domingo, 28 de julho de 2013

O CHOFER SIMEÃO E SUA FUBICA- PARTE 2

O CHOFER SIMEÃO E A SUA FUBICA
Parte 2


Fotografia do Google

O CHOFER SIMEÃO E SUA FUBICA* - Parte 2

Paulo Lisker, de Israel

Era nos anos trinta, talvez no principio dos anos quarenta. Naquele tempo tudo durava uma eternidade. Ninguém se apressava em comprar nada novo, tudo se arrumava, meia sola nos sapatos, soldar as panelas furadas, afrouxar as calças, os sapatos, remendar as meias, tingir roupa desbotada, nada se perdia tudo tinha como recuperar e colocar de volta ao uso normal. Eram outros tempos.
A fubica do chofer Simeão, Ford Bigode do ano 1929, parecia que tinha saído agorinha mesmo da fabrica de carros, nem um arranhãozinho, nada machucado a tinta brilhava que doía até na vista quem olhasse para ela nas horas de muito sol e isto é coisa que não falta no Recife.
Eita "bichinha" bonita danada e a buzina dela era algo que nos dias de hoje, nem pensar. Toda gente se admirava, ao ouvir:
AUHA-AHUA-HAHUAAA. Que beleza de buzina era de dar gosto. AUHA-AHUA-HAHUAAA. Era como se a fubica quisesse falar com os transeuntes e dizer: "olha aí, estou passando, como vai gente boa, tudo bem, AUHA-AHUA-HAHUAAA".
Tudo que eram postigos e janelas se abria e as domesticas só voltavam aos seus afazeres depois de ver aquela beleza de fubica deslizar defronte da casa.
Nas ruas não tinha quem não torcesse o pescoço ou parasse pra ver.
Fubica conservada desse jeito só o senhor Simeão sabia como, todo minutinho vago ele tirava a caixa que continha o seu segredo, um trapo de pano macio e uma lata de cera "Dupont" (Me lembro do cheiro desta cera) e se dedicava a fazer a sua fubica brilhar mais que o "rei sol".
Era assim que naquele tempo as coisas duravam por mais de uma geração.
Diziam os brincalhões da época, que se os choferes cuidassem desse jeito da sua família, não haveria divórcios.
Simeão era assim, celibatário. Cuidava de si e da sua fubica.
Na realidade o proprietário da fubica era o Comendador de Arruda, que comprara naquele ano três carros dessa marca e os colocou nas diversas praças para servir de carros de aluguel (Táxi), à aristocracia da cidade do Recife.
Uma delas o Comendador confiou ao chofer Simeão que era um homem serio, crente, honesto e tinha diploma de mecânico de automotores, fornecido pela Opel do Recife.
Não gosto de contar, mas vou dizer para vocês aqui em segredo que a inveja dos outros choferes da praça era enorme e ficavam mais que arretados da vida quando um pirralho que vinha com a família, agarrava a mãe pelo braço e dizia:
- Mãe ta ali o senhor Simeão com sua fubica, que sorte né mãe, alugue ele pra nos levar para visitar tia Mali na Madalena.Vamos com ele mãe, vê que carro bonito danado.
Os outros choferes, não sabiam onde meter a cara e se escondiam atrás de um jornal (o suplemento dos esportes, em geral), tirando baforadas dos charutos nacionais que sempre estavam num canto da boca.
Agora voltemos a "vaca fria" em continuação à viagem que se iniciou no Cais de Santa Rita em direção a Praça Maciel Pinheiro com um passageiro que momentos antes tinha chegado do interior de Pernambuco em busca de parentes no Recife.

A fubica de seu Simeão seguia rodando devagar pelas ruas apinhadas de transeuntes levando as compras efetuadas momentos antes, carregadores com moveis na cabeça (sempre cantando), carroças puxadas a cavalo (animais de uma raça "diminuta" que a genética negativa formou no nordeste do Brasil) e até cachorros vadios ("Vira Latas", na língua do povo), atrapalhando o transito.
De tudo isso dizia senhor Simeão:
- O que mais me incomoda é a grande quantidade de bosta dos cavalos no meio das ruas e que ninguém se preocupa de limpar. Ai dos meus pneus Firestone de banda branca, toda viagem por aqui, eles ficam todo melados desta merda, Nossa senhora! Trabalho danado para limpar no fim do dia.Ao passar defronte da famosa estação de trens da "Gretoeste", surgiam novamente os vendedores ambulantes e aqueles das barraquinhas anunciando seus produtos chegados agora mesmo no último trem da linha norte.
No pátio interno da estação, do outro lado do paredão, ficavam as "Marias Fumaça", chiando e recebendo algum tratamento mecânico antes de se atrelar novamente aos seus vagões, para mais uma viagem ao interior pernambucano.
Na pracinha em frente à estação estava o eterno vendedor de abacaxi descascado com arte, sem deixar nem sequer um espinho na sua polpa, sempre cortados em quatro partes com um pauzinho espetado para se poder ir comendo no caminho ou sentado no local, na sombra dos enormes pés (Arvores) de fícus Benjamin que arborizavam o local.
As pilhas de abacaxi de cor verde (muitas vezes meio ácido, bom pra refresco) e os de cor amarela, doces como mel e de um aroma que se alastrava até a Ponte Velha, lá pro lado da Boa Vista.
Estes abacaxis estavam à espera dos compradores em atacado para leva-los para outras feiras no Recife e nos arrabaldes. O cheiro era embriagador!
No outro lado, na calçada oposta, estavam as pilhas de melancias de Pesqueira. As de estrias claras na casca, nunca foram muito doce, porem os judeus sempre apreciaram esta variedade de casca grossa.
As outras provenientes de Escada eram melancias enormes de casca verde escuro, algo mais doce que as outras de estrias, porém com muita semente. Era comendo e cuspindo.
A zona de produção de melancias em Pernambuco era mormente chuvosa e desta forma a fruta nunca alcançava a doçura das melancias de regiões mais secas, sei lá, pode ser.
Destas de casca grossa, algumas donas de casa judias faziam conservas, assim como, de pepinos ou pimentões, técnica trazida da longínqua Europa de invernos frios e judeus pobres, que comiam no inverno, casca de melancia conservada no vinagre e sal. Creiam-me, provei e é uma conserva deliciosa. Casca de melancia. Vejam o que faz a necessidade, assim é a vida.
Pilhas de manga rosa, espada e manguitos diversos, que vinham de Prazeres e Engenho do Meio, tinha para todos os gostos dos clientes.
Encostados e pendurados no paredão da Estação Central estavam os quadros de pintores locais com suas "obras primas". Pinturas "inocentes" em aquarela, óleo, e até material mais sofisticado (butique, esmalte, etc.), estava estampado o nordeste brasileiro, sua gente, seus bichos, as plantações, as danças da roça e a exuberante vegetação tropical.
Parece que o Sertão com suas periódicas secas e os resultados funestos por ela causada, "a terra nua ardendo, carcaças de animais", os "paus de arara", o êxodo rural, a fome, os olhos tristes do sertanejo, não eram modelo ideal para estas pinturas "inocentes". Não constavam ou não eram temas para vendas rentáveis.
Estava presente quase sempre o vendedor de galinhas vivas da raça carijó, estas de pescoço pelado e vermelhão.
Mais de lado, debaixo de um fícus frondoso, mode a sombra, um "montão" de gaiolas cheias de passarinhos dos mais diversos, que eram pegos em alçapões (feitos de "barba de bode", um capim rústico e lenhoso).  Vinha de todo o nordeste e eram vendidos a preços irrisórios. Os mais procurados eram os papagaios (louros e se fosse falador, o preço ia lá pra cima), canários, galos de campina, e periquitos. Nunca faltou mercadoria nem compradores. Era o tempo que o nordeste tinha seu habitat vegetal quase intocável e isso dava muito passarinho.
Estavam ali presentes os vendedores de loterias estadual e nacional, vendendo ilusões.
Era muito comum encontrar também os vendedores de letras das músicas populares da época. Esta mercadoria sempre foi muito procurada pelo público, pois "cantores de banheiro" sempre houve no Recife romântico daquela época.
Nesta área, estavam presentes os repentistas ou violeiros sertanejos, dando um concerto da sua arte, angariando uns tostões para comprar cordas rebentadas dos seus violões e o almoço num bar junto da Ponte Velha.
Tudo se vê pelas janelas da fubica do seu Simeão que vai rodando pelas ruas do Recife.
Atravessa a Ponte Velha, de lá se vislumbrava toda a beleza da cidade entre ao rios e pontes, não tenham duvida ela era mesmo a Veneza Brasileira.
Na vazante do Capibaribe, dezenas de "catadores" de siris. Eles, assim como as suas próprias vidas, estavam atolados na lama do rio até meia canela, procurando tirar desta, o seu mísero ganha pão diário. Logo que tinham "caçado" duas dúzias desses "bichos", saiam com eles pendurados em ráfia e cobertos com a própria lama do rio.
Psicologia de "pesca siris", dar-lhe a sensação que ainda não chegou à hora e os "bichinhos" estão, todavia nas "locas" do rio Capibaribe. Acho que nem Freud pensou nesta situação para evitar o funesto pensamento dos siris e caranguejos que mais um pouco estarão sendo jogados num caldeirão de água fervendo, então para que antecipar a agonia, a lama cobrindo os coitados seria o melhor dos remédios. Ta vendo seu Freud, como o nosso matuto é astuto? E muito!
A vegetação exuberante para todo lado que se olhava, vazantes e enchentes, maré alta e maré baixa, jangadas de pau balsa e velas de sacos de sal ou açúcar, barcaças no meio do rio e dois fortes tirando areia para construção civil, pontes pra "dar e vender" e uma delas até giratória, a primeira do Brasil.
Bondes para todo canto, fubicas* (Ford Bigode do ano 29), corso de carnaval, frevos para o folião, gente pacata e acolhedora do Recife, será que hoje ainda é assim?
A fubica fumaçando, seguia pela Rua Velha e já - já chegaríamos à Praça Maciel Pinheiro e ao endereço solicitado.
Levou tempo, pois seu Simeão era muito conversador e os passageiros gostavam da conversa fiada dele.
Ao passar pelos Correios e Telégrafos estava um grupo grande de gente discutindo e lendo uns comunicados que os funcionários de vez em quando colavam no quadro de avisos.
-"Que aconteceu? Alguma greve?", perguntou o passageiro.
-"Não senhor, neste tempo de Getúlio, ninguém tem coragem de fazer greve, oxente!"
-"Então o que é esta balburdia nas portas dos Correios?"
-"Olhe, foi uma coisa séria", responde meio sem jeito o senhor Simeão, "afundaram um comboio de barcos brasileiros que estavam transportando tropas para reforçar as posições dos americanos no nordeste. Falam muito num tal Baependi, não sei se é o almirante da esquadra ou o nome de um dos barcos".
-"E quem os afundou senhor Simeão?"
-"Dizem que foram os submarinos alemães nazistas e depois que torpedearam, subiram "os filhos da peste, safados" à tona e metralharam os sobreviventes, para não deixar testemunhas!"
-"Quando foi isso?"
-"Não sei não, acho que foi essa noite! Agora com sua licença podemos estacionar na porta da sua casa?"
-"Pois não seu chofer, tire a minha maleta, aqui está o que combinamos dois contos de réis, está certo? Conte,conte, nunca confie, ta ouvindo?
Sabe de uma coisa, ainda não encontrei meus parentes no Recife e já estou com saudades do meu Cabrobó."
O chofer coloca o dinheiro recebido numa capanga feita em Bezerros, coça a cabeça e responde:
-"Olhe seu doutor, não se chora pelo leite despejado (derramado), saudade é uma virtude e o que será, será! Assim dizia o sábio Rei dos judeus, Salomão".

Não sei vocês minha gente que terminaram agora de ler esta crônica do "tempo da onça", mas eu confesso, não consigo reter as lagrimas.
Eita tempo gostoso de quando éramos felizes e não sabíamos.
Fim de estória.
*FUBICA: Dizem que é uma "corruptela" do diminutivo da palavra Ford, será?
FORD, fordico, furdica, fubica e aí ficou.
Mas que era uma obra de arte, não tenham duvidas. Serviu de "Carro Escola", até nos anos 50. Num deles tirei a minha carteira de habilitação.
Quando encostei o carro na calçada ao terminar o exame, me disse o examinador algo que não esquecerei nunca mais: Seu Paulo, agora vou exigir que a prefeitura do Recife troque todos os postes de metal por postes de borracha. Assine logo aqui, o senhor é um verdadeiro "munheca de pau".
Ai meu Deus, quase choro de desgosto.
Porém a licença brasileira para dirigir, revalido em todo o canto do mundo, pois não ficou registrado nela que sou um "munheca de pau", ainda bem.
Fim da cronica, parte 2 de 2
Todos os direitos reservados.
Cuidem os créditos.

O TIME DE JÚLIO MAGRO E RUBÃO

SÁBADO, 1 DE JUNHO DE 2013


O time de Júlio "Magro" e Rubão


Foto 1, o time de garotos judeus do Recife. Equipe MAAPILIM.
Da direita, de pé: Uziel Mutchnick (falecido),  Rubão (Rubem Pincovsky) Recife, Jaiminho (Mario Jayme Zimilis, falecido), Paulo Lisker (Israel), Itiel Bubman (falecido), Moishe Kertzman "fumaça", falecido.
Agachados: Bernardo Katz, Nadinho, Recife, Zildo Faierstein (falecido), David Bogater Jacubovitz, Vivi  (falecido), Julio Charifker (Julio magro, falecido), Walter Ghelfond (Vauty, falecido).
Foto: Paulo Lisker

O TIME DE JULIO "MAGRO" E RUBÃO (Meia direita e Pivô, respectivamente)

Paulo Lisker, de Israel

26-05-2013


Parece que já disse em alguma crônica anterior que a comunidade de imigrantes judeus chegados ao Recife nos fins do século XIX e no principio do século XX, não geraram nem cronistas nem futebolistas afora raríssimas exceções.  Futebolistas: Dois. Assim como as andorinhas que aparecem cedo demais e não trazem o verão.
Cronistas: Nenhum mesmo. Tenho plena certeza.
Se tivessem aparecido naquele tempo, estas crônicas hoje, seriam coisas caducas.
O nosso desejo hoje é contar sobre um tema que dele não ficou nada ou quase nada registrado.
Assim sendo, não ficou do conhecimento publico, os intentos da juventude judaica, filhos de imigrantes, a vontade de se assimilar (assemelhar) ao povo local (os goim), pois para isso era necessário saber jogar futibó (Foot Ball).
Vocês já viram menino brasileiro nato, que não corre atrás de uma bola mesmo que fosse de pano e cheia de papel? Não tem!
Hoje sabemos que a primeira tentativa para tal "façanha", data dos anos vinte.
Alunos do "Colégio "iídiche" Israelita", formaram um time que até participou no campeonato pernambucano de futebol.
Da pouca informação existente, grande time nunca foi.
Nos poucos anos de participação apanhou tantas "surras" (grandes derrotas), até que desapareceu por completo.
O fim destes garotos, todos sabemos qual foi.
Ao deixar de lado o sonho do futebol, esta gente foi estudar e se formar nas universidades do Recife.
Era uma "mitzvá" (compromisso divino) dessa gente para com seus pais e seu povo. Desde novinhos viviam agarrados ao livro pra conhecer as letras, saber ler e escrever e deixar o analfabetismo para longe e "virar gente" (Zain a mentsch, em iídiche).
O  Israelita Futebol Clube, fundado em 1922, deixou de existir um par de anos mais tarde*, para a felicidade geral das mães desses garotos que desejavam que eles terminassem de estudar medicina, engenharia, arquitetura ou mesmo dentista, o importante que fossem "a docter" (diploma de doutor).
Só assim teriam um futuro melhor que os seus pais, que chegaram ao Recife "com uma mão na frente e outra atrás", uma maneira de dizer que chegaram sem um vintém, com a roupa do corpo, sem saber o idioma local e pensavam que conviveriam com índios nativos e selvagens.
A verdade era que esta geração de imigrantes tinha muita vontade de vencer a todos e quaisquer obstáculos no novo continente. Criar um novo lar, livre  das perseguições da igreja européia e seus correligionários fanáticos cristãos fundamentalistas.
Quando se deram conta que a meninada estava assimilando os costumes locais, entre outras, a pratica do futibó, coisa de moleques da rua, quase enlouquecem.
Foi mais um "imposto" cobrado a estes imigrantes e um preço bem pago pela segunda geração na corrida pela assimilação ao sistema da vida local. Não só feijão com arroz, relegando a comida judaica tradicional, a coisa foi pra mais longe, tamancos, dormir em redes, namorar com "shikses" (não judias), adorar comida local não casher (matéria prima e preparo, segundo manda a religião judaica), não rezar ou guardar o sábado. Era se despir de tudo que fosse a cultura e as tradições dos antepassados.
Tudo se volatilizava com o correr do tempo.
Quando o time de futebol se acabou e esta doidice de viver chutando bola nas campinas da cidade, os veteranos, nossos pais e avós respiraram descansados. Finalmente, não mais o futibó dos goim. Agora arregaçar as mangas e estudar e trabalhar.
Houve mais uma tentativa no fim dos anos trinta, quando o sargento Barreto, o instrutor de educação física do colégio israelita, pensava em formar uma equipe de futebol juvenil para competir com outras escolas primarias da cidade.
Ele prometeu aos meninos que pediria ajuda à Buchada (José Bushatsky, jovem judeu, ex goleiro do Sport F. C. da Primeira Divisão do futebol pernambucano) e a seus colegas Tará e Guaberinha do Santa Cruz (já aposentados), para que lhe dessem "uma mãozinha" (ajudassem), pois o sargento não era entendido nas regras deste jogo.
Nos meninos da escola iídiche (judaica), despertou grande interesse, porém afora uma reunião de motivação com o Buchada (José Bushatsky) o projeto não vingou (realizou).
O time da escola Israelita ficou só na promessa.
As fotos hoje postadas nesta croniqueta, foram tomadas muitos anos depois, já no fim dos anos 40 do século XX.
Foi uma terceira tentativa de formar um time juvenil de jovens judeus.
Agora não era no intuito de assimilação aos costumes locais, muito pelo contrario era um intento de reunir e incorporar a juventude judaica, no movimento sionista de esquerda o "Hashomer Hatzair" (A Jovem Guarda), preparando-os ideologicamente e fisicamente para uma vida nos assentamentos agrícolas em Israel.
Era a redenção das terras desérticas da Palestina.
Preparar aquela área no médio Oriente, abandonada e descuidada pelos que por ali perambulavam e assim poder absorver milhares de refugiados judeus, sobreviventes da carnificina nazista, nos infames campos de concentração e os fornos de crematórios humanos.
Seria finalmente a concretização da mensagem bíblica, "a volta do povo preferido" para sua terra natal, depois de 2000 anos de exílio na diáspora.
O time de futebol era um mero pretexto, porem a garotada via nesta formação do time de futebol algo maior que a realização sionista em Israel.
Os "craques" futebolistas constituíram a equipe denominada Maapilim (em hebraico, "Escaladores") e jogavam contra outras equipes dos diversos bairros e ruas do Recife.
O nosso orientador e técnico era o "chaver" (camarada) Ary Ruchansky que nos imbuia também das teorias revolucionarias e sionistas daquela época.
Lembro-me dos campos e campinas que disputávamos as partidas amistosas. Estas eram acordadas dois a três dias antes da contenda e se chovia muito a partida (jogo) era cancelado de comum acordo por ambos os times (equipes).
A campina da Ilha do Leite (de terra),  campo da escola Técnica do Derby com gramado e redes,  campo quartel da Escola da policia militar do Derby (gramado de primeira e redes), campo da Escola de Agronomia USAP, em Dois Irmãos (arquibancada, banheiros, gramado, redes e até linhas demarcatórias).
Às vezes ganhávamos e às vezes perdíamos, às vezes tristes com a derrota e às vezes alegres com as vitórias, se dava empate nos confraternizamos com o adversário, mas nem sempre estes gostavam de se abraçar com a "judeusada" do time que não os deixou ganhar a partida e xingavam a bessa. Dava até medo.
Possuíamos nossas próprias pelotas compradas na Casa Sport ou do Atleta, aquelas de numero cinco de cor alaranjada, era a moda na época e não branca como atualmente.
Quase ia esquecendo, tínhamos uniforme com emblema do nome do time "MAAPILIM" e jogávamos descalços ( Ver fotos).
Meu Deus do céu, quantos artelhos (dedos dos pés) deslocados, calcanhares inchados, água nos joelhos, empurrões, pontos na cabeça cuja cicatriz fica para toda vida, palavrões pejorativos para com as mães dos jogadores e os juizes. Estes em grande parte eram nossos amigos, que nos acompanhavam para ver as partidas e eram nomeados "in loco", juizes da contenda.
Senha (Alexandre Ribemboim), era um juiz muito bem conceituado por todas as equipes pelo seu grande conhecimento das regras do "Foot Ball Association". Quando ele não estava presente por essa e aquela razão e os dois times não concordavam com a escolha do juiz, então  atuava no campo até dois juizes, um de cada time, cada qual responsável pela metade do campo e não era nada mal, até que dava certo. A imparcialidade era meio duvidosa, mas o que não se faz pelo amor ao futibó.
Éramos garotos cheios de vida, até inventávamos umas "regrinhas" próprias.
Às vezes atuavam dois juizes, sem bandeirinhas, sem impedimento (ficar esperando passes na "banheira"), sem cartão amarelo, etc. Jogávamos pela camisa e o emblema nela estampado e pra que mais?
Tínhamos um par de jogadores reservas.
Zeca Guitsis, avisou-nos que jogaria bola conosco, porém não faria "aliá" (viajar para a "terra Santa").
Outro era Meira (Mauricio Bucuar), reserva "só pra inglês ver", pois estava registrado oficialmente no time juvenil do Sport F.C. que proibia terminantemente sua participação em torneios alheios, pois caso se contundisse, seria expulso do clube. Porém ele às vezes nos acompanhava nos jogos, ficava no "banco dos reservas" só para meter medo aos adversários como se fosse a nossa "arma secreta" e que logo mais substituiria ao Itiel Bubman, que de tanto dar empurrão poderia ser expulso, fora disso, ele não utilizava os dois pés e Meira tinha esta grande vantagem, ademais caso houvesse pancadaria ele nos ajudaria a sair são e salvo.
Tudo isso acabou, alguns do nosso time e o instrutor Ary, foram por em pratica o tal socialismo agrícola em Israel (Kibutz).
Outros quando assistiram no salão da sociedade Israelita um documentário filmado num Kibutz de brasileiros (Kibutz Bror Hail), uma cena que mostrava um rapaz do Rio, no verão calorento, cortando pasto com uma alfanje e  num close up, o cameraman o pega com um trapo de pano enxugando o suor que corria no seu rosto, foi suficiente para a tomada de decisão de abandonar a idéia louca de ir se meter a ser agricultor em Israel.
-Ta louco, melhor mesmo é ficar tomando uma brisa, sentado numa espreguiçadeira comendo "casquinho de siri", tomando uma água de coco bem fria na praia da Boa Viagem, não é mesmo minha gente? Nós somos a "banda fraca", criados para o amor, sionismo que façam os fortes.

FIM DO SONHO.
* Dados do artigo do Dr. Mizrachi, publicados no Diário de Pernambuco.


Foto 2, após a derrota frente o time dos garotos italianos PAPALEO.
A nossa equipe sem vontade de pousar para a posteridade.
Deitado diante da equipe o nosso "menager" (menahel) Ary Ruchansky. Vive em Israel.

Fotos da coleção de Paulo Lisker.
Todos os direitos autorais reservados.

sábado, 27 de julho de 2013

O PASTOR DE PERUAS NO RECIFE

O PASTOR DE PERUAS



                                            Rabico do autor da croniqueta
O PASTOR DE PERUAS

Paulo Lisker, de Israel

Que eu saiba ou me lembre, ninguém escreveu nada sobre este personagem, o tal "Pastor de Peruas".
Acho eu, que ele deveria constar nas dezenas de descrições dos escritores e cronistas que abordaram o tema dos pregões no Recife. Outros foram até mais adiante e englobaram todo nordeste e norte do país. Eram pregões "pra dar e vender" e o "Pastor de Peruas" ficou esquecido. Quem sabe o dito cujo era um "fenômeno" exclusivamente recifense, mesmo assim, é muito estranho que não conste em coletânea nenhuma dos pregões até hoje publicados ou nos arranjos musicais efetuados e levados ao ar por cantores locais.
Se estiver enganado, por favor, me corrijam, OK? Estou sempre pronto para aprender dos que conhecem melhor a matéria. Como diz um ditado hebraico: "MIKOL MELAMDAI ISKALTI", ou seja, (de todo mestre, aprendi).
Para mim, quando pixote, o "pastor de peruas" era uma figura exótica, não menos importante que o vassoureiro, o vendedor montado de frangos e galinhas, o vendedor de pirulito, o vendedor de miúdos, o cavaquinho, o verdureiro, o fruteiro, o vendedor de lã de barriguda e muitos outros mais, que figuram com muita razão nas descrições impressas e até em letras de músicas".
Então em homenagem ao "pastor de peruas" (nem me lembro o seu nome), este ambulante esquecido, dedico esta "croniqueta infantilóide", pelo serviço que prestava a comunidade judaica do "Recife Matuto", nas primeiras décadas do século XX (visto através dos olhos de um menino).
Então vamos lá:
Nos tempos das festas de fim do ano (Natal e Ano Novo), aparecia no Bairro da Boa Vista, o tal "Pastor de Peruas".
Ele trazia as suas peruas de fora da cidade. Tinha um sitiozinho ainda do tempo de seus avós (uso capião), detrás do cemitério de Santo Amaro. 
Andava um bocado até chegar ao "umbigo" do Recife e quando atravessava a Avenida Conde da Boa Vista e entrava na Rua Gervásio Pires, já se ouvia o seu cantarolado que era o seu pregão: 
-"PERU, PERU NOVIN PRAS FESTAS DO NATÁ E ANO NOVO QUE TÁ PERTIN. JÁ, JÁ É VESPRA! QUEM NÃO QUER UMA PERUA NOVINHA BEM FORNEADA NA MESA DO NATAL. PAPAI NOÉ VAI FICÁ ZANGADO QUANDO ESPIÁ PELA JANELA E NÃO VÊ A BICHINHA! 
PERU NOVIN, OLHI AÍ, O ÚNICO BICHIN QUE MORRE NA VÉSPRA, TADINHO. 
PERU, PERU, PATROA, PRÔ NATAL E ANO NOVO. BICHIN TÃO NOVIN QUE NEM AVOÁ ". 
O "pastor e seu rebanho", caminhavam sempre na calçada que fazia sombra é claro.
Assim sendo, tinha que atravessar frequentemente as ruas, passar da calçada do sol para a da sombra.
A ordem e a disciplina das peruas, entrava em ação,elas caminhavam obedientemente na sua frente, uma dúzia ou mais de peruas e às vezes mais quatro ou cinco patos.
Parecia até uma unidade militar bem disciplinada caminhando com seu "comandante", às vezes elas iam à frente dele e noutras o acompanhavam quando iam atravessar a rua.
O "pastor" levava na mão um raminho de marmeleiro e ia tocando levemente naqueles que perdiam o rumo certo da marcha e assim orientava o caminho a seguir do seu disciplinado "comboio".
Seguia caminhando e cantarolando o seu pregão:

"XÔ, XÔ, XÔ PIRÚ, MARCHA DIREITIN! CAMINHA, CAMINHA, ANDA COM A TROPA. XÔ, XÔ, XÔ PIRÚ, VAI APRUMADO, NUN SAI DA LINHA NÃO, ADONDE TU VAI BOBÃO, SE TU NÃO VAIS DIREITO TU ACABAS NO FACÃO! XO, XO, XO, PIRÚ"! 
Desta forma despertava a sua freguesia que já o esperava desde o principio do mês de Dezembro. Assim eram todos os anos, sem faltar nunca.
Do tempo de menino me lembro que isso acontecia nas vésperas do Natal e Ano Novo e esporadicamente em outras épocas do ano.
Quando o "comboio" passava diante dos portões dos sítios e casarões da nossa rua era uma alegria para os perus velhos dos quintais. Era só ver aquele bando de peruas novinhas, começavam os perus a ficar tesudos, encher o papo de ar, arrastar as azas no chão e aí vinha à cantiga clássica da peruada:
GLU, GLU, GLU, GLU, RRRUUSSS...
GLU, GLU, GLUG, GLU....
GLU, GLU.... TUUFFSS (tirando ar do papo).
Mesmo depois do "comboio" passar, os velhos perus, ainda tezudos, continuavam a cantiga que se ouvia na rua toda. Até a meninada que sabia imitar, entrava em ação então o GLU, GLU, GLU, se ouvia na Boa Vista toda. Onde criavam no quintal o seu próprio peru para as festas de ano novo, a cantoria do GLU, GLU, GLU era generalizada e todo Recife "gluglu-lava" como se estivessem anunciando e homenageando a chegada do próximo Natal e Ano Novo.
O que estas aves não sabiam era que isto estava aproximando o seu destino final, o forno.
Já depois de adulto alguém me disse que não se deve irritar o peru e fazer ele "GLU, GLUJAR", uma vez atrás da outra, pois ele tem um coração pequeno em relação ao tamanho do seu corpo e acontece frequentemente sofrer um ataque cardíaco e morrer em seguida, então cuidado, muito dinheiro perdido e esforço esbanjado, uma pena!
Quando se via o "Pastor de Peruas" fora do tempo das festas cristãs, podias estar certo que logo-logo seria comemorado alguma festividade judaica. 
Seria o "Rosh Hashaná" ("Rosheshune*", Ano Novo dos judeus), ou vai haver batizado, Brith*( circuncisão), ou noivado (Tnoim)*, no qual as famílias de ambos os lados se comprometem quais as prendas ( "nedunie"*, enxoval), que serão oferecidas ao jovem casal), ou casamento (a Hassené*) das famílias envolvidas no tal evento.
Todas estas festividades nas casas dos judeus, sem este prato (peru forneado) imagine, seriam considerados mesquinhos.
Para celebrar estas festas judaicas, como não havia telefone, as famílias interessadas tinham que ir a pés, bastante tempo antes até o sitio em Santo Amaro e negociar o preço e o numero de aves. Pagavam algo adiantado (para comprar milho e farelo) e garantir que a encomenda estivesse pronta na data marcada.
Às vezes mandavam um dos empregados fazer a "transação", porém acontecia que nem sempre dava certo não (cabeças de bagre), "goieshe kep", em iídiche. Essa gente não é pra fazer negócios.
Não sei se vocês sabem, mas era comum dizer que esta ave morre sempre na véspera, ademais existe um costume corriqueiro de dar uma colher de sopa de aguardente, duas ou três horas ante de degolar. Diz a sabedoria do povo que o aguardente tem algumas funções, a saber: amaciar a carne da ave, diminuir o sofrimento do abate no momento do corte das veias da goela.
Que Deus nos perdoe por matar o que o Criador colocou junto aos demais seres vivos na face da terra.
Este procedimento era necessário para garantir a carne dessa ave nas mesas da festa, então quem somos nós para por em duvida o ditado: "A voz do povo é a voz de Deus".
A verdade era que ao levar ao abate as peruas embriagadas, não sentiam o corte ao serem degoladas (abatidas) e a carne ficava macia. Então tudo legal.
Em geral o abate das aves (perus, peruas, patos, galinhas, etc.) era feito pelo "Shoihet" (o mata galinha, judeu), que fazia segundo as leis do abate"Casher", segundo o prescrito nas santas escrituras.
Assim sendo, a carne desta ave (peru ou perua) era obrigatoriamente servida nas mesas dos convidados, sempre bem preparada e com o maior requinte.
Viva o peru, "tadinho" (diminutivo de coitado, coitadinho, na língua do povo), morre na véspera, bêbado e abatido pelo Shoihet.
Agora entendo o tal dito popular: O peru é o único ser vivo que morre na véspera.
A razão disso, é que se faz necessário tempo para o preparo da carne, a imersão dela nos temperos (marinada) e molhos durante toda a noite e depois os destinos diversos, para o forno, cozido em fogo baixo e o preparo dos "helzelach".
O "helzelach" é a pele do gogó da ave recheada com uma mistura que leva grivalach* (torresmo), cebola bem picadinha fritada, carne moída de galinha ou de pato com muito alho, condimentos de todo tipo e com certeza outras coisas gostosas que eu mesmo como curioso nunca soube a formula exata desta mistura do recheio. No fim do "enchimento", entravam em ação as "costureiras" que com agulha e linha branca costuravam os dois lados do gogó antes de colocar na panela do cozido das partes do peru ou perua que não iam para o forno.
Assim sendo, a carne desta ave (peru ou perua) ia para as mesas dos convidados, sempre bem preparada com o maior requinte.
Eu quando era menino gostava imensamente de comer "helzelach" uma delicia que depois da minha infância nunca mais provei algo igual, parece que o tal "helzelach" (Gogó recheado), morreu com a geração que já nos deixou. Pena!
Falando sério, nunca fui fã da carne de peru.
Para mim, por mais temperos (segredos culinários judaicos) que usassem, e os das nossas eximias empregadas cozinheiras, e mesmo que estivessem tocado de cachaça, o produto acabado do "hindik" (peru em iídiche), sempre sua carne era meio insípida e mais parecia se estar mastigando palha ou sei lá o que.
Mas digam o que quiser, as peruas assadas nas festividades dos judeus do Recife era um prato obrigatório. Sinais do tempo em que o "novo rico" mostrava o seu respeito pelos convidados da festa.
Eu não sei não, mas eu saía da festa "comendo um galo", lembram da expressão? Pois as fatias da "peituga" deste bicho forneado, não me passavam pela goela, nem com a ajuda de muito Guaraná, da Fratelli Vitta que era o usual naquela época em que se "amarrava cachorro com linguiça". Não me digam que não se lembram.
Eu sim gostava dos "helzelach", era de dar água na boca, mas nunca havia o suficiente para todos (pois cada peru só tem um gogó), e se acabava rapidamente mesmo que encomendassem 20 peruas, então só restava mastigar a carne insípida do peito do peru e mesmo assim muitas vezes deixava no prato. No fim da noite o que restava era destinado aos cachorros (cães aristocratas, comendo as sobras de peito de peru, só no Recife judaico mesmo).
Interessante que esta ave meio idiota, sempre recebia o nome de outro país, uma maneira de menosprezar e não causar muito dano, Assim sendo:
No Brasil é Peru
Nos USA é Turkey (turco)
Em Israel é Hodi (indiano)
Em iídiche é Hindik (indiano)
Em polonês é Indik (indiano)
Em catalã é Gala dede (galego)
Turquia é Hingdi (indiano)
Irlandês é Turcai (turco)
Húngaro é pulyca (polaco)
Espanhol é "pavo", (uma pessoa zonza, boba ou tonta e se usa muito para descrever os meninos quando estão passando pela adolescência).
Eita bicho danado da peste, ninguém quer ser peru que sempre morre na véspera ainda mais "bêbado".

* no idioma iídiche.
- Nova versão, parte da serie "OS PREGÕES DA MINHA RUA".
Todos os direitos autorais reservados.
(Versão atualizada da "croniqueta infantilóide", postada neste blog em 03/9/2010).
Ilustração "infantilóide" do "Vendedor de Peruas", rabiscado pelo autor do texto.

O VENDEDOR DE FRANGOS E GALINHAS (no antigo Recife)



  

                        O vendedor de galinhas penduradas no cangote- Foto Google, Internet

DAS CONVERSAS COM MEU AVÔ 

O VENDEDOR DE FRANGOS E GALINHAS 

Paulo Lisker, de Israel.

Este vendedor ambulante vinha montado num cavalo. Na cangalha, dois caçuás (uma espécie de balaio para aves), um de cada lado. Um pra frangos e outro para galinhas.
Já de longe se escutava seu pregão:

- PATROA HOJE TEM O QUE NINGUÉM TEM. GALINHA GORDA SEM "GOGO" E DE PAPO VAZIO PRA NUM PESAR O MILHO QUE PAPOU, NEM ARGUMA AGUINHA QUE BEBEU. TEM FRANGUINHO NOVIN PRA SOPINHA DA VOVÓ E O NENENZINHO. HOJE TA TUDO BEM BARATIN. GALINHA GORDA, FRANGUIN ALVIN, NOVIN, NOVIN, É SO VIM LIGEIRIN PAGAR E LEVAR.
GALINHA SEM GOGO.
FRANGUIN, VÈ SÓ QUE COISA LINDA DE DÁ GOSTO.
CHEGÔ CAPÃO DO BREJO PRA QUEM SE APRESSÁ. SÓ FICÔ TRÊS!
QUEM VAI LEVÁ MINHA GENTE!

Este senhor era exímio em tirar do caçuá, exatamente a mercadoria que a patroa desejava naquele dia, sem nem sequer espiar (olhar).
Ele metia a mão no caçuá e sacava "às cegas", exatamente o pedido.
Balança pra pesar? Pra que balança, ele era a balança, ainda mais que todas tinham o mesmo preço, qualquer que fosse a ave que tirasse.
Quem já viu vendedor montado num cavalo precisar balança pra vender galinha. Tas doido? Quem fala aqui é a voz da experiência.
As galinhas gordas tinham também um único preço e eram bem mais caras em relação aos frangos, sempre quando fosse para as donas de casa judias e ele sabia o porquê.
Calma no Brasil, eu já explico mais adiante a sabedoria do vendedor de galinhas montado.
No caçuá dos frangos era também o mesmo proceder, para todos, preço único.
Somente os capões* que vinham separados dos frangos, custavam para qualquer um, muito mais caro, pois trazia muito mais carne!
Capão coitado, desde novinho era só comendo pra engordar, nada de rodopiar e trepar as galinhas do terreiro.
Falando de preço, entrava em jogo a amizade que tinha com as suas clientes e vice versa para receber ou não um abatimento qualquer (algo mais barato), do preço pedido. Às vezes conseguiam outras não.
Quando as empregadas recebiam resposta negativa, ficavam "de mau" (zangadas) com o vendedor de galinhas e iam procurar comprar mais barato numa feira de rua, nas proximidades. Matutas com senso comercial, quem diria que não?
Quando compravam na feira, era sempre mais barato, regateavam a bessa, voltavam rápido pra casa e imediatamente passavam a faca na goela do frango, despenavam com água escaldante, tudo isso para evitar ter que esperar que a ave fosse abatida pelo "mata galinha" judeu (der shoihet).
Até ele chegar da Madalena no dia seguinte, a ave poderia demonstrar sinais de gogo e seria o fim, ou melhor, começaria o tratamento do frango ou da galinha com o xarope convencional produto da "medicina de quintal".
O vendedor de galinhas tinha os seus dias certos na semana pra passar na nossa rua e as patroas já sabiam de cor estes dias para não perder a compra dum capão bonitão (nós os meninos sabíamos que o capão era o "fresco" dos galos), ou comprar um franginho para a ceia do sábado, mas poderia ser também uma galinha bem gorda para a sopa.
Com a gordura excedente destas galinhas velhas e gordonas, as cozinheiras judias preparavam "torresmo Kusher" (Grivalach, em iídiche) o único permitido pela religião judaica, pois de porco era terminante proibido (Treifá, em hebraico. O idioma que falava Jesus Cristo**), e de boi velho, era mais sebo que gordura, também não prestava.
Este "vendedor montado" era muito chegado à comunidade israelita do Recife, conhecia a sua maioria pelo nome e também das empregadas.
Na realidade as famílias judias do Recife eram sua melhor freguesia.
Ele sabia que os judeus tinham um costume antigo de preparar "torresmo" da banha e pele de galinha bem gorda e quanto mais gorda, mais rendia.
Nem todo mundo gosta da ave muito gorda, cheia de banha (a feté hin, em iídiche) e o "vendedor montado" logo identificou nestes judeus, um mercado promissor para estas galinhas velhas, gordas em geral "chocas" (período pós postura), o importante era que estivessem isentas da doença do "gogo" (gripe de aves***).
Fazia-se de inocente, falava mansinho contando para a patroa como estas galinhas gordas foram criadas a "pão de ló" na sua granja em Afogados e que estão mesmo no ponto para irem pra panela, e render muito torresmo.
Ele não media esforços, usava todas sua "lábia", uma maneira elegante de convencer a alguém que já estava convencido.
Desta forma se formou uma amizade "pra mais de contrato" (Duradoura, na língua do povo).
Recebia das "vaiber" (senhoras judias) um preço que cristão nenhum daria e nem olharia pra aquela ave velha e gorda.
Realmente as judias compravam todas, não ficava uma para "remédio ou amostra"!
- "Grivalach, hoje faremos grivalach e vai dar mais de um pote de shmaltz". Diziam alegres umas as outras nos postigos dos casarões da Rua Gervásio Pires.
A alegria se apossava de toda colônia judaica no Recife, pois preparar os tais "Grivalach" era um costume ancestral que atravessara o oceano e viera com eles nos "baús culinários" da Europa.
Não tem judeu que não provou este tipo de "torresmo kusher da banha de galinha".
Ele ao natural ou com outras comidas judaicas, assim como, "knishes, kreplach, varenikes" (guloseima de massa), com recheios diversos, assim como, purê de batatas, cebola frita bem picadinha, carne picada ou mesmo queijo branco salgado (de leite coalhado, feito em casa).
Estas eram consideradas com toda razão verdadeiras "gostosuras" (delicatessen, no iídiche).
Todas estas comidas (de preparo caseiro) levavam os "grivalach" como componente essencial da massa e às vezes do próprio recheio.
Era o que na realidade dava o gostinho na língua e lembrava a cozinha judaica dos "shteitalach" da Europa. (As pequenas aldeias interioranas nos seus países de origem).
O "shmaltz" é óleo subproduto da fritura da banha da galinha gorda, usada para produzir os "grivalach".
Retirado os "grivalach", resta o tal shmaltz.
Não queiram nem saber, mas o gosto dele quando passado numa fatia de pão fresco branco ou preto, com sal, acompanhado duma cebolinha e um cálice com dois dedos de cachaça qualquer, acreditem é de se lamber os beiços.
Era comum ouvir na venda de dona Rosa na Rua da Matriz, o seu marido o senhor Salomão dizer:
É bom tomar uns golinhos durante o dia. O problema é que no Recife não tem inverno como na Rússia, pois este shmaltz no pão preto com uma cebolinha tenra é o irmão gêmeo da aguardente, andam sempre juntos.
Alguém que estava presente refutava: 
-Então por que o senhor aqui no Recife, mesmo sem inverno, sempre está "alegre" tomando sua cachacinha?
Ele rindo e sem titubear respondia:
Quando faz calor, tomamos pra esfriar o corpo e quando chove e faz um tiquinho de frio é para esquentar os velhos ossos (de alte beiner, em iídiche) e não pegar reumatismo como o senhor "Yankel fun der rais" (Jacó, do Arroz, apelido do seu vizinho, em iídiche), este do outro lado da calçada. Boa gente, mas o que fazer? Ele está todo "entrevado". Se tomasse uma "branquinha" de vez em quando, os seus ossos não fariam tanta zoada (barulho) quando se movem. 
Coitado, agora é tarde.
Nem toda "cachaça de cabeça" do Engenho Monteiro (conhecido no nordeste todo, pela sua boa "cachaça de cabeça"). Produção própria e feita com sua própria cana que ainda seus tataravôs trouxeram dos Açores, não ajudará a curar essa ossatura barulhenta e dolorida.
Aquele que gosta da "água que passarinho não bebe", não precisa de motivo especial para "emborcar" (beber de um só gole) um "aperitivo" seja no verão ou no inverno.
Continuava o seu trabalho na venda, arrumando os arengues gregos, as latas de azeitonas portuguesas e as de pepino em conserva (zovere iguerkes, em iídiche), produto caseiro de dona Rosa.
O cheiro que exalavam os produtos expostos nesta venda, era indelével e inolvidável e se arrastava pela rua afora até a esquina da Rua da Gloria e era de dar água na boca.
Agora voltando ao "divino shmaltz", quando colocado num pote bem fechado dura a vida inteira sem se deteriorar mesmo nas condições da temperatura ambiental do Recife tropical.
Eu quando menino besta provei tanto um como o outro produto judaico. Foi no tempo que também uma fatia de pão branco quentinho recém chegado da padaria na Praça Maciel Pinheiro, com manteiga e açúcar Cristal polvilhado por cima, era uma maravilha de sobremesa.
Considerem que isto foi no tempo que o colesterol era desconhecido, assim sendo, não espantava á ninguém.
Numa ocasião um católico amigo do meu avô foi convidado para jantar na nossa casa. Quando olhava as comidas judaicas postas na mesa nesta festa familiar, disse:
Senhor Joseph, não é pra botar azar, mas vocês judeus morrem feito peixe.
- Não entendi, ou melhor, não "pesquei" a sua profecia senhor Cristiano, porque que nem peixe? E como morre peixe? Não vá me dizer que morre afogado.
-Pela boca seu Joseph, pela boca!
 Respondeu senhor Cristiano.
Não sabia ele, como tinha razão!
Mas no fim "dos trocados" o senhor Pedro Cristiano, comeu da gostosa e cheirosa cozinha européia judaica e ninguém soube dizer se pelo "crime cometido" tenha ele morrido de um enfarte instantâneo.

*Capão – frango (Pinto novinho, castrado).
** A língua que falava Jesus Cristo era o hebraico. Sua última frase, já na cruz foi: "AVÍ LAMA AZAVTEINI" (em hebraico da época), ou seja: "PAI POR QUE ME ABANDONASTE".
Porém por pesquisas feitas nos últimos anos, tem quem afirme que o idioma era um anterior ao hebraico, o Aramaico.
*** Gogo - Às vezes, no tempo das chuvas (inverno no nordeste), no nosso quintal apareciam umas galinhas com "gogo" (Gripe das aves) . Ninguém fazia disso nenhuma tragédia, logo usávamos um santo remédio que era baseado numa colher de sopa com vinagre ou sumo de limão da terra e uns pingos de cachaça. Era "tiro e queda", o "bicho" esperneava, mas engolia o xarope. E não era que algumas conseguiam dominar o gogo? Sim senhor. Conseguiam! Outras morriam. Porém toda esta "medicina" está baseada no clássico ditado popular: "SE NÃO MATA, ENGORDA" e a coisa funcionava exatamente como diz o tal ditado.
As curadas era lucro líquido para a "economia doméstica" do Brasil todo.
Nunca ninguém fez uma analise estatística do caso do "gogo" nos quintais da Boa Vista. Lastima quem sabe o Brasil perdeu seu primeiro Premio Nobel em "Medicina Veterinária". Tem premio Nobel disso? Se não tem, deveriam criar, pois esses nórdicos só criam prêmios pra coisas que eles inventam. Assim já ta demais, não é mesmo?

Trecho dos pregões publicado em 03/9/2011, no Geléia General.
Refeito e corrigido em 16/10/2012
Todos os direitos autorais reservados
Cuidem o créditos. 


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

MSN Estadão

MSN Estadão



A seca no Nordeste

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A SECA NO NORDESTE
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Paulo Lisker, de Israel
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O fenômeno da seca não começou no governo dos “petralhas”, isso existe milênios. Olhando bem, este quadrilátero da seca está no mesmo paralelo dos desertos do norte da África e não foi o homem quem criou, mas só ele é quem pode resolver.
Esse negocio de ficar olhando para o céu para ver quando a chuva virá, não resolve nada. O mundo já entendeu que consertar a natureza no caso das estiagens só tem uma solução: IRRIGAÇÃO.
Entendo segundo a crônica do Sr Ivan (um dos melhores articulistas deste blog), que os rios Jaguaribe ou mesmo o São Francisco estão na “beira da morte”.
No tempo que eu calçava botas e andava por lá, irrigavam dezenas de projetos agrícolas que produziam produtos agrícolas nunca dantes produzidos por causa desta intempérie que até o Imperador Dão Pedro II dele se referia (Venderia as jóias da coroa para resolver...).
Naquele tempo não existiam as tecnologias de hoje e nós o desculpamos por não vender as jóias.
Estimado, a solução não é olhar para o céu e sim, abrir as torneiras dos sistemas de irrigação e nunca mais haverá seca no nordeste.
O Brasil tem tecnologias para tudo, não terá o que os egípcios tinham a milênios passados. Egito vive do que o Rio Nilo irriga, ninguém lá olha para o céu esperando a chuva.
O Brasil com suas tecnologias de ponta e engenheiros que possui poderá caso que os rios acima citados, estejam uns comprometidos com a produção de energia e o outro regando projetos já existentes, trazer um afluente do Tocantins ou qualquer outro rio perene e regar todo o nordeste.
Tecnologia existe e dinheiro que o Banco Mundial ou o FMI deve ao Brasil, então o nordeste sairá de uma vez por todas deste pesadelo de estar com o pescoço duro de tanto ficar olhando para o céu esperando as chuvas.
Eu vivo num país que tem 10 meses secos e dois com alguma chuva.
Nos meses de chuva (quando existe) plantamos cultivos menos rentáveis da cesta básica, Choveu, muito bem, temos trigo ou cevada, não choveu, não perdemos nada ou quase nada e como temos seguro agrícola, os agricultores que se arriscaram e se asseguraram recebem alguma indenização.
Dizem os cínicos daqui que o melhor ramo agrícola no deserto é o seguro, este vem sempre na hora H e chuva só quando Deus dará!
E como é que Israel produz todas as suas necessidades agrícolas e ainda exporta para Europa, USA, e até para o Japão, as hortaliças, frutas e até flores?
Gostamos e respeitamos muito a entidade divina, mas não confiamos nele.
Nos metemos a cavar poços de 1000 metros de profundidade (parte deles de água salobra), usamos as terras desérticas com sistemas modernos de irrigação (vendemos para o mundo todo), acompanha a extensão agrícola, a pesquisa, os insumos, o cooperativismo, estações de maquinas agrícolas.
Ultimamente reutilizamos as águas de esgoto e os arrastes da chuva nas áreas cobertas com asfalto e para livrar as águas subterrâneas salobras para a agricultura, desalinizamos água do mar e toda a população a utilizará acrescentada com os sais necessários ao corpo humano.
Meu mestre, senhor Iehoshua (Jesus) me ensinou algo que nunca esquecerei: “A melhor área para agricultura sofisticada de alta produtividade e ingressos é UM DESERTO E UM RIO”, diferente dos meus estudos ESAP, no Recife dos anos 50.
Os dois componente existem no sertão brabo só falta deixar de espiar pro céu azul sem nuvens, ver a terra ardendo, se lamentando com as canções de L. Gonzaga e continuar se balançando na rede ou se meter num “pau de arara” indo buscar melhor sorte no sul do Brasil.
Então fico triste, pois o nordeste tem tudo para fazer agricultura de ponta (em parte já realiza este milagre nas áreas irrigadas nas margens do São Francisco) em lugar de se contentar com as músicas e lamentos, esperando “a volta da asa branca”, trazendo tempos melhores.
Entendo lamentos quando não existem soluções quando a batalha contra a natureza está perdida, porem não é essa a situação do nordeste brasileiro.
O Brasil não esta dormindo não.
Faz um mês estiveram aqui engenheiros e agrônomos do Ceará numa missão em busca de mudanças de estratégia de projetos irrigados para produção de hortaliças e especialmente melão para exportação para Europa.
Visando uma queda neste mercado buscaram uma mudança drástica para transformá-lo num projeto de produção de leite.
Israel pode neste assunto colaborar com o conhecimento na matéria, tanto no rego de forrageiras para a alimentação de gado de boa raça em condições do sertão (clima árido) e produzir altas lactações por cabeça e desta forma conseguir alta rentabilidade para pagar o investimento necessário num ramo leiteiro desta envergadura.
É minha gente, o Brasil dando um banho no mundo e não chorando com as musicas do sanfoneiro.
Proponham soluções nas vossas crônicas e não só choradeira, pois tristezas não pagam dividas.
"O BRASIL É FEITO POR NÓS".

(foto: Internet)