só colocar na canoa ou na jangada.
Se já tivesse chegado à terra firme, era só apanhar na areia da praia e levar pra casa.
Era tanta lata que chegava que grande parte delas ficavam ao ermo até serem apanhadas por quem por lá por acaso perambulava.
Os pescadores que não são bestas (tolos, na língua da rua) preferiam nesta época, deixar a pesca de lado e dedicar diariamente o seu tempo nesta nova atividade, "catar latas".
Para que perder tempo, arriscando a vida no mar brabo ou cheio de sargaço lançando a rede no mar para tirar peixe desse nosso mar poluído, quando as latas estão aí em quantidade enorme "dando sopa" (em demasia, na língua do povo).
Para quem ainda não "pescou a coisa", (entendeu, na língua do povo), estas latas poderiam ser vendidas ao publico por um preço melhor que o "peixe fresco" que ultimamente era pouco e de má qualidade. A causa disso era a enorme poluição resultado dos combates quase diários nas nossas costas e os dejetos lançados ao mar pelos canos que drenavam os esgotos da cidade no nosso oceano Atlântico.
Dizia o jangadeiro Bebeto Cearense: "Fica mais em conta (rentável) vender latas de conserva apanhadas de graça que ter os problemas com o pescado que se estraga com facilidade neste clima quente e úmido do nordeste".
Deus é brasileiro e nos mandou um montão de latas para ajudar no "ganha pão" de seus pobres fieis.
Em agradecimento pelo milagre, nós vamos todos os domingos participar da missa e escutar o sermão do padre Celestino na capela do Pina.
Desde que chegaram as latas nas nossas praias, a capela está lotada de pescadores e jangadeiros.
Durante todo o período da guerra o fenômeno da lataria boiando era uma realidade do cotidiano.
Com muita razão os jangadeiros faziam delas um amplo mercado e ainda ficavam latas ao ermo nas praias do nordeste pra quem quiser!
Tomando mais uma pitada de rapé perguntava meu avô aos seus amigos: -Então tem ou não tem quem ganha dinheiro com a guerra?
 Neste caso não os imperialistas safados, mas o Zé povinho mesmo. 

Perguntou, mas não para receber resposta.
Na reunião de "bebedores de chá", o senhor Jorge nesta ocasião contou que o senhor Mauricio seu cunhado e genro do "semi Deus", comprava dos pescadores muitas dessas latas de todo os tamanhos, que chegavam boiando até às praias do Recife.
Era o efeito causado pelas batalhas marinhas na segunda grande guerra mundial.
Sr. Mauricio (meu pai) tinha num dos quartos do casarão uma enorme dispensa cheia destas latas, que chegavam de oceanos dos mais longínquos, não só do nosso litoral.
Entre nós falando, devo confessar que estas eram gostosissimas (o conteúdo, não as latas, se entende, verdade?).
Porém existia neste "Eldorado da lataria" um problema crucial, só depois de abertas sabíamos o que continham!
Naquele tempo a tecnologia dos invólucros não era tão aperfeiçoada como hoje e os rótulos eram de papel colados nas latas, com a permanência na água do mar, se descolavam, agora vá saber o conteúdo dessas.
Por sorte às vezes ficava algo carimbado com tinta, porem era uma verdadeira "loteria".
Ao abrir, poderia conter leite condensado ou cacau em pó ou simplesmente água potável, geléia de pêssego ou morango, grãos de milho verde cozido em leite desnatado, carne porcina ou bovina, manteiga, conserva de ervilha, feijão branco, enormes azeitonas gregas, óleo comestível de girassol argentino, sabão liquido ou desinfetante para latrinas.
Era uma variedade infinita de produtos, lhes digo mais, que quando eram procedentes dos afundados navios norte americanos, ingleses ou até mesmo alemães, eram ainda melhores.
Pela qualidade do conteúdo podia-se saber a procedência das latas. Para dar uma idéia o conteúdo das latas japonesas era uma porcaria para o nosso gosto. Só nipônico mesmo teria estomago para comer esta "gororoba", mas se já comprou e perdeu dinheiro só restava agora dar aos gatos e cachorros que nem sempre queriam comer depois de farejar.
As latas brasileiras, não eram das melhores, porém davam pra passar. Eram produtos das fabricas Swift e da Armour e talvez de outras que já hoje não existem mais.
Do nosso produto nacional tinha latas de 5 quilos com feijoada pronta com todos os ingredientes, deliciosa.
Postas de bacalhau em coco (super deliciosas), postas de carne de charque em vácuo, pasta de tomate, goiabada cascão, até queijo do "Reino" que vinha numa lata redonda vermelha, (produto de Portugal), dizem que elas chegavam boiando até Miami, tudo dependia das correntes marítimas.
Em geral quase tudo que o "praça" brasileiro ou o marinheiro estrangeiro necessitava para se alimentar quando estava longe de casa estava a sua disposição.
Depois do naufrágio, as latas chegavam de mansinho até as nossas praias.
Quem podia comprava, não era caro e no fim do dia os pescadores vendiam por qualquer preço, pois não queriam ou podiam carregar a mercadoria de volta para os subúrbios onde moravam.
Com o tempo e a "experiência acumulada, corria uma teoria que as latas pequenas não valiam à pena comprar, pois o conteúdo não pagava o preço. As grandes sim, estas sempre tem coisa boa. Errado, errado, errado, como tudo numa guerra!
Não era comum, porem as latas pequenas às vezes eram de comida "chick" destinadas ao fino paladar do comando dos barcos. Nestas latas era comum encontrar comida de primeira, assim como, Caviar persa, (eu só comi esta coisa na guerra e nunca mais). Pathe de Foie francês (patê de fígado), salgadinhos de amendoim, amêndoas, castanha de caju, "frutos do mar" em molho picante de piri-piri português (postas de lagostins e camarão gigante de Moçambique, ostras das Filipinas etc.).
Às vezes chegava também em embalagem diminuta sardinhas portuguesas em azeite de olivas ou concentrado de tomate, eram mesmo de se ficar com água na boca, não é mesmo?
Ao contrário, já nas grandes era comum encontrar material para limpeza, (creolina, cloro, sabão em pó, produtos sanitários em geral), ademais sal grosso, óleo mineral.
Não tinha jeito nenhum segundo o tamanho da lata saber o que ela continha. Noventa e nove por cento delas estavam sem invólucro de espécie alguma. Vá saber o que tem dentro. Impossível.
Meu pai antes de comprar perguntava ao jangadeiro o que continha na lata que queria comprar, este balançava a lata pra cá e pra lá e dizia como se fosse ele mesmo o próprio aparelho de Raios-X: 
-"Esta lata seu Moisés (todo judeu no Recife matuto era conhecido como Moisés), contem leite condensado e grãos de milho verde, pode levar com toda certeza e bom apetite, amanhã me conte quando passar por aqui". 
Em casa ao abrir na hora da janta, então vinha à decepção. A lata continha centenas de pílulas contra malaria ou conserva de pepinos azedos ou compota de pêssegos, era dificílimo acertar em cheio, já estávamos conscientes disso.
Judeu é cheio de compreensão com o sofrimento alheio (está nos genes deste povo pelo o que ele mesmo absorveu durante sua existência como coletivo), então minha mãe vivia dizendo: "O que vem das desgraças de uns não necessariamente deverá trazer bonança para outrem". 
Tens razão mãezinha querida, é assim mesmo ao pé da letra!
Quando estas comidas em conserva vinham a nossa mesa e tínhamos sorte com o conteúdo das latas, comíamos uma refeição e sobremesa apetitosa pra valer, o café ficava por conta da casa.
Dava um nó no gogó. (Fenômeno do "bode expiatório"), pois sabíamos da procedência duvidosa. Quantos não perderam a vida para que estas latas de boa comida chegassem a nossa casa e fossem servidas na nossa mesa.
Ademais poderiam ter sido fabricadas por nazistas ou os judeus obrigados aos trabalhos forçados nestas fabricas de apoio logístico ao exercito alemão.
Salsichas com repolho azedo (Wurstchen mit zauerkraut), comida predileta do povo alemão era o que mais chegava quando os aliados torpedeavam submarinos ou corvetas nazistas que viviam fuçando as nossas costas.
Claro que esta lataria não era "Kosher" (comida preparada e supervisionada segundo os regulamentos da religião judaica), mas na guerra é como na guerra, se "come até gato por lebre" e ninguém reclama.
Então minha gente, dizia o meu avô tomando mais uma pitada de rapé e acendendo outro cigarro Regência, tem ou não tem quem ganha com a guerra? 
Meu Deus, até me arrepio quando digo esta infâmia e que minha boca não emudeça e minha língua não entorte. (Praga usada, derivada do dialeto judeu, o "iídiche").

(Todos os direitos autorais reservados) 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A quarta geração ainda pergunta (Festa do novo ano judaico 5773)


A quarta geração ainda pergunta


   Foto propria- Paulo Lisker e seu neto Shalev (Pacifico)

DAS CONVERSAS COM MEU AVÔ

Tema: A quarta geração ainda pergunta

Paulo Lisker, de Israel

Um dia desses, para ser mais exato, ao anoitecer do dia 16-09-2012, fui jantar na casa do meu filho em Tel Aviv.
Era a comemoração do novo ano judeu (Rosh Hashaná, em Hebraico), que este ano cai nesta data.
Não preciso dizer que numa ocasião desta se reúnem quase todos da família, os de perto e os de longe (harehokim ve hakrovim, em hebraico).
É uma oportunidade de se ver uns os outros que durante o ano não é possível pela correria atrás do sustento da família que impossibilita faze-lo com maior frequência.
É a data certa para se reunir, para matar as saudades, conversar, comer e beber do melhor em conjunto, pois comemoramos o Ano Novo (5773).
O mais importante nesta rara oportunidade é o encontro com os netos.
Com toda a cambada, sem botar nem tirar, todos estão lá, pois sabem que é o dia de receber presentes dos parentes e dos avós em especial.
Eles sem prestar contas a ninguém, correm e brincam sem dar importância nenhuma aos mais velhos como se estes fossem uns estorvos para suas brincadeiras no quintal da enorme vila, que o meu filho caçula alugou em especial para este evento.
Em tempo, seria de bom proveito, lembrar que este povo tem uns costumes "sui generis", um deles preza pelo direito que nenhuma família judia deve se privar de festejar a entrada do novo ano por estar "apertada" economicamente e por isso deixar de postar em cima da mesa todos os produtos para festejar este evento.
Pois da maneira como você comemora a entrada do ano novo, com toda a fartura, Deus ajuda para que durante todo o ano entrante não lhe falte nada. Um ano de fartura com a "ajuda do Divino".
Para isso centenas de ONG judaicas se organizam preparam as listas dos necessitados. Vão e recolhem do comercio os donativos, sejam em produtos alimentícios ou de dinheiro para comprar o que não foi possível receber dos comerciantes e preparam tudo que necessita a família para tal comemoração.
Cada família necessitada recebe de alguma organização voluntária, um ou dois dias antes da entrada do ano novo, uma caixa com todos os produtos necessários para festejar o ano entrante sem nenhum constrangimento pela sua situação econômica ou social. Bonito, não é mesmo?
Agora nos tempos modernos querem mudar o sistema e em lugar de distribuir os produtos, planejam distribuir um cartão de credito com uma soma pré-determinada e a família compra o que quer do seu gosto no supermercado e assim ninguém "mete o nariz" no prato de outrem. Parece ser uma boa idéia, o tempo de ser altruísta, voluntário de boas ações e bancar o filantropo, já passou e cada um é dono de seu gosto e come o que quer. Tome o cartão de credito e faça sua festa como lhe der na veneta e pronto. Porem este ano a idéia ainda não vingou.
No salão de visitas na casa do meu filho a mesa estava posta, coberta com uma lindíssima toalha branca, toda rendada com símbolos judaicos, os pratos e talheres brilhavam, pois estreavam era a primeira vez que seriam usados em especial para este "Rosh Hashaná" (Ano Novo).
No centro da mesa estava uma grande bandeja com os alimentos que nunca deverão fazer falta na alimentação da família.
A tal bandeja é denominada "a bandeja das preces" (magash habrahot, em hebraico).
Interessante o que me disseram os entendidos, esta bandeja assim como os pratos e talheres somente seria usados na comemoração e durante o resto do ano tudo ficaria em exposição na cristaleira da residência da anfitriã.
Na bandeja são colocadas algumas frutas doces em geral (simbolizando um ano novo delicioso), as verduras (aquelas agarradas a terra, cenoura rábano que num sentido figurado representam o arraigo ao solo pátrio), pedacinhos de carne da cabeça de uma ovelha ou de rês (que representa o desejo de estar sempre na cabeça do desenvolvimento ou de novas idéias e não se arrastar como a cauda (o rabo) do animal).
Está lá, bem junto à "bandeja das preces", a Romã (Que representa a fertilidade, pelo numero de grãos que possui cada fruta), está a Tâmara (por ser frondosa, erguer-se orgulhosa e vegetar nas mais difíceis condições climáticas e de solos e produz muitos cachos de frutos doces com um teor de energia enorme, possibilitando sobreviver às longas caminhadas pelos desertos).
Garrafas de água para que este liquido nunca falte (Este produto era escasso nas épocas bíblicas).
Todas estas tradições se formaram no tempo bíblico do Reino de Israel nesta área desértica do Oriente Médio.
Já ia esquecendo muitas garrafas de vinho tinto (sempre produto nacional), pois simbolizam a produção doce e saborosa da terra de Israel (Eretz Israel), mesmo quando produzido em condições agrícolas difíceis em terras áridas com clima semi-desértico.
O vinho proporciona um clima propicio na festa do ano novo. Esquecer o ano anterior que está agonizando suas últimas horas e receber o ano entrante com muita alegria, bem dispostos, todos reunidos em volta de uma mesa lauta do bom e do melhor e ajudando ao próximo, pois a união faz a força.
De uma segunda bandeja que estava todo o tempo coberta com uma linda toalha também toda bordada é servida a "Halá" (pão de festa) ou pãezinhos (lachmaniot) cobertos com grãos de gergelim. Este produto de massa é a especialidade pessoal da dona da casa.
Cada um dos presentes tira um pedacinho do pão e prova com algo da "bandeja das preces" e em coro dizem o Amem. "Com o teu suor comerás o pão do dia a dia" (be zeat apeha tuchal lahem, em hebraico). Amem.
Cada qual prova algo da bandeja depois que o "capo" (Rosh há Shulchan, em hebraico) da mesa lê a prece para o tal componente, segundo a ordem que já existe a mais de milênios de tradição.
Terminada as preces e os "tira gostos" todos os presentes cantam em conjunto as canções da festa com ardor e fervor como se quisesse alcançar o Senhor Criador "nas alturas" (ba shamaim, em hebraico). Aí entram em ação as senhoras com as bandejas que estavam no forno esperando o fim das cantorias, colocam tudo em cima da mesa e é servido um lauto jantar.
Quando reclamei da quantidade enorme de comida que me foi servida no prato, a resposta imediata da anfitriã minha nora foi:
"Hoje é Rosh Hashná (ano novo), coma e não reclame, pois o que está servido é o nosso agradecimento ao Senhor por nos oferecer esta fartura. Amanhã na tua casa, continuaras a tua dieta, não aqui neste dia santo festivo para todos nós".
Sorte que a comida era de primeiríssima qualidade, então não resisti e provei de tudo.
Depois da comida regada com o vinho da terra, continuamos a conversar e tirar o atraso dos nossos poucos encontros. Todo o mundo fotografando de tudo que é ângulo com seus telefones celulares do ultimo modelo.
A meninada a traquinar, brincando, correndo e de vez em quando um deles perguntava:
"Quando chegará à hora dos presentes, os presentes deste ano. Estamos ansiosos pra ver".
Então esta hora chegou.
É um corre, corre pra todos os lados, todo mundo desembrulhando os presentes e comparando um com o outro, se recebeu o que sonhava receber ou não. Aquele que ficava frustrado se agarrava na saia da mãe ou da tia e choramingando perguntava se ela tinha guardado o recibo da compra para logo depois das festas irem trocar por algo que desejava, mas estes casos eram raros, pois em geral os seus desejos já tinham feito aos familiares muito antes da festa.
Logo o ambiente voltava ao normal e algazarra continuava pelo quintal todo.
Satisfeitos continuavam a brincar já com os presentes que receberam. Uma folia daquelas.
Lá para as tantas o netinho mais novinho e traquino danado, veio até a poltrona onde estava eu sentado digerindo feito uma cobra que comera uma paca inteira e me diz:
- "Vô tô com sono"!
- "Vem menino traquino, sobe e vem cochilar no meu colo, te conto uma estória bonita e logo adormecerás". De acordo?
- Não Vô, só quero descansar. Dormir não quero não, quero descansar para depois voltar e brincar com meu novo velocipe (velocípede), se não vou os outros tomam conta dele. De acordo Vô?
Me diz vô tu também um dia fostes menino feito eu? Ou sempre foste avô?
Nem respondi, pois ele já estava numa situação de cansaço que explicação nenhuma seria valida.
Lembro-me quando pirralho perguntei a mesma coisa a meu Zeide (avô).
É a quarta geração da nossa família que pergunta a mesma pergunta.
Deitei a sua cabecinha sobre meu peito e comecei a cantarolar quase sussurrando:
"Xô, xô boi da cara preta, deixa o menino dormir, que tem medo de careta" e passei a cantarolar algo que ainda me lembrava da infância. "Xô, xô boi, boi do Piauí, vai-te embora daqui e deixa o menino dormir" e assim por adiante.
Quando senti que ele ainda estava duvidando se dorme mesmo, então enveredei noutro embalo "educacional" da minha infância.
"Xô, xô pavão de cima do telhado deixa o menino dormir seu soninho sossegado".
Olhe eu já botei muitos netos pra dormir, nunca ninguém resistiu a estes "embalos infantis educacionais", nem este meu netinho, "um verdadeiro cupim de aço" de traquino, também ele não resistiu e se entregou totalmente aos braços de Morfeu, seu avô, porém não antes de voltar ao seu tempo de bebe e exigir que lhe trouxessem a chupeta, pois era a sua "arma" para se defender dos bois das minhas cantigas.
O "boi do Piauí", o da "cara preta" ou mesmo o "colorido pavão" ciscando no telhado, continuam mesmo em Israel, surtindo melhores efeitos que todo qualquer outro processo moderno para botar crianças pra dormir.
Boa noite.
Cuide com os creditos

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

DONA SHPRINTZE A VENDEDORA DE MANTEIGA (Parte 1)



Os pregões que me lembro do Recife "matuto"


Dona Shprintze, vendedora de manteiga -Parte 1

OS PREGÕES QUE ME LEMBRO DO RECIFE "MATUTO"

Paulo Lisker, de Israel

Postado em 08-10-2011 e atualizado em 20.06.2013

O dia todo, mais e mais vendedores ambulantes passavam pela nossa rua ( Gervásio Pires), no bairro da Boa Vista, no Recife.
Já de longe se ouvia os pregões anunciando a sua chegada com as mercadorias que traziam para vender.
Devemos em tempo salientar que havia aqueles que não eram de profissão estável como ambulante. Eles só apareciam em determinadas épocas do ano e com produtos em falta no mercado. Produtos estes necessários à cozinha e aos "costumes dietéticos" dos judeus na época.
Hoje, descreveremos um deles operando um serviço para a comunidade judaica.
SERVIÇO ESPECIAL PARA AS FAMÍLIAS JUDIAS

No passado, nem sempre estava à disposição do consumidor um ou outro produto comestível necessário para a "dieta judaica".
Era comum ouvir com frequência a clássica frase:
-"Está em falta minha senhora, quem sabe amanhã chega. Venha amanhã, guardo pra senhora. Amanhã sem falta".
Esse amanhã nunca chegava.
Como isto mormente acontecia, se criou um serviço voluntário (mediante pagamento, claro) que procurava encontrar o produto em falta fosse onde fosse, até nos cafundós de Judas (Em nordestino, lugares de difícil acesso), pagando alguma propina ou pelas amizades formadas nos lugares certos.
Um dos serviços desta espécie, entre outros, fazia uma senhora idosa, quando o produto manteiga rareava no mercado.
Apresentaremos o primeiro caso, muito conhecido na comunidade judaica do Recife.

Primeira "aquarela" - Parte um

DONA SHPRINTZE- (Corruptela, da palavra "esperanza", em espanhol)

Senhora já na meia idade, judia de origem polaca, viúva, mãe de três filhos, cabelos brancos, rosto enrugado, não sabia o que era baton ou rouge, sempre ao natural e bem disposta com um sorriso amargo nos lábios.
Vivia num quartinho rústico num pátio junto a outras casas simples de judeus pobres no Beco da Mangueira.
O aluguel caro pago pela "casa terra", muito guabiru gordo que roia tudo dentro do casebre e goteiras irreparáveis quando chovia. No Recife daquela época chovia pra "chuchu (em nordestino, "muito, muito mesmo"), não a tal chuvinha miúda como diz a canção, já não me lembro de quem, (que me desculpem): "chuva vai, chuva vem, chuva miúda não mata ninguém...".
No Recife daquela época não tinha disso não, chuva era chuva mesmo de "purmão roncar" (pneumonia) e daí pra frente!
Arrodiada (cercada em nordestino) de tantos problemas se mudou dona Shprintze para uma pensão barata na Rua Barão de São Borja lá pelas imediações da Rua da Soledade (nomes lindos tinham as ruas do Recife). Um dos filhos ela colocou num internato grátis e os outros dois, (um filho e uma filha) viviam com ela na pensão.
Vida difícil da senhora Shprintze, judia pobre.
Agora vamos ao âmago do cotidiano.
Faltava manteiga com ou sem sal e no mercado as prateleiras estavam vazias?
Ninguém sabia dizer quando voltaria a manteiga para o bem geral da nação!
Os judeus eram os primeiros que ficavam agoniados e amedrontados com a falta deste produto. E por quê?
Lembrava a falta nas épocas de guerra ou revoluções no continente natal deles, a Europa.
Estes acontecimentos fizeram os judeus passar fome, perseguições e até extermínio, não somente eles, porem eles eram os primeiros atingidos e os mais castigados. Faltou alguma coisa no mercado, os culpados da coisa eram sempre os judeus, o tal "bode expiatório" no decorrer da historia do "Galut"( Diáspora).
A "lição" foi rapidamente assimilada e daí o medo quando começava a rarear comida no mercado, mesmo no Brasil, milhares de quilômetros do velho continente onde lá o fenômeno ocorria frequentemente.
"Isto é sinal de coisa ruim que vem por aí", silabavam como estivessem revelando um segredo que só eles conheciam".
Sempre o primeiro produto que desaparecia do mercado nestas horas, era exatamente a manteiga e depois os produtos lácteos (coalhadas, queijo branco).
Porém a manteiga era uma espécie de "barômetro", naquele tempo, especialmente para o povo judeu. Se pode perfeitamente entender!
Tem aqueles que achavam que o Recife era uma "vila grande, atrasada no tempo" e em lugares assim, era muito comum a falta de produtos alimentícios durante épocas distintas do ano.
Para resolver o impasse caracterizado pela a falta do produto nas vendas e quitandas da cidade, entrava em ação a senhora dona Shprintze.
Ela era um analgésico (em sentido figurado), para acalmar os nervos da comunidade judaica, Ela tinha conhecidos na Usina de Lacticínios e com a ajuda destes, resolvia o problema, dando uma solução viável e fim do "caos".
Ela conseguia o produto faltante que estava escondido nas câmaras frigoríficas para atender somente aos graúdos da cidade. Eles soltavam uma propina ou uma ("gratificação") aos pobres armazenistas da usina de laticínios e o problema deixava de ser insolúvel. Nunca faltou o produto para os graúdos da cidade, mesmo que tivessem que importar da Holanda.
Dona Shprintze aprendeu como funcionava o "macete" (sistema)e para "quebrar o galho" (contornar a situação), ela entrava em ação.
Como dona Shprintze tinha boa amizade com o pessoal da Usina, conseguia naquela época de falta do produto, comprar a manteiga a um preço algo maior (incluído a propina) que do distribuidor grossista e vendia de porta em porta nas casas das famílias judias da comunidade. Como dizíamos na época "A ovelha sã e salva e o lobo de barriga cheia". Era o tal "macete".
Ela cobrava por cada unidade (caixinha quadrada de papelão, 250 gramas) o dobro ou até o triplo do preço de compra e assim sobrevivia. Verdade seja dita, ela sabia negociar e fazer contas.
Os judeus ao constatarem que a manteiga estava na porta se sentiam psicologicamente serenos e fora do perigo eminente que já, já estalaria uma revolução bolchevique ou os nazistas estariam por chegar ou pior ainda, uma guerra mundial. Vejam só aonde levava a falta de manteiga este "Povo preferido por Deus", um bando de "molengas" (medrosos ou psicóticos em nordestino).
Dona Shprintze dizia em iídiche a minha mãe:
"Got zol mich uphiten, noch a revolutzie oder a krieg feilt mich ietst".
(Que Deus me livre e guarde de uma revolução ou uma guerra agora).
As duas acreditavam seriamente nestes "sinais do além" e ela vivia murmurando em iídiche:
"Got zol mich uphiten, Got zol mich uphitn" (Deus me livre, Deus me cuide), feito quem estava rezando.
A minha mãe foi um período bastante longo "presidentke" (Secretaria Geral do Relief, ONG de ajuda aos necessitados da comunidade judaica).
Ela recomendou a diretiva desta organização reconhecer a dona Shprintze como "necessitada", assim sendo, ela tinha o direito de receber uma mesada para manutenção dos filhos.
O tempo foi passando e com a idade e dificuldade de caminhar, ela recebia desta ONG "Relief" uma ajuda financeira para não sucumbir de todo.
Meu Pai que não era "muito católico" (não acreditava muito sem discutir, este tipo de atuação. gíria nordestina) e era meio sarcástico em relação a estas ajudas feitas pelas ONGs aos "necessitados".
Uma vez ele perguntou a minha mãe que era "presidentke" (secretaria geral).
-Diga-me Anna, que decisões importantes tomaram vocês na reunião de hoje em prol dos pobres.
A que ela respondeu:
-Decidimos voltar e nos reunir novamente na próxima segunda feira, respondeu a presidentka, minha mãe!
Pai riu e o sarcasmo se passou para cinismo.
Ele só acreditava no trabalho pesado e não viver recebendo esmolas. Bem, ele era da velha guarda daqueles que tinham vergonha na cara e mãos calejadas.
Antes das festas judaicas dona Shprintze mandava os seus filhos entregar manteiga segundo uma lista que preparava em tempo.
Mulher "viradora" (esperta, na gíria da rua). Ela visitava as famílias judaicas para desejar um feliz ano novo (Rosheshune) ou os votos de uma boa Páscoa (A guitn un hakushern Peissach) e nesta oportunidade aproveitava para averiguar se necessitavam do produto e a quantidade.
Sabia ela que nestas festas se usava muita manteiga para tortas, pasteis e comidas da Páscoa.
Dizem também que ela era uma "bolera" de mão cheia e ajudava nas festas de casamento, noivado e outras comemorações das famílias da comunidade judaica.
Sua arte culinária e a riqueza dos sabores de suas tortas e pasteis, causavam a admiração de todos. Dizem que até de Alagoas vinham encomendar da sua confeitaria.
Nas festas, ao comer algo de dona Shprintze, "estalavam a língua" (saboreavam com muito prazer, em nordestino) e diziam:
-"Dou a minha cara a bufete se esta torta não foi receita da dona Shprintze". (Em iidiche: kenst mir guibem a patch in punim ven ich bin nisht guerecht ven di tort is nicht a retzept fin froi Shprintze)!
Fato que ninguém conta era que ela sempre foi uma mulher enérgica e de muita iniciativa apesar de ser considerada "necessitada."
A prova disso, quando realmente escasseava de todo a manteiga na Usina e nem para os graúdos da cidade restava, ela fazia uso do conhecimento que tinha com alguns donos de vacarias na Ilha do Leite e no Curado e daí vinha a solução alternativa.
Viajava de bonde fizesse sol ou chuva e comprava leite dos donos das vacarias e lá mesmo produzia manteiga com uma batedeira manual que possuía e que carregou toda esta distancia consigo, da pequena aldeia na Europa, sua terra natal, até o Recife.
Pensando bem, hoje, meio século depois, imagino que todo este esforço não só para ganhar a vida, mas também trazer calma a colônia judaica. Será?
-Manteiga, manteiga, tem de novo manteiga, já se sente até o cheirinho.
Só ao ouvir o seu pregão, fazia dissipar o medo psicológico deste povo sofrido.
Pois a falta de manteiga é sinal que algo de ruim está por acontecer.
-"Zol Got mich up hitn" (Deus me livre em iídiche*).
Vige!

* Iídiche- Um dialeto derivado do idioma alemão (uma corruptela), que os judeus da Europa leste usaram durante centena de anos para se comunicar entre si, pois viviam em dezenas de países sem dominar o idioma local.
* Existe também o "Ladino", outro idioma usado pelos judeus oriundos da Espanha e Portugal que depois de expulsos destes países no final do século XV se instalaram no norte da África e sul da Europa. Estes dois dialetos existem até hoje em dia, porém estão em franco declínio pelo ressurgimento da língua hebraica depois da instalação do Estado de Israel.

(Todos os direitos autorais reservados)
Fim da primeira parte da crônica "DONA SHPRINTZE".
A continuação, a seguir.

DONA SHPRINTZE A VENDEDORA DE MANTEIGA (Parte 2)


Dona Shprintze - Parte 2

                                  Foto Google-Internet


OS PREGÕES QUE ME LEMBRO DO RECIFE "MATUTO"

Paulo Lisker, de Israel

Uma aquarela judaica do Recife
 
Tema: DONA SHPRINTZE, Parte 2 (final)

A manteiga e os outros produtos lácteos fazem parte orgânica da dieta judaica especialmente nas festas de Ano Novo (Rosheshune), Páscoa (Peissach), e Purim (uma espécie de carnaval) e em geral durante o ano todo, pão com manteiga de manhã com café com leite, no lanche da tarde polvilhado com açúcar (dava a impressão de estar comendo uma fatia da melhor torta do mundo) e de noite na ceia, a manteiga sempre estava presente,  sem ela e os derivados lácteos era um verdadeiro desastre na culinária judaica.
Escutava-se em todo canto:
-"Vuz machtmen, vus machtmen, vi ken ich koifn a shachtl piter?Un piter kenen mir nisht machn der naier yur, Rosheshune" (Que se faz que se faz, onde posso comprar uma caixinha de manteiga. Sem manteiga eu não posso receber o ano novo).
Nenhum anti-semita na história impediu que o povo judeu festejasse seus dias sagrados.
A manteiga sim. Vejam que coisa!
Em tempo é bom acrescentar que o tal produto conhecido como "margarina" não existia e quando sim, era comprado nas farmácias (e não em todas) como um produto medicinal recomendado pelos médicos quando exigiam alguma dieta necessária para as judias de peso exagerado e perigos coronários.
Eu mesmo, na minha casa no Recife, nunca vi ou provei esta tal "margarina", e da banha de porco, nem se devia pensar. Ainda mais na casa de judeu. Lógico que a manteiga era o "passa pão" de cada dia.
Só nos anos 50 tive a oportunidade de provar tal produto quando vivia num "kibutz" em Israel que a serviam no refeitório coletivo, não por nenhuma dieta, sim por ser um produto barato e a manteiga era destinada a burguesia da época e nós éramos o proletariado judeu que mudaríamos o mundo, então era suficiente comer a tal "margarina".
Só depois de muitos anos a medicina descobriu que este produto era muito mais nocivo a saúde humana que a clássica manteiga.
Ademais, tem um "fato que ninguém conta".
O motivo é que todos estes produtos derivados do "leite goi" (produzido por não judeus quando viviam no "galuth"-Diáspora), não eram "casher", pois o processamento não estava de acordo como determina as leis da "HALACHÁ" ( A produção deve seguir um determinado procedimento religioso judaico) e que até hoje é válido e seguido ao pé da letra pelos judeus ortodoxos.
Existem divergências entre os diversos ramos do judaísmo no que diz respeito a este especifico item da "cashrut", mas este emaranhado é como dizemos: "São outros quinhentos mil réis" e ficará para outra oportunidade.
Se não me falha a memória, até meados da década dos 40 ainda viviam dois judeus religiosos.
O Senhor Gedalia Rath, avô materno dos Mutchniks, avô de Uziel, Marcos, Sarita e Roberto, nossos amigos da infância. O outro era o Senhor Zissie Girol, ele morava no bairro da Madalena e era o avô materno de Isaac (Gilberto) e Liova (Leon) Krutman, também nossos amigos da infância na escola iídiche e no Colégio Osvaldo Cruz.
Lembro-me muito bem desse "shoichet" o matador de galinhas, o senhor Zissie.
Inúmeras vezes esteve na nossa casa para abater galinhas segundo o "procedimento" (há alachá). Isso se fazia extremamente necessário quando comemorávamos alguma festa religiosa judaica ou num "Bar Mitzva (festa dos 13 anos para garotos), festa de "Tnoim" (noivado) e se não fosse feito assim, muitos judeus ortodoxos, não compareceriam ao evento ou  se limitariam a comer salada e pão centeio (preto), nada de carnes procedentes do abate de matadouro goi.
Era a época que tradição tinha ainda algum valor para uns poucos, pois com o tempo o Recife possibilitou que os judeus se assimilassem aos costumes goi e hoje já são raros os que seguem as tradições dos antepassados.
Restou o costume do "Brit-Milá" (circuncisão) e ser enterrado com seus patrícios judeus (Kvurá), parece que era no cemitério do Barro e hoje no Curado, exclusivamente para o povo judeu.
Nós os meninos dizíamos de alguma maneira zombando:
- Chegou "o mata galinhas", chegou o "mata galinhas", mas ele nem se ofendia e nos olhava com complacência e dizia na saída a meu avô:
-"Di kinder zenen pushete goim vaksn vild vi di goim. Nisht kain respect far eltere lait"(Esta meninada é igual aos natos daqui, crescem como verdadeiros nativos sem nenhum respeito aos idosos e a tradição dos ancestrais).
Meu avô concordava balançando com a cabeça, pagava pelo "trabalho" (o pagamento de maneira alguma era obrigatório era mais um donativo para alguma causa comunitária, para ajudar algo que necessita reparo) e dizia se despedindo:
-"Her Zissie, dus is Brasil, zei vaksn azoi vi der brasilianer goi, gurnisht kemen machn! Zai gezunt her Zissie. Gueit mit shulem"!
(Senhor Zissie, aqui é o Brasil, eles crescem e se comportam como brasileiros natos. Não se pode fazer nada! Vai em paz senhor Zissie e muitos votos de boa saúde).
Estes conhecedores das leis religiosas judaicas executavam a circuncisão e abatiam aves e animais maiores segundo as leis da "halachá" (em iídiche, eles eram "der shoichet e "der moheil"). Assim a colônia judaica tinha a possibilidade de fazer a "milá" (circuncisão) aos 7 dias de todos recém nascidos do sexo masculino.
O abate feito ou super visionado por eles possibilitava ao judeu comer carne cusher (a única permitida pelos ortodoxos da religião judaica).
Senhor Zissie estava destituído de grande parte do nariz, e o orifício nasal estava sempre tapado com uma mexa de algodão.
Dizem que foi um acidente provocado ao abater um bovino e este lhe deu uma chifrada e arrancou parte do nariz. Se é verdade não sei, assim quando era menino me contaram meus pais e eles nem sempre contavam a verdade, pois não ficava bem não ter respostas para as perguntas dos miúdos. Para que são eles pais? Para responder a qualquer pergunta e não importa que seja uma mentirinha.
Interessante que o senhor Zissie ficou lembrado na minha memória, já o outro "shohet- moel" , senhor Gedalia Raat que foi que me fez a circuncisão, quase nada lembro. Quem sabe ficou uma lembrança dolorosa no subconsciente. Quem sabe? Será? Só  perguntando a Freud.
Com os produtos lácteos o problema se mantinha e solução para uma produção cusher (casher), nunca se conseguiu! Leite de Goi (não produzido segundo manda a religião judaica) nunca será permitido usar pelo judeu ortodoxo, pois não é cusher.
Mas a vivacidade deste povo, cheio de Prêmios Nobel (o último foi o de química, neste ano 2011), contornava este fenômeno negativo.
Depois do falecimento destes dois senhores que entendiam das leis religiosas, nada mais era "casher" para os judeus no Recife, pois nada mais era elaborado segundo o "procedimento" das leis religiosas, Há Halachá.
Não ficou herdeiros nesta profissão que era considerada uma "mitzvá (Preceito ou Mandamento).
Assim sendo, quando a necessidade aperta, o povo aprende a se comportar segundo o ditado: "Quem não tem cão caça com gato" (Na realidade o ditado certo é: "Quem não tem cão caça como um gato) e fim do dilema.
Se come de tudo e ninguém diz nem pergunta nada!
Esta inteligente frase: "NÃO DIGA, NÃO PERGUNTE" era o "modus vivendi" desta comunidade que ficou sem as autoridades espirituais.
Comiam de tudo e ninguém piscava, nem diziam e nem perguntavam. Enfim, excelente solução, sem comentários!
Contam que numa noite calorosa de calmaria, destas aconteciam muito no Recife, passou Abrãozinho, um rapazola da comunidade pela Rua da Alegria (nomes bonitos tinham as ruas do Recife, parece que já disse isso alguma vez) e viu através de um postigo aberto o senhor Frumkin, judeu, comendo na ceia do sábado umas fatias de presunto (Shinken).
Assustado com a cena não comum nas casas judaicas, não se conteve, se aproximou do postigo aberto e perguntou quase sussurrando:
-Senhor Frumkin, que aconteceu? Que estás comendo?
Respondeu o senhor Frumkin:
-Peixe, isto é peixe, meu filho!
Retruca meio envergonhado Abrãozinho:
-Senhor Frumkin, isto é porco!!!
 Pego "de supetão com a mão na massa" (surpreendido sem aviso prévio, na língua do povo) e aborrecido com essa gente que mete o "focinho" (cara, quando se tratar de animal), nas coisas dos outros, responde o senhor Frumkin, aborrecido:
Rapaz, eu te perguntei o nome desse peixe? Isto é peixe e não me interessa o nome dele. Anda, vai e deixa de encher o saco! (deixa de molestar no linguajar da rua.
A dieta do Recife judaico naquela época era regida pela filosofia: "NÃO DIGA, NÃO PERGUNTE", mas sempre apareciam estes "fuinhas" pra botar "peninhas" em tudo. Oh gente chata!
Contudo isso a vida corria as mil maravilhas na cidade Mauricea do Capibaribe!
Dizia meu amigo goi, Argemiro, sem maldade nenhuma:
-Vocês judeus, vivem entre judeus e são enterrados entre judeus,nem a morte vos separa, coisa muito estranha para um mortal qualquer entender!
Agora voltando a Dona Shprintze, o tema desta crônica.
Dona Shprintze tinha também o seu pregão e no Recife caloroso de postigos escancarados (abertos) dos casarões antigos, ela anunciava:
"PITER, PITER MIT ZALTZ UND NISHT GUEZALTZN. GANTZ REIN, SHEIN, HÁ GUESHMAK, GURNISHT GUELT, KIMT SHOIN ICH HOB NISHT KAIN TSAIT, ICH HOB IN SHTIB KINDER TZU GUIBN ESSN. SHOIN, SHOIN SHABES…. PITER, PITER, IZ SHOIN DU PITER, REIN UND GUESHMAK. NISHTÚ KAIN MILHUME"
Do iídiche: "Manteiga, com e sem sal, clara, fresca e gostosa e bem baratinha. Venham rápido, pois estou "avexada" (com pressa em nordestino). Tenho meus filhos em casa pra dar de comer. Já, já entra o sábado. Manteiga, manteiga chegou agorinha a manteiga gostosa e cheirosa, a guerra, até de medo fugiu".
Sabíamos que estávamos sendo "tapeados" (enganados em nordestino), com o preço que pagávamos pela caixinha de manteiga, às vezes até comprávamos duas ou três com o medo doentio caso ela viesse faltar e só o diabo poderia nos dizer se é um sinal de tempos ruins que vem por aí.
Melhor ter de reserva, como diz o refrão popular: "Melhor prevenir do que remediar", os judeus sempre se conduziram desse jeito.
Coisa parecida como conta a Bíblia quando José interpretava o sonho do Faraó no Egito.
Sonhou que apareciam "7 vacas gordas e depois 7 vacas magras".
José interpretou o significado do sonho (ou pesadelo) desta forma: Depois de 7 anos de fartura (7 vacas gordas) viriam anos de secas (7 vacas magras) e grandes dificuldades para toda a população.
Ele aconselhou ao Faraó, armazenar na época de fartura para usar nos anos de carência e assim atravessar o período difícil de uma maneira mais amena e segura. Por incrível que pareça, resultou certo!
Quando algo falta no mercado sabemos que o preço vai às nuvens, assim funciona a economia de mercado livre e de dona Shprintze.
Ninguém discutia o preço da caixinha de manteiga, pagavam o exigido e ficavam com a consciência tranquila e o espírito descansado era uma maneira de ajudar a uma viúva que criava 3 filhos sozinha.
Naquele tempo não havia as "bolsas" governamentais para ajudar aos necessitados como hoje, então pagar o que ela ditava era um tipo de filantropia!
Muitos anos depois a colônia judaica ficou ciente de mais e mais casos parecidos. Estes casos se acentuaram depois da segunda guerra mundial.
Chegaram imigrantes sem posses, destituídos de tudo, necessitavam urgentemente de ajuda
As ONG's judaicas redobraram os esforços para ajudar aos mais necessitados, entre elas estavam como sempre, o Relief, Wizo, Pioneiras, Kempner. Creditem se quiser cada uma dessas organizações tinha sua tendência política, de direita ou de esquerda, sionistas e anti sionistas, mas nesse momento em que a ajuda se fazia extremamente necessária as cores e as tendências desapareciam.
Naquele tempo "que se amarrava cachorro com linguiça" a colônia israelita do Recife tinha vergonha de confessar que alguns de suas famílias eram extremamente pobres.
Era um mínimo que podiam fazer para manter estes necessitados com "a cabeça fora da água" e conviver na comunidade judaica do Recife de uma maneira mais ou menos decente e humana.
Assim foi minha gente o cotidiano da colônia israelita durante a primeira metade do século XX.

P.S. Perguntariam vocês, por que o governo estadual ou a prefeitura do Recife nunca deram ajuda nenhuma a essa gente necessitada, verdade?
Perguntam sério?
Eu só poderia rir um bocado (gargalhar, no bom português).

Postado neste blog em: 07/10/2011 e
atualizado em 20/6/2013
(Todos os direitos autorais reservados)